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Após denúncia da Funai, PF intima líder indígena a depor por difamação contra governo federal

A líder foi intimada em 26 de abril, segundo a APIB. O inquérito é sigiloso. Por e-mail, a reportagem solicitou esclarecimentos à Funai e à PF, mas não obteve resposta

Sonia Guajajara, participa do debate “Mulheres na Política” com as candidatas a Vice-Presidência da República, promovido Pelo Instituto Locomotiva e El País, no auditório do Ibmec.

Fabiano Maisonnave
Manaus, AM

Provocada pela Funai, a Polícia Federal intimou a líder indígena Sônia Guajajara a prestar depoimento sob acusação de difamar o governo federal. A informação é da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil).

Em nota, a organização, da qual Guajajara é uma das coordenadoras executivas, classificou a acusação de “ato de perseguição política e racista”.

“O governo busca intimidar os povos indígenas em uma nítida tentativa de cercear nossa liberdade de expressão, a ferramenta mais importante para denunciar as violações de direitos humanos.”

A líder foi intimada em 26 de abril, segundo a APIB. O inquérito é sigiloso. Por e-mail, a reportagem solicitou esclarecimentos à Funai e à PF, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

A acusação teria como base a web-série “Maracá”, disponível no YouTube, que acusa o governo Jair Bolsonaro (sem partido) de promover uma política de extermínio contra os povos indígenas, por meio do desmatamento e do descontrole da epidemia de Covid-19.

“Recebemos essa intimação como mais uma comprovação de que este governo está atuando para deslegitimar a atuação das lideranças, acabar com a nossa mobilização e assim passar o trator nos nossos territórios”, afirmou Guajajara, em uma live na tarde desta sexta-feira (30).

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Não é a primeira vez que o governo federal investe contra Guajajara, ex-candidata a vice-presidente pelo PSOL, em 2018, na chapa de Guilherme Boulos. Em setembro, o ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general da reserva Augusto Heleno, a acusou de “crime de lesa-pátria” após uma campanha publicitária da APIB veiculada na Europa que pedia o desfinanciamento do governo Bolsonaro por causa de sua política ambiental.

Na quinta-feira (29), em sua live semanal, Bolsonaro estava acompanhado do presidente da Funai, o delegado da PF Marcelo Xavier, e de indígenas simpatizantes do governo. O presidente voltou a defender a abertura das terras indígenas para agricultura mecanizada e para a mineração, atividades ilegais que vêm causando desmatamento e contaminação de rios por mercúrio.

Bolsonaro acusou os europeus de discriminação contra os povos indígenas por não comprarem soja produzida pelo povo parecis, em Mato Grosso. “Olha a discriminação do europeu, não compram o que eles produzem porque não querem ver o progresso deles.”

Trata-se de uma alusão à Moratória da Soja, acordo pelo qual as companhias, europeias ou não, se comprometeram a não comprar soja plantada em áreas da Amazônia que tenham sido desmatadas depois de 2008, com ou sem autorização de órgãos ambientais.

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Na live, Bolsonaro errou ao afirmar que os indígenas waimiri-atroaris, na divisa entre Amazonas e Roraima, cobram pedágio na BR-174 (Manaus-Boa Vista).

Na verdade, a estrada costuma ser fechada das 18h às 6h, com respaldo judicial, para diminuir o atropelamento de animais e mitigar o impacto social dentro do território indígena. Não há cobrança para atravessar o trecho.






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