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Opinião

Quando a Terra nos lembra que não temos o controle de tudo

Terremotos, mudanças climáticas e o alerta de um El Niño colocam a América Latina diante de novos desafios

Redação Jornal de Brasília

15/08/2026 19h10

colombia earthquake aftermath

Foto: LUIS ACOSTA / AFP

Por Renata Bueno, advogada internacional, ex-parlamentar italiana e empreendedora

Há momentos em que a natureza nos obriga a parar. Em meio à velocidade da vida moderna, às disputas políticas, aos avanços tecnológicos e às preocupações econômicas, somos frequentemente levados a acreditar que temos respostas para quase tudo. Planejamos, calculamos, prevemos.

Até que a Terra se movimenta. Um terremoto. Uma chuva extrema. Uma onda de calor. Uma seca prolongada. Em poucos minutos, somos lembrados de uma verdade simples, mas profunda: não temos controle sobre tudo.

Os recentes terremotos registrados em diferentes países da América Latina e, mais recentemente, na Colômbia, voltam a colocar uma questão importante no centro do debate: estamos realmente preparados para viver em um mundo cada vez mais exposto a eventos extremos?

Essa pergunta não diz respeito apenas à América Latina.

Na Itália, país onde vivo há duas décadas, também acompanhamos de perto a força da natureza.

Os recentes terremotos registrados na região de Napoli, especialmente nos Campi Flegrei, lembram que mesmo sociedades consolidadas em termos de monitoramento e proteção civil continuam vulneráveis.

Em 31 de julho, um terremoto de magnitude 4,7 atingiu a região dos Campi Flegrei, a oeste de Napoli. O tremor foi sentido em diferentes bairros da cidade e trouxe impactos para a rotina da população, incluindo interrupções de energia, problemas no transporte e necessidade de inspeção de estruturas. Pouco tempo antes, em maio, outro forte tremor, de magnitude 4,4, havia sido registrado na mesma região, com epicentro no mar, entre Pozzuoli e Bacoli, sendo sentido em diversos bairros de Napoli..

Para quem vive na região, não se trata apenas de números ou informações nos noticiários. É a sensação de ver a rotina interrompida e perceber, de maneira muito concreta, como somos pequenos diante de forças que não controlamos.

Os Campi Flegrei são uma área vulcânica ativa, marcada por uma longa história geológica e por períodos de atividade sísmica e deformação do solo. A população convive, portanto, com uma realidade que exige monitoramento constante, planejamento e informação.

E é justamente aí que está uma das maiores lições: não basta monitorar os riscos. É preciso preparar as pessoas para eles. É importante também fazer uma distinção.

Terremotos estão relacionados à dinâmica das placas tectônicas e à liberação repentina de energia acumulada em falhas geológicas. No caso dos Campi Flegrei, a atividade sísmica está inserida em um contexto vulcânico e relacionada também ao fenômeno conhecido como bradisismo, que envolve movimentos de elevação e rebaixamento do solo.

Portanto, não é correto dizer que os terremotos registrados na América Latina ou em Napoli são simplesmente consequência das mudanças climáticas.

O mesmo vale para o El Niño. O fenômeno está relacionado ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e às alterações na circulação atmosférica. Ele não provoca terremotos.

Mas reconhecer que cada fenômeno possui causas diferentes não significa deixar de perceber o cenário mais amplo.

A América Latina e a Europa estão expostas a diferentes tipos de riscos naturais e climáticos. E, quando esses riscos encontram desigualdade social, infraestrutura insuficiente, ocupação desordenada do território e falta de planejamento, seus efeitos podem ser muito mais graves.

Talvez essa seja uma das questões mais importantes do nosso tempo: não conseguimos impedir todos os fenômenos naturais, mas podemos reduzir a nossa vulnerabilidade diante deles.

Como se não bastassem os sinais que a própria natureza vem apresentando, a América Latina enfrenta outro importante desafio climático: o retorno de um El Niño que pode estar entre os mais intensos das últimas décadas.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, o fenômeno pode afetar aproximadamente 16 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe, com possíveis consequências sobre temperaturas, agricultura, preços dos alimentos e segurança alimentar.

Esse tipo de alerta deveria nos fazer olhar para as mudanças climáticas de uma maneira mais ampla.

