GABRIEL ARAÚJO
FOLHAPRESS
Entre declarações de apoio e participações pontuais em atos de campanha, o governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), tem adotado uma postura discreta na mobilização pela candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.
O comportamento chama atenção especialmente após o presidente Lula (PT) recomendar que o mineiro ficasse “quietinho” neste segundo turno, em um recado interpretado como ameaça por aliados do governador eleito.
A expectativa de aliados de Flávio era a de que Cleitinho atuasse como cabo eleitoral do PL no estado no segundo turno.
No dia 16, ao fim de uma caminhada com apoiadores em Juiz de Fora (MG), Lula afirmou que o estado se tornaria “um cemitério de obras paralisadas” sob um eventual governo Flávio, e disse que Cleitinho teria mais a ganhar caso ele próprio saísse vitorioso das eleições nacionais.
“Eu tenho certeza que o Cleitinho é esperto. Ele não precisa me apoiar, ele só tem que ficar quietinho”, disse o candidato à reeleição.
O recado foi propagado como uma forma de intimidação por aliados do governador eleito e por políticos alinhados ao bolsonarismo no estado.
Gleidson Azevedo (Republicanos), irmão de Cleitinho, chegou a postar um vídeo em suas redes sociais chamando o presidente de covarde e ditador. “A melhor resposta que a gente tem que dar pro Lula é ir em massa nas urnas e eleger o Flávio”, disse o deputado federal eleito.
Cleitinho também respondeu ao presidente, mas optou por não endossar a narrativa de coação. Preferiu usar o termo “polêmica” e reafirmou o apoio a Flávio, o que tem manifestado publicamente mesmo antes do primeiro turno, quando o empresário Flávio Roscoe foi o candidato do PL no estado.
“Estou fazendo isso porque sou de direita e por gratidão ao Jair Messias Bolsonaro, que me apoiou na minha eleição do Senado”, disse o governador eleito num vídeo publicado.
A postura sóbria da justificativa dada nas redes sociais, numa postagem feita em colaboração com o perfil de Flávio, contrasta com o tom de um breve discurso de Cleitinho num encontro de lideranças da direita em Belo Horizonte, na terça-feira (20).
De forma enérgica, Cleitinho conclamou prefeitos, deputados, vereadores e lideranças empresariais para um esforço coletivo de virada de votos a favor de Flávio. “[Se] eu falar para pedir votos aqui, eu estou pregando pra convertido”, disse. “Vocês têm que sair daqui com o intuito de pedir voto pra quem ainda não decidiu, porque a eleição ainda não está ganha.”
A posição foi reafirmada na noite desta quinta-feira (22), quando Cleitinho participou de uma edição do Bloco do 22 em Divinópolis (MG), sua cidade natal, na região centro-oeste do estado.
O ato contou ainda com a presença de outros nomes do campo conservador mineiro, como o senador eleito Domingos Sávio (PL), seus irmãos, Gleidson e Eduardo Azevedo (PL), e Bruno Engler (PL). Os dois últimos foram reeleitos deputados estaduais neste ano.
O governador eleito chegou a descer do trio elétrico para caminhar junto aos apoiadores de Flávio reunidos no centro da cidade, entretanto, diferentemente dos demais políticos presentes, não repercutiu a participação em suas próprias redes sociais.
Cleitinho era esperado para uma edição do chamado Bloco do 22 com a presença de Flávio no dia 15 em Capelinha (MG), no Vale do Jequitinhonha, mas faltou ao evento sob orientação de repouso médico após ter sido diagnosticado com pico de pressão arterial e frequência cardíaca um pouco elevada.
O governador confirmou presença em ato previsto para este sábado em Belo Horizonte, penúltimo compromisso público de Flávio antes do encerramento da campanha do presidenciável, no Rio de Janeiro.
Eleito em primeiro turno com 55,4% dos votos válidos, ele tem acompanhado, nas últimas semanas, o andamento da transição do governo, cuja coordenação foi delegada ao vice-governador eleito, Luís Eduardo Falcão (Republicanos).
Nesta quinta, o futuro governador também se reuniu com o desembargador Vicente de Oliveira Silva, presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
Dentre os desafios a serem enfrentados pela próxima gestão, se destaca a dívida recorde de Minas Gerais à União, de quase R$ 200 bilhões. O débito foi renegociado no âmbito do Propag (Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados), que estabeleceu o parcelamento do saldo em 30 anos. O governo estadual informou que, até 15 de outubro, havia pago R$ 1,03 bilhão em parcelas do programa.
A dívida foi assunto de um encontro entre Cleitinho e Luís Eduardo Falcão com Flávio Bolsonaro, no início da campanha de segundo turno, junto a outros políticos da direita do estado.
O governador eleito disse que, na ocasião, fez apenas dois pedidos ao presidenciável do PL: que ele votasse pelo fim da escala 6×1, uma das bandeiras da atuação de Cleitinho no Senado, e que ele se comprometesse a, caso eleito, reverter o valor das prestações da dívida em fomento à infraestrutura, segurança pública e saúde no próprio estado.
A assessoria de Cleitinho não informou se houve uma conversa do tipo com Lula ou com algum interlocutor do governo federal.
Cleitinho reafirma apoio a Flávio Bolsonaro após recado de Lula, mas mantém discrição no 2º turno
Expectativa de aliados de Flávio era a de que Cleitinho atuasse como cabo eleitoral do PL no estado no segundo turno
Senador Cleitinho. Foto: Carlos Moura/Agência Senado