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Opinião

Lula, o medo não espera janeiro

A vitória nas urnas aumenta a responsabilidade do presidente: enfrentar a violência agora, com comando competente, integração e resultados na vida da população

Redação Jornal de Brasília

06/11/2026 13h14

brazil election runoff campaign

Foto: EVARISTO SA / AFP

Por Zé Américo Silva

Ao derrotar Flávio Bolsonaro em 25 de outubro, a maioria dos brasileiros deu a Lula a oportunidade de exercer um quarto mandato. Mas o presidente cometerá um grave erro se confundir essa confiança com paciência ilimitada. A vitória trouxe uma cobrança que precisa chegar ao centro do governo: queremos viver sem medo.

Quem sai de casa de madrugada para trabalhar não pode esperar janeiro para ter segurança no ponto de ônibus. Quem compra um celular em doze prestações não aceita entregá-lo a um assaltante, sob ameaça de morrer. Para os mais pobres, a violência rouba patrimônio, liberdade e vida. E cobra essa conta todos os dias.

A aprovação da PEC da Segurança Pública é um avanço. Mas a população precisa sentir seus efeitos fora do Diário Oficial. O Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), que já existe em lei, precisa funcionar nas ruas, nas investigações e na cooperação entre as instituições. A vitória legislativa aumenta a obrigação de entregar resultados.

Lula precisa agir agora. Apresentar prioridades, mobilizar recursos, estabelecer metas e cobrar execução. Não se desmonta o crime organizado com discursos. É preciso atingir seu dinheiro, interromper o abastecimento de armas, enfrentar o tráfico de drogas e prender quem financia, protege e comanda essas estruturas. Ao mesmo tempo, é urgente combater o assalto que transforma o caminho do trabalho numa ameaça.

A escolha de quem comandará o já anunciado Ministério da Segurança Pública será decisiva. O cargo exige competência comprovada, capacidade de gestão e autoridade para coordenar operações e instituições. Não pode virar prêmio de consolação para aliado, acomodação partidária ou vitrine ideológica. O presidente precisa escolher alguém capaz de fazer a máquina funcionar. O padrinho não pode valer mais que o currículo.

Esse comando terá de articular governadores, prefeitos e outros ministérios. Segurança envolve inteligência, investigação, policiamento, sistema prisional, educação e oportunidades. Recuperar territórios submetidos ao crime exige presença permanente do poder público, com proteção e serviços para quem mora ali.

Há um erro político à espreita: acreditar que a derrota eleitoral da extrema direita diminuiu a urgência da segurança. A frustração de quem continua refém do medo alimenta justamente os vendedores de soluções autoritárias.

Presidente, a eleição terminou. O sofrimento de quem vive sob ameaça diária, continua. Seu quarto mandato começa em janeiro, mas o senhor já está na Presidência.

O povo lhe deu mais quatro anos. Quem está na mira do crime pode não ter nem mais quatro minutos de paciência.

Zé Américo Silva, jornalista e consultor político

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