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Socialista emerge de primária democrata em NY como figura nacional e preocupa ala moderada do partido

Zohran Mamdani, crítico de Israel e defensor de pautas sociais, desbanca ex-governador de Nova York e se destaca como nova face da esquerda americana

Redação Jornal de Brasília

25/06/2025 21h33

mayoral candidate for new york zohran mamdani holds primary election night party

NOVA YORK, NOVA YORK – 24 DE JUNHO: A candidata à prefeitura de Nova York, a deputada estadual Zohran Mamdani (D-NY), discursa com apoiadores durante um encontro na noite da eleição no The Greats of Craft LIC, em 24 de junho de 2025, no bairro de Long Island City, no distrito de Queens, na cidade de Nova York. Mamdani foi anunciada como vencedora da indicação democrata para prefeita em um pleito disputado nas primárias para a prefeitura da cidade, que escolherão o sucessor do prefeito Eric Adams, que concorre à reeleição por uma chapa independente. Michael M. Santiago/Getty Images/AFP (Foto de Michael M. Santiago / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP)

JULIA CHAIB
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – Um jovem deputado estadual do Queens, de 33 anos, muçulmano, com visões progressistas e críticas à postura de Israel na guerra contra o Hamas em Gaza, emergiu nesta quarta-feira (25) como uma figura nacional com potencial de chacoalhar o Partido Democrata nos EUA.

Zohran Mamdani declarou, nesta terça-feira (24), vitória nas primárias democratas para concorrer à Prefeitura de Nova York neste ano. Segundo os resultados ainda não oficiais, venceu o ex-governador do estado Andrew Cuomo, figura importante do partido e ligada a uma ala mais tradicional e centrista, que inclui o ex-presidente Bill Clinton e a ex-candidata à Presidência Hillary Clinton.

Mamdani, por sua vez, teve o respaldo de líderes da ala socialista democrata, como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez.

Seu desempenho logo despertou debates sobre o futuro dos democratas. De um lado, há a discussão se sua ascensão pode representar uma renovação. Do outro, republicanos já o tacham de radical.

O presidente Donald Trump afirmou que o Partido Democrata “cruzou a linha” e que Mamdani é “100% um lunático comunista”. A pecha de extremista é um dos motivos pelos quais alguns democratas já expressaram publicamente oposição ao deputado estadual.

Mamdani teve, na primeira fase da contagem, 44% dos votos contra 36% de Cuomo. O resultado oficial da primária só deve ser divulgado em 1º de julho, após nova contagem de cédulas para que um dos concorrentes atinja 50% dos votos. Cuomo, no entanto, já assumiu a derrota e parabenizou Mamdani. Pela votação prévia, dificilmente o deputado estadual não será o escolhido. Se eleito prefeito, será o primeiro muçulmano a comandar a maior cidade dos EUA. O candidato democrata enfrentará o atual prefeito, Eric Adams, que concorre como independente. Cuomo ainda pode disputar como independente.

Nascido em Kampala, capital de Uganda, Mamdani mudou-se aos sete anos para Nova York com os pais, cujas famílias têm origem indiana. Filho de um professor da Universidade Columbia e de uma diretora de cinema, tornou-se cidadão americano em 2018. Na época, antes da política, atuava como conselheiro habitacional, ajudando moradores de baixa renda do Queens a evitar despejos.

Formado em estudos africanos pela Bowdoin College, fundou ali um grupo de defesa da Palestina, uma das bandeiras que também ergueu na campanha à prefeitura. Na juventude, flertou com a carreira de rapper, usando os nomes artísticos Young Cardamom e, depois, Mr. Cardamom.

Em 2020, foi eleito deputado estadual. Em seu perfil no site da Assembleia Legislativa, afirma que busca “amplificar as vozes dos que preferencialmente não são ouvidos”.

Analistas apontam que Mamdani se destacou por seu discurso centrado em necessidades populares e pelo domínio das redes sociais, com forte conexão com o eleitorado jovem — um reflexo de mudança geracional no partido.

Sua plataforma é ousada. Defende ônibus gratuitos por toda a cidade, uma rede de supermercados públicos para baratear preços, congelamento dos aluguéis para conter o custo de vida e mais moradias a preços acessíveis. Também propõe aumentar os impostos para quem ganha mais de US$ 1 milhão por ano.

No cenário internacional, condena a ofensiva israelense em Gaza, que classifica como genocídio — tema que divide o Partido Democrata. Cuomo, por outro lado, declarou apoio a Israel.

“Ótimo exemplo de até onde se pode chegar quando se baseia genuinamente uma campanha, de forma envolvente, na questão que os eleitores consistentemente dizem nas pesquisas ser a mais importante para eles”, comentou David Shor, ex-estrategista da campanha de Barack Obama. Ele acompanhou a fala com um vídeo de Mamdani conversando com um vendedor de comida halal nas ruas de Nova York: “Arroz com frango agora custa US$ 10 ou mais. É hora de o halal custar US$ 8 de novo”, disse, parodiando o slogan de Trump (“Make America Great Again”).

Críticos apontam a inexperiência de Mamdani e sua baixa produtividade legislativa — segundo o New York Times, apenas três dos cerca de 20 projetos de lei que apresentou foram aprovados.

Na madrugada desta quarta-feira (25), ele discursou em um terraço no Queens prometendo impedir ações do ICE (órgão de imigração dos EUA) e reforçando suas propostas sociais. “Uma vida de dignidade não deve ser reservada para poucos afortunados”, afirmou.

Se por um lado sua candidatura representa uma renovação desejada por parte da base democrata, por outro, é um prato cheio para os republicanos. “Já tivemos Esquerdistas Radicais antes, mas isso está ficando um pouco ridículo. Ele parece TERRÍVEL, sua voz é irritante, ele não é muito inteligente. Sim, este é um grande momento na História do nosso País!”, escreveu Trump nas redes sociais.

Em tom sarcástico, o vice-presidente J. D. Vance postou: “Parabéns ao novo líder do Partido Democrata”. Já o Comitê Nacional Republicano do Congresso classificou Mamdani como “radical antissemita”.

Em Wall Street, o desconforto também é notável. Mamdani venceu com apoio de voluntários, enquanto Cuomo contava com o respaldo de bilionários como o ex-prefeito Michael Bloomberg. Segundo o Wall Street Journal, investidores tentaram articular a derrota de Mamdani e há empresários que preferem apoiar Eric Adams.

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