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Política & Poder

Centrão quer aliança com a esquerda para conter o bolsonarismo e manter Motta no comando da Câmara

A intenção é atuar como uma espécie de “poder moderador”, independentemente de quem vencer a disputa presidencial

Redação Jornal de Brasília

20/10/2026 6h22

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Foto: Ricardo Stuckert.

Partidos de centro e centro-direita intensificaram nas últimas semanas as articulações para manter o deputado federal Hugo Motta (Republicanos-PB) na presidência da Câmara e preservar o controle do grupo sobre a agenda de votações no Legislativo. Diante do veto do PL a Motta, líderes do bloco esperam atrair o PT e outras siglas de esquerda para a aliança, em uma estratégia para manter a autonomia do Legislativo em relação ao Executivo, sobretudo no cenário em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seja eleito presidente.

Como mostrou o Estadão, o PL elegeu 121 deputados federais, superando o recorde do MDB em 1990, na primeira eleição desde a redemocratização. O avanço da sigla comandada por Valdemar Costa Neto se deu em meio ao encolhimento de legendas do núcleo duro do Centrão e de outras siglas que se identificam como de centro, caso do MDB e PSD. O recuo global chegou a quase 30 assentos – de 284 passou para 257.

Integrantes do Centrão avaliam que o resultado das urnas reforça a necessidade de união das legendas para conter o avanço do bolsonarismo no Legislativo. A intenção é atuar como uma espécie de “poder moderador”, independentemente de quem vencer a disputa presidencial. Uma eventual vitória de Flávio, porém, é vista com mais atenção, já que o PL será a maior força do Congresso.

O primeiro movimento para viabilizar a reeleição de Motta ocorreu na semana retrasada, quando o deputado federal reeleito Antonio Brito (PSD-BA), líder do PSD na Câmara, comunicou ao presidente da Casa que não pretende disputar o cargo. A decisão abriu caminho para que o partido apoiasse a recondução de Motta.

A legenda de Gilberto Kassab é vista como a fiel da balança na disputa. Em 2024, Brito lançou sua candidatura à presidência da Câmara, mas desistiu em favor de Motta. Havia dúvidas sobre a possibilidade de ele voltar a concorrer no próximo ano, já que o PSD não declarou apoio a nenhum dos candidatos à Presidência e o deputado transita tanto entre governistas quanto entre bolsonaristas. Uma nova candidatura poderia representar uma pedra no caminho de Motta.

Com a sinalização de Brito, Motta se reuniu com Kassab e com a bancada do PSD e fez gestos para contemplar os interesses da legenda, como a promessa de colocar em discussão mudanças no sistema eleitoral.

Com o apoio do PSD encaminhado, Motta reuniu, na última quarta-feira, 14, representantes do Centrão para discutir os próximos passos da articulação. O bloco tem 271 deputados e reúne União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos e a federação PSDB-Cidadania. Após o encontro, os partidos divulgaram uma nota anunciando a manutenção do bloco e manifestando apoio à recondução de Motta

Segundo um dirigente ouvido pelo Estadão, a permanência de Motta no cargo é vista como forma de garantir a “autonomia do Parlamento”, independentemente de quem vencer a eleição presidencial. No encontro, afirma a fonte, os líderes e presidentes de partidos defenderam o fortalecimento das legendas de centro para assegurar o controle da agenda do País e evitar que ela fique nas mãos dos “extremos”.

Três líderes partidários afirmaram reservadamente ao Estadão que Flávio já comunicou ao Republicanos que o PL tem veto ao nome de Motta, mas estaria aberto a apoiar outra liderança da sigla, como o presidente do partido, Marcos Pereira (SP). A resistência se deve ao fato de Motta ter apoiado a reeleição de Lula e atuado como aliado do Planalto.

