Por Renata Bueno — Advogada internacional e ex-parlamentar*
Escolher uma universidade sempre foi uma das decisões mais importantes na vida de um jovem. Durante décadas, essa escolha esteve associada a uma ideia relativamente previsível: escolher uma profissão, cursar uma graduação, obter um diploma e construir uma carreira.
Hoje, essa equação mudou. A Inteligência Artificial está transformando profissões, empresas, universidades e a própria maneira como aprendemos. Diante de uma tecnologia que evolui em velocidade extraordinária, uma pergunta passou a fazer parte da vida de milhões de estudantes e famílias: como escolher hoje uma formação para um mercado de trabalho que continuará sendo transformado amanhã?
Essa discussão vem sendo tratada de maneiras diferentes no Brasil e na Itália, mas os dois países enfrentam o mesmo desafio: preparar uma nova geração para um mercado de trabalho no qual a relação entre seres humanos e tecnologia será cada vez mais próxima.
Na Itália, essa discussão está inserida em um contexto europeu mais amplo. A União Europeia vem estabelecendo regras e políticas para o desenvolvimento e o uso da Inteligência Artificial, inclusive na educação, com preocupação especial com alfabetização em IA, ética, proteção de dados e formação de estudantes e professores.
O debate europeu parte de uma premissa importante: não basta ensinar a utilizar a tecnologia. É necessário formar pessoas capazes de compreender seus limites, avaliar seus resultados e utilizá-la de maneira responsável.
A Itália acompanha esse movimento e vem incorporando a Inteligência Artificial às discussões sobre educação, formação profissional, pesquisa e inovação. A preocupação não está apenas em formar especialistas em tecnologia, mas em preparar diferentes áreas profissionais para uma realidade na qual a IA estará presente em praticamente todos os setores.
No Brasil, o debate também ganhou espaço. O Ministério da Educação vem discutindo diretrizes para o desenvolvimento e o uso responsável da Inteligência Artificial na educação, enquanto universidades e instituições de pesquisa ampliam iniciativas relacionadas à tecnologia, ciência de dados, inovação e novas metodologias de aprendizagem.
A diferença está principalmente no estágio e na estrutura dessa discussão. Enquanto a Itália está inserida em uma estratégia europeia comum, baseada em um ambiente regulatório continental, o Brasil ainda está consolidando suas políticas e buscando construir uma abordagem nacional que concilie inovação, educação, inclusão e responsabilidade.
Mas há uma questão que aproxima os dois países: como preparar os jovens para profissões que ainda não sabemos exatamente como serão?
Essa pergunta é particularmente importante para quem está escolhendo uma graduação. Um estudante de Direito, por exemplo, pode imaginar que a Inteligência Artificial irá competir diretamente com sua profissão. A tecnologia já é capaz de pesquisar documentos, organizar informações, auxiliar na análise de contratos e realizar tarefas que antes consumiam muitas horas de trabalho.
Mas isso não significa que o advogado se tornará desnecessário. Ao contrário. O profissional continuará precisando interpretar conflitos, compreender pessoas, negociar, argumentar, tomar decisões e assumir responsabilidade por suas escolhas.
O mesmo vale para médicos, engenheiros, jornalistas, administradores, economistas, arquitetos, professores e profissionais das mais diversas áreas.
A Inteligência Artificial pode substituir determinadas tarefas, mas uma profissão é muito mais ampla do que um conjunto de tarefas.
Por isso, acredito que o estudante não deve procurar simplesmente uma profissão que esteja “protegida” da Inteligência Artificial. Essa profissão provavelmente não existe.
Deve procurar uma formação que lhe permita acompanhar as transformações. Uma boa universidade precisa oferecer conhecimento sólido, pensamento crítico, capacidade de análise, criatividade e autonomia intelectual. Ao mesmo tempo, precisa preparar seus alunos para compreender as novas tecnologias e utilizá-las de maneira inteligente.
Essa é uma questão que considero especialmente importante quando observamos a experiência italiana e europeia.
A discussão sobre Inteligência Artificial não está restrita às faculdades de Engenharia, Computação ou Ciência de Dados. Um advogado precisa compreender IA. Um médico precisa compreender IA. Um professor precisa compreender IA. Um profissional de Relações Internacionais precisa compreender IA.
Não significa que todos precisem aprender a programar. Significa compreender como a tecnologia interfere em sua profissão, quais oportunidades cria, quais riscos apresenta e quais decisões continuarão dependendo do julgamento humano.
