Vencer a eleição para governador sem concorrentes à altura, usando o expediente apelidado de W.O. é uma estratégia real, do atual governo segundo a deputada distrital Eliana Pedrosa, que hoje se filia ao PPS. Para ela, soma-se a essa estratégia o pacote de aumentos aos servidores que pode configurar, realmente, uma herança maldita, que pode prejudicar o futuro governador do DF. A distrital fala também sobre a dificuldade de ser uma das poucas vozes de oposição na Câmara Legislativa. “A base de governo é tão grande que, quando chega o projeto, já se considera que ele está pronto. A Câmara Legislativa tem que dar oportunidade, a qualquer cidadão, de conhecer o que está sendo proposto”, criticou.
A senhora acredita que está em curso uma estratégia do governador Agnelo Queiroz para tentar uma reeleição por W.O.?
Acredito que sim. Para aquele que está no governo e pretende uma reeleição, o melhor dos mundos é a eleição por W.O, mas eu acredito que as outras forças políticas aqui de Brasília haverão de se unir para que isso não aconteça.
A votação das contas do governador José Roberto Arruda seria parte dessa estratégia?
Eu espero que não, porque a apreciação das contas tem que ser vista do ponto de vista técnico. Imaginar que você vai usar a política para descredenciar as contas de um governo que operou de maneira lícita, correta, como foi o entendimento do Tribunal de Contas para as contas de 2008 e também o voto da Comissão de Economia, Orçamento e Finanças da Câmara Legislativa, não é admissível. Mudar isso no plenário seria muito, digamos assim, estranho.
A senhora está se filiando hoje no PPS. Isso reforça sua candidatura ao Buriti?
Eu vinha ao longo deste ano me colocando à disposição para um cargo majoritário dentro do PSD. Com essa minha mudança para o PPS, também colocaria meu nome à disposição e espero que meu trabalho seja escolhido na convenção do partido num momento próprio.
O PPS elegeu dois deputados distritais em 2010. Com que metas o partido está trabalhando para as próximas eleições?
Estamos trabalhando com estreantes na política. Acho que os movimentos ocorridos neste ano, de manifestações populares, mostram que a sociedade está pedindo nomes novos. O PPS está trabalhando muito com essas pessoas que querem colocar seu nome à disposição para fazer a renovação que a rua vem exigindo.
O que a leva ao PPS nesse momento?
Eu já enfrentava alguma dificuldade dentro do PSD em termos de participação partidária. Não fazia parte da executiva, não tínhamos a possibilidade de participar das decisões do partido regionalmente. Esse foi o grande motivador. Eu sou uma pessoa que gosta de participar do debate, da crítica, de colocar as ideias até ser vencida. A gente aceita, mas ficar à margem do partido me deixou desconfortável. E a busca de um novo caminho surgiu com o PPS. É um partido por quem sempre tive uma grande admiração, grande atração pela sua história, de luta, que nunca ficou engessado.
Na Câmara Legislativa, já houve outras legislaturas em que o governo tinha grande maioria, mas nunca como hoje, quando são apenas três nomes de oposição. Como a senhora avalia esta atual legislatura?
É uma legislatura onde temos muitos poucos debates. Os projetos de governo entram na Câmara de uma maneira apressada. Os anteriores também faziam assim, mas, até por ter mais pessoas na oposição, por ter um perfil de parlamentares mais afeitos ao debate, discutia-se muito cada uma dessas questões antes que elas entrassem em pauta de votação.
Essa falta de debate se deve ao perfil dos atuais deputados?
É uma questão que decorre dessa base ampla. Ela é tão grande que quando chega o projeto, já se considera que ele está pronto, perfeito, não precisa de mais discussão, mas não é isso. A Câmara Legislativa tem que dar a oportunidade, a qualquer cidadão, de conhecer o que está sendo proposto. E tempo para que se possa reagir a qualquer uma dessas propostas.
Quando o atual governo assumiu, ele disse, no que seria uma crítica à fisiologia, que mudaria o padrão das relações entre Executivo e Legislativo. Mudou mesmo?
Não mudou. Pior. Sempre existiu um certo fisiologismo, mas agora é muito maior, muito mais radical.
Como a senhora avalia o atual governo?
Eu não preciso avaliar. A avaliação vem do povo e ele mesmo está dizendo o que representa esse novo governo.
A senhora fala das pesquisas? Tem acompanhado as pesquisas?
Sim, as pesquisas mostram que o cidadão brasiliense não está satisfeito com a condução do governo. Todos têm a clara percepção que a gestão não está funcionando bem.
