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Fim da ‘Covid zero’ na China poderia causar 1,5 milhão de mortes, diz pesquisa

Xangai, com 25 milhões de habitantes, está fechada há quase seis semanas no combate ao maior surto da doença no país

Por FolhaPress 10/05/2022 6h45
Foto: Reprodução

A China pode colocar a vida de mais de 1,5 milhão de pessoas em risco se abandonar sua dura política de “Covid zero” sem tomar medidas extras -como a ampliação da vacinação e do acesso a tratamentos-, afirmam cientistas chineses e americanos com base em novos modelos estatísticos.

O artigo foi escrito por cientistas da Universidade Fudan, de Xangai, com o apoio de pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde dos EUA, e publicado nesta terça-feira (10) na revista Nature Medicine.

Com base em dados mundiais coletados sobre a gravidade da variante ômicron, eles preveem que, com o fim da política restritiva, o pico de demanda por terapia hospitalar intensiva ultrapassaria em mais de 15 vezes a capacidade do sistema de saúde chinês, o que levaria a cerca de 1,5 milhão de mortes.

No entanto, os pesquisadores afirmaram que o número de vítimas poderia ser muito reduzido se houvesse foco na vacinação -apenas cerca de 50% dos maiores de 80 anos na China foram vacinados-, no fornecimento de antivirais e na manutenção de algumas restrições.

“A disponibilidade de vacinas e remédios oferece uma oportunidade de se afastar da ‘Covid zero’. Não consigo imaginar o que estão esperando”, disse Ben Cowling, epidemiologista da Universidade de Hong Kong familiarizado com o estudo, à agência de notícias Reuters.​ A transição, na visão dele, deve ser gradual.

Também nesta terça, em um raro comentário público sobre a gestão da pandemia por um governo, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) sugeriu que a China mude a política da “Covid zero”, por não considerá-la sustentável.

Para Tedros Adhanom Ghebreyesus, o aumento do conhecimento sobre o coronavírus e o surgimento de melhores ferramentas para combatê-lo sugerem que é hora de uma mudança de estratégia. “Não achamos que [a política de ‘Covid zero’] seja sustentável, considerando o comportamento do vírus e o que agora prevemos no futuro”, afirmou o etíope em entrevista coletiva. “Discutimos essa questão com especialistas chineses. E indicamos que a abordagem não será sustentável. Uma mudança seria muito importante.”

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Em seguida, o diretor de emergências da OMS, Mike Ryan, disse que o impacto da “Covid zero” nos direitos humanos também precisa ser levado em consideração.

“Sempre dissemos, como OMS, que precisamos equilibrar as medidas de controle com o impacto que elas têm na sociedade, o impacto que têm na economia, e isso nem sempre é fácil.”

BLOQUEIO DE GRANDES ÁREAS RESIDENCIAIS

Os conselheiros de saúde do regime chinês, porém, seguem com sua política de tolerância zero, afirmando que a abordagem continua sendo essencial para derrotar a pandemia e ganhar tempo para outras medidas de mitigação.

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A China manteve a estratégia mesmo quando a maioria dos países já havia mudado de estratégia, preferindo conviver com o vírus para poder reabrir a economia e restaurar as liberdades pessoais.

As autoridades chinesas vêm bloqueando grandes áreas residenciais em fases para conter a propagação viral em reação a notificações localizadas de casos de Covid, mesmo quando apenas um pequeno número de pessoas é afetado.

Xangai, com 25 milhões de habitantes, está fechada há quase seis semanas no combate ao maior surto da doença no país até agora, com o descontentamento de moradores e o aumento da pressão econômica.

Em carta publicada pela revista médica The Lancet na última sexta, uma equipe local de especialistas disse que o papel vital da cidade no mercado nacional chinês torna o bloqueio inevitável. “A disseminação do vírus para outros lugares pode ter consequências inimaginavelmente graves”, afirmou o grupo, que inclui Zhang Wenhong, consultor das autoridades de Xangai em tratamentos para a Covid.

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As políticas chamadas de dinâmicas de Xangai, em que apenas setores da cidade são confinados, “compensariam as vulnerabilidades na barreira imunológica da população em todo o país”, disseram eles, apontando que cerca de 49 milhões de chineses com 60 anos ou mais permanecem não vacinados.

Um comentário publicado na revista oficial do Centro de Prevenção e Controle de Doenças da China, coescrito pelo consultor-sênior de saúde do país, Liang Wannian, afirma que a “Covid zero” ainda é necessária para evitar uma corrida ao sistema de saúde chinês. “As estratégias dinâmicas da ‘Covid zero’ adotadas pela China ganharam uma janela de tempo preciosa para o futuro”, afirmou ele, acrescentando que o país deve “aproveitar a oportunidade” para desenvolver mais medicamentos e vacinas.

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