Quando falamos em clima, muitas vezes pensamos apenas em calor extremo, derretimento das geleiras ou aumento do nível dos oceanos. Mas as consequências são muito mais próximas da nossa vida cotidiana.

Uma alteração nos padrões de chuva pode comprometer uma colheita. Uma seca pode afetar o abastecimento de água. Uma onda de calor pode aumentar a demanda por energia. Uma enchente pode destruir estradas e interromper cadeias de produção.

O impacto chega à mesa, ao supermercado, à conta de energia, ao transporte e ao orçamento das famílias.

O clima também é economia. É segurança alimentar. É infraestrutura. É saúde. É qualidade de vida.

Um terremoto não precisa necessariamente se transformar em uma tragédia de grandes proporções. A magnitude de um fenômeno natural é apenas parte da equação.

Também importam a quantidade de pessoas expostas, a qualidade das construções, a infraestrutura disponível, a existência de sistemas de alerta, a preparação das equipes de emergência, a capacidade hospitalar e a rapidez da resposta do poder público.

É nesse ponto que a prevenção deixa de ser uma palavra abstrata e passa a ser uma política pública concreta.

Como advogada internacional e ex-parlamentar italiana, tive a oportunidade de acompanhar de perto como decisões políticas podem produzir consequências muito concretas na vida das pessoas.

Uma das coisas que aprendi é que governar não significa apenas responder às crises depois que elas acontecem.

Governar também é antecipar riscos. Isso significa investir em engenharia, fiscalização, planejamento urbano, infraestrutura, sistemas de emergência e educação da população.

Significa preparar escolas, hospitais, prédios públicos e comunidades. Significa pensar nas cidades que queremos daqui a 30, 50 ou 100 anos — e não apenas no próximo ciclo eleitoral.

A América Latina é uma região de enorme diversidade geográfica, mas também de grandes desafios sociais e estruturais.

Temos grandes centros urbanos convivendo com áreas de pobreza, infraestrutura insuficiente e crescimento muitas vezes desordenado.

Temos comunidades vivendo em áreas de risco. Temos cidades que cresceram muito mais rapidamente do que sua capacidade de planejamento.

E, quando um desastre acontece, essas desigualdades ficam ainda mais evidentes. Por isso, falar sobre desastres naturais e mudanças climáticas também significa falar sobre desigualdade, desenvolvimento, responsabilidade pública e justiça social.

A natureza pode atingir a todos. Mas seus impactos não são distribuídos igualmente.

Quem possui uma moradia mais segura, acesso a serviços de saúde e melhores condições econômicas geralmente terá maior capacidade de enfrentar e superar uma emergência.

É por isso que políticas de prevenção também são políticas de redução das desigualdades.

O debate ambiental já não pode ser separado das grandes questões econômicas e sociais.

Quando uma seca compromete uma colheita, o impacto aparece nos preços dos alimentos. Quando uma enchente destrói uma estrada, afeta o transporte e o comércio.

Quando uma onda de calor aumenta o consumo de energia, pressiona o sistema elétrico. Quando uma comunidade perde sua fonte de água, estamos diante de um problema que ultrapassa a questão ambiental.

Da mesma forma, quando um terremoto atinge uma área urbana, suas consequências não terminam nos danos físicos. Transportes, hospitais, escolas, empresas, serviços públicos e toda a economia local podem ser afetados.

Por isso, precisamos começar a tratar a prevenção de desastres como uma questão de segurança humana, econômica, energética e alimentar.

Depois de duas décadas vivendo na Itália, aprendi a observar como diferentes países enfrentam seus próprios riscos.

A Itália conhece profundamente os efeitos dos terremotos. Sua história foi marcada por grandes eventos sísmicos e, justamente por isso, o país desenvolveu importantes mecanismos de monitoramento, prevenção, proteção civil e reconstrução.

Os Campi Flegrei acrescentam uma dimensão ainda mais complexa: a convivência entre uma grande população urbana e um território de atividade vulcânica e sísmica.

Mas existe uma verdade que vale para todos os países: nenhuma sociedade está completamente preparada. É por isso que a cooperação internacional é tão importante.