No almoço com os dirigentes, Marcos Pereira reiterou seu apoio a Motta. Mesmo outros líderes de partidos entendem que o atual presidente da Câmara é considerado o nome mais viável por estar sentado na cadeira e dispor de mais instrumentos para articular sua própria reeleição.

Para conseguir a recondução, correligionários de Motta apostam em uma estratégia semelhante à adotada por Arthur Lira (PP-AL) em sua reeleição. Na ocasião, ele reuniu o apoio dos partidos do centro e do PL, colocando o recém-eleito governo Lula diante do dilema de comprar uma briga com o Legislativo ou aderir à sua candidatura e garantir governabilidade.

O PT acabou cedendo. Na época, como mostrou o Estadão, o partido de Lula buscou não repetir o erro de 2015, quando lançou Arlindo Chinaglia para concorrer contra Eduardo Cunha. No mesmo ano em que venceu o petista, Cunha abriu o processo de impeachment contra a então presidente Dilma Rousseff (PT).

PT deve apoiar Motta

A intenção agora, segundo um líder partidário, é repetir Lira e atrair o PT e os demais partidos de esquerda para a aliança em torno de Motta. “O que a gente pretende é fechar apoio do Centrão ao Hugo e trazer o PT”, disse, reservadamente. Na avaliação dele, caso Flávio Bolsonaro vença a eleição presidencial, terá de decidir se quer iniciar o mandato em confronto com o Legislativo.

O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) afirma que o apoio do partido à reeleição de Motta é, de fato, uma possibilidade, sobretudo porque o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), pretende disputar o comando da Casa.

“Vamos, evidentemente, esperar o resultado eleitoral (para decidir), mas já está se lançando candidato – inclusive me comunicou isso – o (deputado) Sóstenes Cavalcante, do PL. Nada contra ele, mas, por ser do PL, tem uma posição muito distinta da nossa. Em especial se o presidente Lula ganhar as eleições, não temos tranquilidade com um deputado do PL (na presidência da Câmara). Então, é possível, sim, que haja uma aproximação entre o PT e os membros dos demais partidos de centro. Uma composição com o Motta é uma das hipóteses colocadas pelo PT que vai ser analisada.”

Procurado, Sóstenes disse que o partido não vai discutir a eleição para o comando do Legislativo antes do segundo turno. “Não temos clima e ambiente para discutir esse assunto antes do dia 25. Só temos um foco agora: eleger Flávio Bolsonaro.”

A avaliação entre dirigentes partidários é de que Motta começou bem a articulação, mas precisará trabalhar para transformar o apoio da cúpula do Centrão em apoio das bancadas – e cada uma tem seus interesses e particularidades.

Para o cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), as urnas redesenharam a correlação de forças do Congresso. Com menos cadeiras, os partidos de centro possuem margens mais estreitas para negociar espaços de poder.

“Com bancadas mais enxutas, os partidos de centro buscam preservar o comando do Congresso Nacional para compensar a perda de força parlamentar. É uma estratégia para manter influência sobre o Orçamento, a agenda legislativa e as negociações com o próximo governo. O controle dos espaços estratégicos do Parlamento passa a ser uma questão de sobrevivência política”, explica ele.

Apesar disso, ele aponta que atuar como um “bloco único” no Congresso não é tarefa simples para essas legendas. “São legendas com profundas divisões internas, interesses regionais distintos e lideranças com projetos políticos muitas vezes conflitantes”, diz ele.

Disputa pelo Senado é mais complexa

Já a disputa pela presidência do Senado é considerada mais complexa. Segundo líderes partidários, o crescimento do PL, que elegeu 19 senadores e terá uma bancada de 28 integrantes a partir do próximo ano, aumenta o peso da sigla na definição do comando da Casa.

Assim como Motta, o atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), também tem procurado dirigentes partidários para negociar apoio. A estratégia, segundo relatos, é buscar votos no centro e na esquerda, mas também entre os integrantes menos ideológicos do PL.

Estadão Conteúdo

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