Depois do processo de retirada de brasileiros na Faixa de Gaza, região mais crítica do conflito entre o grupo terrorista Hamas e Israel, o diplomata e subchefe da Divisão de Mecanismos Políticos Regionais do Ministério das Relações Exteriores (MRE), Luís Fernando Wasilewski, explicou o processo que envolve uma repatriação.
“Em geral, o Brasil tem uma boa rede de embaixadas e consulados, então [quem vai cuidar do processo] será uma embaixada e um consulado local. Mas quando não existe, seria uma embaixada ou consulado [de um país] próximo que vai encaminhar essa demanda”, explica.
Nos últimos dois anos, o governo brasileiro teve que operar dois grandes processos de repatriação. As guerras na Ucrânia e Israel, que estouraram em fevereiro de 2022 e outubro de 2023, respectivamente, exigiram uma operação da diplomacia brasileira e do governo para que os cidadãos pudessem retornar em segurança.
Wasilewski diz que ambas as operações de repatriação, da Ucrânia e de Israel, foram feitas rapidamente, mas a da Ucrânia ocorreu em um tempo menor devido ao fato de ter menos brasileiros no país. “Na Ucrânia, a guerra está sendo traumática, mas em Israel talvez tenha sido um ataque mais inesperado e a maior quantidade de brasileiro lá, se comparado
com os que estavam na Ucrânia.”
Wasilewski conta que no caso da Palestina a situação é mais complexa. “O governo brasileiro teve autorização da Autoridade Nacional Palestina, que ainda não é reconhecida como o governo autónomo”, relata.
O pedido de repatriação é feito pela plataforma digital da embaixada brasileira a partir do momento em que há uma autorização do governo local. É necessário preencher um formulário e, após isso, será gerado um comprovante informando onde o interessado deve se apresentar, que dia e a que horas. Na data, esse documento servirá de passagem para embarcar na aeronave designada.
“A gente estava no meio da guerra”
No contexto da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, os brasileiros que desejavam retornar tiveram que se deslocar até Varsóvia, capital da Polônia. Isso porque a capital da Ucrânia, Kiev, estava em situação de perigo e sofria um grande número de ataques russos. Por isso, a cidade estava inapta de receber voos estrangeiros.

A ucraniana Anna Bondar, de 37 anos, conta que só depois de duas semanas as pessoas conseguiram deixar Kiev. “Já não tinha como sair com o carro, porque tudo estava fechado. O único jeito de sair era de trem”, relata. “Eu entrei em contato [com o governo brasileiro], mas eles não tinham como ajudar, porque na verdade eles também nem sabiam o que fazer, porque a guerra começou do nada”, completa.
As pessoas que estavam na Ucrânia tinham que ir até a cidade da fronteira com a Polônia, chamada Lviv, para conseguirem sair do contexto da guerra. Anna morou no Brasil entre 2015 e 2021 quando resolveu voltar para a Ucrânia.
Ela tem dois filhos de pai brasileiro, que estavam com ela em Kiev quando estourou a guerra. Seu filho mais novo tinha pouco mais de 1 ano em fevereiro de 2022 e ela conta que sentia muito medo pelos filhos. Logo após o início da guerra, eles foram para a casa da mãe de Anna e, às vezes, dependendo de ataques, iam também para um abrigo. Nesse período os filhos dela ficaram doentes, “provavelmente alguma virose”, nas palavras de Anna, e não havia como sair dali.
Ataques aconteciam a somente 10 quilômetros de distância da casa de Anna. Essa proximidade também dificultou a saída dela e dos filhos em direção a Lviv. “Dava para ouvir tudo. Tinha um prédio que era uns 200, 300 metros , eu acho, do prédio onde a gente estava. Ele estava destruído. A gente estava no meio da guerra mesmo.”
“Você fica tenso só de olhar para o céu”
No contexto da guerra entre o grupo terrorista Hamas e Israel, estava o brasileiro Antônio Odorico Carneiro, de 56 anos, e a esposa dele. Os dois chegaram a Jerusalém na manhã do sábado em que os ataques começaram, em 7 de outubro de 2023.O casal fazia um passeio no Jardim de Gethsemane, que faz parte de uma peregrinação religiosa, que é um tipo de turismo popular no país. “Eu olhei para cima e vi aqueles parapentes. Achei que eram pessoas fazendo por lazer. Até mostrei para minha esposa. No momento, nem imaginava que aquilo poderia ser um ataque terrorista. Mas, depois de um tempo, começaram a aparecer os caças F16 e F 36, aí percebemos que algo não estava certo”, conta Antônio.
O passeio deles teve como ponto de partida a cidade de Nazaré, no norte de Israel. Em seguida, a peregrinação foi para Jerusalém, onde estavam quando tiveram seu passeio interrompido devido a ataques e a declaração de guerra de Israel contra o Hamas.
Antônio conta que ficaram no hotel durante quatro dias. Não era permitido sair e, em alguns momentos, tinham que ir se abrigar no bunker. As incertezas geravam medo. “No grupo tinha uns padres. Eles celebravam a missa todo dia. Isso foi muito bom, acalmou as pessoas”, conta. “Você fica tenso só de olhar para o céu”.
Ele e a esposa conseguiram vaga no primeiro da FAB, que foi até Israel resgatar os cidadãos. Ele contou que têm um amigo que é Brigadeiro e os informou que o formulário para pedir repatriação já estava disponível. “Fomos um dos primeiros a enviar para Embaixada”, completa.
Foto: Arquivo pessoal
Em 11 de outubro saíram do hotel em Jerusalém e foram para Tel-Aviv para embarcar na aeronave de resgate. Ao chegarem lá, as incertezas e os perigos causados pela guerra tomavam conta dos terminais. Ele contou que foram avisados, por um funcionário da
Embaixada Brasileira, que tinham que estar preparados para imprevistos. “Aí ele avisou: ‘olha, se vierem foguetes, se tocar a sirene, vocês correm para algum local, deitem no chão, protejam as cabeças. Porque o foguete na hora que ele explode e joga pedaços para todos oscantos”, explica.
Antônio e mais 211 brasileiros decolaram de Tel-Aviv às 19:00, dando início ao resgate de cidadãos do território israelense. A aeronave pousou em Brasília em 12 de outubro por volta de 4h10.