Após enfrentar uma chuva de críticas por ter postado foto em companhia do juiz Sérgio Moro, que está à frente da Operação Lava Jato, o historiador Leandro Karnal apagou a imagem de seu Facebook e publicou longo texto explicando o fato. O jantar ocorreu em Curitiba, na noite da última sexta-feira (10).
Na ocasião, Karnal postou o seguinte texto com a foto: “Dia intenso em Curitiba. Encerro com um jantar com dois bons amigos: juiz Furlan e juiz Sergio Moro. Talvez não faça sentido para alguns. O mundo não é linear. A noite e os vinhos foram ótimos. Amo ouvir gente inteligente. Discutimos possibilidades de projetos em comum”, escreveu. Antes de ser apagada, a postagem tinha 6 mil compartilhamentos, mais de 10 mil comentários e 37 mil reações – a maioria negativa.
A imagem enfureceu vários seguidores do historiador da Unicamp, com acusações de parcialidade para Sérgio Moro, acusado em vários comentários de blindar membros do PSDB suspeitos de corrupção e de perseguir o ex-presidente Lula. “A isenção tem limite. Um dia a casa cai. Saudades da época que os intelectuais tinham alguns ideais próprios”, reclamou um deles. Outro anunciou ter descurtido a página de Karnal no Facebook. “Não que isso lhe afete, mas eu era um grande admirador seu. Estou descurtindo a página. Que vc seja feliz com seus amigos super inteligentes que estão destruindo o Judiciário e o Brasil”, escreveu.
Na mensagem aos seus seguidores, em que explica o jantar e a decisão de apagar a foto, Leandro Karnal fala a “amigos e interessados” e diz ser amigo do juiz Furlan há algum tempo. “Ele é próximo ao juiz Moro e sugeriu um encontro entre nós quando eu estivesse em Curitiba. Encontrei-me com o juiz Moro pela primeira vez na sexta à noite (10 de março) para jantar. Tenho imensa curiosidade em conversar com pessoas que fazem parte da história. Como eu disse na página, adoraria ter um jantar com Ciro Gomes, com Maria da Penha, com Maria do Rosário, com Lula e com outras pessoas. Todos me ensinariam bastante sobre sua visão de mundo, o que faria eu pensar muito. Realmente gostaria disto”.
Karnal também disse que o plano em comum com Moro é “uma palestra na pós graduação da PUC com muitos outros nomes do cenário nacional” e destacou que foi “vago demais em campo minado”, dizendo ainda que continua o mesmo, “como continuaria pós um encontro com a presidente Dilma (a quem eu tb [sic] gostaria de encontrar)”, afirmando que seu interesse pelo mundo é maior do que qualquer outra questão. “Continuo um crítico do racismo, da misoginia, da homofobia, um professor interessado de forma apaixonada na educação”.
Karnal disse continuar “estranhando polarização” e que “a política em si me interessa pouco, a partidária menos ainda e volto a insistir no que digo há anos: a corrupção brasileira é um mal generalizado”. Por fim, lamentou “a polarização no Brasil”, o clima que, “por poucas explicações minhas, causei” e disse tomará “mais cuidado e desculpo-me por isto”.
“Quando eu tiver encontros com outras autoridades e pessoas de referência, prometo, guardarei para mim e pra meu debate interno. O momento brasileiro é estranho e há uma vontade nacional de crucificar. Todos agora são livres para continuarem gostando de mim ou me odiando. Não há problema nisto. Não voltarei a este tema. Por perceber que errei, deletei o post com a foto feito após algum vinho. Se beber não poste. Sigam livres suas convicções, sem problema algum”, para em seguida se comparar a Ícaro “que mistura vaidade e vontade de conhecer”, embora esteja “em idade para seguir Dédalo”. E garantiu: “eu paguei o vinho”.
A nova postagem, claro, provocou outras reações. Com 32 mil reações, mais de 3 mil compartilhamentos e 8,2 mil comentários. em sua maioria, negativa, e dos dois lados. “Defender a ética e estar ao lado de Moro, não combina. Ele é o personagem que destrói a nossa constituição diuturnamente e é empreendedor da maior caçada política a um ex-presidente, investigado há mais de 40 anos. Sinto muito pela má companhia e espero que, ao menos o vinho, tenha sido bem aproveitado”, escreveu um seguidor. “Sinto por toda a situação, mas acho que serviu muito bem pra um propósito: escancarar a olhos vistos quem são os verdadeiros donos do ódio e da intolerância!”, respondeu outro.