A senhora já disse que é necessário que a oposição já trabalhasse a escolha dos candidatos para a próxima eleição. A oposição segue dividida?
Estamos em um momento muito importante, de definições de candidatos e pré-candidatos em todos os níveis, buscando os partidos com os quais têm mais afinidade. É nesse momento que começa a se buscar, efetivamente, as tratativas, articulações e possíveis alianças. Deve-se lembrar que o cenário nacional não está perfeitamente delineado. Essas alianças a nível nacional certamente terão uma grande repercussão localmente.
Mesmo sem ter candidatura a governadora confirmada, deve pensar em propostas e plataforma de campanha. Quais seriam as áreas prioritárias?
Obviamente, acho que nenhum candidato, nenhum partido político ou coligação pode esquecer as áreas de educação, saúde, segurança pública e aqui em Brasília, transporte. São quatro áreas que são prioridades em qualquer governo. Portanto, é o caminho que nós queremos seguir. Não porque é o meu caminho ou do PPS. É o que a sociedade exige. Há muitos pontos que eu quero debater no PPS e na sociedade.
A senhora foi vítima dos fakes, atribuídos ao GDF, na internet. Como a senhora vê essa situação, esse tipo de atuação e o tipo de resposta que tem sido dado pelas forças que deveriam reprimir essa conduta?
Eu procurei a Justiça, em primeiro lugar. Pedindo a quebra dos IPs e depois que me fossem informados os titulares desses IPs. Ainda aguardo isso. Quer dizer, já vem se arrastando há dois anos. Consegui a quebra e ainda estou esperando para saber quais são os titulares desses IPs. Mas vou até o fim, porque a nossa Constituição garante que todos possam fazer sua crítica, todas possam exercer a liberdade de expressão, mas não de uma forma oculta. Até porque você tem que permitir, é basilar na nossa Constituição, o contraditório. E eu acho que essa questão dos fakes foi muito além. Não nos atacou, a mim e a outros personagens aqui de Brasília apenas no plano político, mas no plano pessoal. Isso é muito grave, porque todos nós temos famílias. Queremos que nossos filhos, familiares, tenham sua vida particular preservada, naquilo que é mais sagrado, o seu direito de privacidade. Jogaram de uma forma muito baixa com muitos de nós, da oposição. Quando mexe com a família da gente, não é fácil. Não vamos desistir tão cedo de chegar a uma apuração desse caso. E eu espero que a nossa polícia, nosso Ministério Público entrem de verdade nessa questão.
A senhora foi muito crítica à forma desse pacote de aumentos que o GDF está propondo. Isso preocupa, para a senhora que pode ser governadora, arcar com esses custos no futuro?
O primeiro ponto que nós atacamos foi a questão de os projetos chegarem em bloco e o governo não dar um prazo para que nós tivéssemos oportunidade de fazer uma análise mais profunda dos projetos. Felizmente, houve um entendimento. Foi muito importante, porque de 22 projetos que chegaram à Câmara, 11 retornaram porque tinham probleminhas, para o governo fazer algumas correções. Algumas categorias ainda se encontram em estudo. O segundo ponto é que os aumentos que serão pagos nos próximos anos têm valor substancial. Estamos falando de impacto de mais de R$ 1 bilhão na folha de pagamento.E nós precisávamos saber se a Lei de Responsabilidade Fiscal havia sido considerada em relação a isso. Conceder aumento aos servidores é bom, na medida que o servidor satisfeito e bem atendido poderá oferecer também melhores serviços à sociedade. Não tenho nenhum questionamento em relação a isso. Mas será que se somaram todos os impactos? A Lei de Responsabilidade Fiscal foi um grande passo dado pelo Brasil até para evitar o endividamento.
A senhora tem a mesma posição em relação ao empréstimo que eles fizeram dando a arrecadação futura de ICMS?
Estamos com folga no nível de endividamento, que é permitido. O que eu questionei é que se fosse esse caminho do empréstimo, poderia ter sido outro. Nós gastamos quase R$ 2 bilhões ou mais no Estádio Nacional. Se o estádio tivesse um valor mais condizente com o que foi construído, teríamos com folga os R$ 500 milhões para fazer a infraestrutura de Arniqueiras, Porto Rico, Sol Nascente, sem que precisássemos endividar Brasília. Nós estamos endividando Brasília. Isso não seria necessário se os preços aplicados ali no estádio estivessem em patamares mais aceitáveis.