Tecnologias de monitoramento, técnicas de construção, protocolos de emergência e políticas de prevenção devem ser compartilhados.

O conhecimento produzido em um país pode salvar vidas em outro.

A experiência italiana pode contribuir para a América Latina. A experiência latino-americana também pode ensinar muito à Europa.

Em um mundo globalizado, a solidariedade também precisa ser global. Talvez essa seja a principal reflexão deixada pelos acontecimentos recentes.

Ainda tratamos muitos desastres como acontecimentos inevitáveis, quase como se nada pudesse ser feito.

Não é assim. Não podemos impedir um terremoto. Não podemos controlar completamente as forças da natureza. Não podemos determinar exatamente quando acontecerá o próximo fenômeno climático extremo.

Mas podemos reduzir suas consequências. Podemos construir melhor. Fiscalizar melhor. Planejar melhor. Educar melhor.

Podemos preparar nossas crianças para saber como agir durante uma emergência. Podemos modernizar hospitais. Fortalecer a Defesa Civil. Investir em tecnologia. Criar sistemas de alerta mais eficientes.

E podemos, principalmente, planejar nossas cidades para o futuro. Porque reconstruir depois de uma tragédia é necessário.

Mas reconstruir melhor é uma responsabilidade.

Quando vejo as imagens das tragédias que chegam da América Latina e, ao mesmo tempo, acompanho o que acontece na Itália, penso menos na força de um terremoto ou na intensidade de um fenômeno climático e mais na fragilidade humana diante deles.

Penso nas famílias. Nas pessoas que perderam suas casas. Nas comunidades que precisam recomeçar. Nos profissionais que trabalham incansavelmente para salvar vidas. E penso também no que acontece depois que as câmeras vão embora e as manchetes mudam. Aquelas pessoas continuam precisando de ajuda.

A reconstrução não termina quando o último sobrevivente é retirado dos escombros. Ela pode continuar durante meses e, muitas vezes, durante anos.

Por isso, a solidariedade precisa vir acompanhada de compromisso. Não basta reconstruir aquilo que foi destruído.

É preciso reconstruir com mais segurança, mais planejamento e mais respeito às características de cada território.

As mudanças climáticas nos lembram diariamente que o planeta está mudando.

Os terremotos nos lembram de algo ainda mais antigo: a Terra nunca esteve sob nosso controle.

Os acontecimentos recentes nos Campi Flegrei, em Napoli, reforçam essa percepção de maneira muito próxima para milhões de pessoas. E fenômenos como o El Niño mostram como as condições do planeta podem alterar profundamente a vida de milhões de pessoas, mesmo quando suas consequências não são imediatamente percebidas.

Talvez a grande lição seja justamente essa: não precisamos controlar a natureza. Precisamos aprender a respeitá-la.

Precisamos compreender seus riscos, preparar nossas cidades e construir sociedades mais resilientes.

Como alguém que construiu sua trajetória entre Brasil e Itália, que teve a oportunidade de atuar no Parlamento italiano e que hoje também trabalha na iniciativa privada, acredito que essa responsabilidade ultrapassa fronteiras.

Diante das tragédias que atingem nossos vizinhos, a primeira palavra deve ser solidariedade. A segunda, prevenção. E a terceira, compromisso.

Porque a próxima emergência pode acontecer em qualquer lugar. E estar preparado pode ser a diferença entre enfrentar um fenômeno natural e transformar esse fenômeno em uma tragédia ainda maior.

Renata Bueno é uma parlamentar ítalo-brasileira nascida em 1979 em Brasília, DF, Brasil. Conhecida por seu envolvimento na política e na defesa dos direitos dos descendentes de italianos no Brasil. Renata Bueno foi eleita deputada federal em 2010, sendo a primeira mulher eleita pelo Partido Socialista Italiano (PSI) fora da Itália. Sua atuação política tem sido focada em temas relacionados à cidadania italiana, imigração, e fortalecimento dos laços entre Brasil e Itália. Ela é presidente da Associação pela Cidadania Italiana no Brasil e tem trabalhado para facilitar o processo de reconhecimento da cidadania italiana para descendentes de italianos no país. Além de parlamentar, Renata é advogada e empresária, com o Instituto Cidadania Italiana e Mozzarellart.

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