O Brasil tem, nesse sentido, uma oportunidade enorme. Temos universidades de excelência, centros de pesquisa, uma população jovem e um mercado com enorme potencial para inovação. Mas existe um desafio que não pode ser ignorado: garantir que a Inteligência Artificial não amplie desigualdades já existentes.
Não podemos construir um futuro no qual apenas estudantes de determinadas universidades ou regiões tenham acesso às ferramentas e conhecimentos necessários para trabalhar com IA.
A transformação digital precisa ser acompanhada por democratização do conhecimento. A experiência europeia também mostra que a formação precisa combinar tecnologia e humanidades. Quanto mais avançada for a tecnologia, mais importantes podem se tornar determinadas competências humanas: comunicação, liderança, criatividade, ética, capacidade de negociação, empatia e pensamento crítico.
Essa combinação será particularmente importante em um mundo cada vez mais internacional. Como advogada internacional e ex-parlamentar, vejo na aproximação entre Brasil e Itália uma oportunidade que vai além da tecnologia.
Um jovem brasileiro pode estudar na Itália, realizar uma pesquisa em outro país europeu, trabalhar remotamente para uma empresa internacional e construir uma carreira que atravesse diferentes fronteiras. O mesmo pode acontecer com um jovem italiano em relação ao Brasil e a outros mercados.
Nesse cenário, aprender idiomas, compreender outras culturas e desenvolver experiências internacionais deixam de ser apenas diferenciais acadêmicos. Tornam-se ferramentas profissionais.
A Inteligência Artificial, paradoxalmente, pode tornar essas competências ainda mais importantes. Quando uma ferramenta consegue traduzir textos, produzir conteúdos e acessar informações rapidamente, o diferencial deixa de ser simplesmente ter acesso à informação. Passa a ser saber interpretá-la, contextualizá-la e transformá-la em decisões.
Por isso, ao escolher uma universidade, eu faria algumas perguntas. A instituição ensina fundamentos ou apenas ferramentas que podem ficar ultrapassadas em poucos anos? O curso prepara o estudante para lidar criticamente com a Inteligência Artificial? Existe espaço para pesquisa, empreendedorismo, estágios e experiências práticas? Há possibilidade de intercâmbio e contato com outras culturas? O estudante aprenderá a utilizar a IA ou apenas a depender dela?
Essas perguntas são importantes tanto no Brasil quanto na Itália. Não sabemos quais ferramentas serão utilizadas daqui a dez anos. Talvez muitas das tecnologias que hoje consideramos revolucionárias sejam substituídas por outras que ainda nem existem.
Por isso, a formação universitária precisa ensinar algo mais profundo do que uma tecnologia específica. Precisa ensinar a aprender. Essa talvez seja a principal mudança provocada pela Inteligência Artificial na educação.
Durante muito tempo, valorizamos quem acumulava conhecimento. Agora, em um mundo no qual o acesso à informação é praticamente ilimitado, precisamos valorizar também quem sabe selecionar, questionar, interpretar e aplicar conhecimento.
A universidade do futuro não será necessariamente aquela que tiver mais tecnologia dentro de suas salas de aula. Será aquela que conseguir equilibrar tecnologia e humanidade.
Que ensinará o estudante a utilizar a Inteligência Artificial sem abrir mão da autonomia intelectual. Que formará profissionais capazes de trabalhar com máquinas sem se tornar dependentes delas. E que compreenderá que educação não termina com a entrega de um diploma.
Brasil e Itália estão diante de uma transformação histórica. Cada um a partir de sua realidade, seus desafios e suas instituições, precisa preparar seus jovens para um mundo no qual as fronteiras entre tecnologia, educação e trabalho serão cada vez mais estreitas.
Por isso, talvez a pergunta correta para um jovem que está escolhendo sua graduação não seja: “Qual profissão terá mais empregos daqui a vinte anos?”
A pergunta deveria ser: “Qual formação vai me preparar para continuar aprendendo e criando oportunidades em um mundo que ainda não conhecemos?”
Essa mudança de perspectiva é fundamental. A Inteligência Artificial não torna a universidade menos importante. Ela torna uma boa universidade ainda mais importante.
Porque, quando as máquinas conseguem produzir respostas em segundos, o verdadeiro diferencial passa a ser saber fazer as perguntas certas, compreender as respostas, questioná-las e transformá-las em conhecimento, decisões e novas possibilidades.
É esse profissional que Brasil, Itália e o mundo precisarão formar: não apenas alguém capaz de trabalhar com Inteligência Artificial, mas alguém capaz de continuar pensando, criando e decidindo em um mundo transformado por ela.
