A visita do papa Leão XIV à Argentina oferece consolo àqueles que esperaram em vão o retorno de Francisco, que morreu sem voltar ao seu país natal após 12 anos de pontificado.
Na entrada da catedral de Buenos Aires, onde Jorge Bergoglio foi arcebispo, uma televisão sem som exibe imagens de Francisco beijando os pés de seus fiéis. Ao lado, um cartaz com o retrato de Leão XIV anuncia a missa que celebrará em 9 de novembro no bairro de Palermo.
Assim, a lembrança do papa argentino convive com a expectativa de receber seu sucessor.
“Doeu muito para a Argentina perder seu papa, então talvez ele venha para se conectar com a gente”, diz à AFP Sol Burgos, de 23 anos, na porta da igreja de estilo neoclássico.
A trajetória de Leão XIV no Peru, onde foi missionário e bispo, ajuda a encurtar essa distância.
“Graças a Deus, o novo papa também teve conexão com a América Latina porque esteve no Peru”, diz sobre o pontífice americano, que também tem nacionalidade peruana.
O retorno impossível
A visita de Francisco a vários países da região, mas não ao seu, alimentou todo tipo de especulações em um país polarizado.
“Não pôde ou não quis vir”, comenta Rubén Lozano, um visitante de 73 anos da província de Santa Fé, no norte. “Acho que ele não veio para evitar certos antagonismos”.
O mesmo pensa o presidente ultraliberal, Javier Milei, que antes de chegar ao poder o insultou e disse que Francisco tinha afinidade com “comunistas assassinos”, embora depois tenha moderado seu discurso e o visitado no Vaticano.
“Não tenho dúvidas de que o papa Francisco queria vir e acredito que não veio porque sabia que, se viesse, geraria um terremoto político. Isso faz com que eu o admire ainda mais”, disse Milei à Rádio Mitre em 24 de outubro.
Procedente do Uruguai, o pontífice será recebido por Milei no domingo e visitará em seguida as cidades de Córdoba, no centro do país, e Luján, a cerca de 70 km de Buenos Aires, antes de seguir no dia 11 de novembro para o Peru.
Trata-se da primeira visita papal desde João Paulo II em 1987.
Uma ferida a cicatrizar
O arcebispo de Buenos Aires, Jorge García Cuerva, pediu que sejam evitadas as comparações. “Vem o sucessor de Pedro, não o sucessor de Francisco”, disse em agosto.
Cuerva confia que a visita contribua para superar as divisões. “A ferida que existe entre os argentinos pode cicatrizar, com a doçura da ternura, do bom trato, da cordialidade e do perdão”, comentou recentemente ao jornal La Nación.
Leão XIV chega a um país assolado por dificuldades econômicas, onde o crescimento de setores como o de energia contrasta com a fragilidade da indústria e do consumo.
A pobreza afeta um terço da população, enquanto Milei mantém sua severa política de ajuste fiscal e abertura econômica.
A Igreja tem criticado o custo social desse modelo, especialmente para os mais vulneráveis.
Francisco defendeu uma justiça social que coloca a economia a serviço das pessoas, uma causa que Leão mantém e Milei considera uma “aberração”.
AFP