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Mundo

Milhares de sírios se aglomeram na fronteira turca

Arquivo Geral

14/06/2011 14h07

Mais de 8,5 mil sírios já foram registrados como refugiados na Turquia, enquanto milhares permanecem aglomerados na fronteira indecisos sobre atravessá-la ou não, diante do receio de aceitarem refúgio no país vizinho e não poderem mais voltar para casa, mas aterrorizados pela repressão do regime de Damasco.

 

Esse número crescente de refugiados, que desde 29 de abril fogem em massa da repressão do Governo de Bashar al Assad, se encontra agora hospedado nos quatro acampamentos montados pelo Governo turco e administrados pela organização civil internacional Crescente Vermelho na província de Hatay.

 

Os refugiados vivem em tendas de campanha decentes e recebem três refeições quentes por dia, além dos remédios necessários, mas os que permanecem indecisos no lado sírio da fronteira – cifrados em milhares por algumas fontes – sofrem com o desamparo, angustiados pelo dilema de deixar lares e parentes para trás ou enfrentar a repressão.

 

“Dois bebês morreram na noite de ontem”, diz um refugiado sírio, que chegou ao vilarejo turco de Güveççi – situado junto à fronteira – com a missão de conseguir pão para a família.

 

Ele mostra uma sacola plástica com 15 pães e afirma: “Isso não é nada. Há muitas crianças e mulheres famintas. Trinta pessoas vão morrer em menos de um minuto”.

 

Estão a apenas algumas centenas de metros do território turco, mas não conseguem decidir se entram. Alguns deixaram para trás familiares, outros temem fornecer seus dados pessoais aos organizadores dos campos de refugiados.

 

“Se formos aos acampamentos, vão nos registrar. Temos de dizer nossos nomes e sermos fotografados. Temos medo de ser punidos se depois voltarmos a nossas localidades na Síria quando as coisas se acalmarem”, queixa-se um jovem, indeciso.

 

Como as autoridades turcas restringiram o acesso dos jornalistas aos campos de refugiados, os únicos que podem ser entrevistados são os sírios que permanecem estagnados no dilema e se aproximam da Turquia para obter mantimentos.

 

“Passamos a noite toda debaixo de chuva. Somos centenas de pessoas. As autoridades turcas vêm e levam vários em um micro-ônibus. Quando são levados aos campos de refugiados, voltam e recolhem outro grupo”, relata outro refugiado sírio.

 

O povoado de Güveççi costumava viver do comércio fronteiriço, sobretudo do contrabando de cigarros, álcool e gado, que é mais barato na Síria.

 

Agora, do outro lado da fronteira, após o arame farpado, péssimas condições afetam os sírios com quem os turcos comercializavam anteriormente. Escapam da repressão em Jisr Al-Shogour e não possuem nada.

 

“Os bebês precisam de leite. As mulheres não têm leite porque elas próprias não têm o que comer”, explica outro cidadão sírio, procedente de Jisr Al-Shogour.

 

“Os soldados nos atacavam toda vez que nos aproximávamos do centro para comprar produtos básicos. Não há gasolina, eletricidade, água ou telefone. Trouxeram pessoas de fora para que se manifestassem a favor de Bashar al Asad”, narra um bombeiro de meia idade, oriundo do bairro Shimal, também de Jisr Al-Shogour.

 

Ele explica que os sírios que atravessaram a fronteira ou aguardam do outro lado são aqueles que escaparam de Jisr Al-Shogour até dez dias atrás. Agora, é impossível sair de lá porque o Exército mantém a localidade cercada.

 

“Há três meses estamos resistindo e tomando as ruas em favor da liberdade. Por isso, nos matam”, destaca o bombeiro. “Chegaram a cortar o seio de uma mulher”.

 

Histórias de horror misturadas a rumores constituem o relato desses refugiados que pedem anonimato e escondem o rosto diante das câmeras pelo receio de se identificarem.

 

Um sírio de 20 anos, que diz chegar de Latakia, afirma que cerca de 150 mil pessoas chegaram a fazer manifestações em sua cidade contra o regime de Damasco. “Latakia é agora uma cidade dividida”.

 

No entanto, um árabe da Turquia que faz negócios na Síria há anos, sussurra ao ouvido: “É exagero. Estive em Latakia há três dias. Não acontecia nada”.

 

Automóveis com placa síria continuam chegando diariamente à passagem fronteiriça de Yayladagi e os turcos continuam atravessando a fronteira para fazer comércio: compram chá, maços de cigarros e uma ou duas garrafas de uísque em território sírio para vendê-los na volta e lucrar cerca de R$ 55.

 

“Não vi nada diferente no outro lado. Os lugares aonde fui estão calmos”, indica um dos comerciantes de fronteira.

 

No entanto, o trecho que separa Güveççi do outro lado da fronteira é uma tragédia humanitária: bebês, crianças, mulheres e idosos debaixo de chuva, doentes e famintos, todos à espera de um futuro incerto.

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