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Extrema direita cresce, mas não chega a novo governo na Alemanha; Merz vê desastre

Há duas semanas, em Saxônia-Anhalt, a AfD alcançou quase 44% dos votos e ficou muito próxima de formar seu primeiro governo

Redação Jornal de Brasília

20/09/2026 16h17

Foto: Ralf Hirschberger/AFP

Foto: Ralf Hirschberger/AFP

JOSÉ HENRIQUE MARTINS
BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS)

Pesquisas de boca de urna mostram que a AfD, partido de extrema direita da Alemanha, voltou a obter fortes resultados eleitorais no país neste domingo (20). Em momento de extrema fragilidade de seu governo, Friedrich Merz classificou o fato como um “desastre”.

Logo após o fechamento das urnas, o primeiro-ministro afirmou em pronunciamento que seu programa de reformas “é antídoto para o veneno autoritário”, reiterando que não tem intenção de deixar o cargo.

No estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD (Alternativa para a Alemanha, em português) alcançou pelas projeções a maior votação, 37%, à frente do SPD de Manuela Schwesig, que teria atingido 35,5%. O resultado, no entanto, deve permitir a manutenção da atual governadora no cargo, a despeito de a AfD ter dobrado de tamanho no Parlamento estadual.

Em Berlim, a legenda populista deve atingir a terceira maior bancada, com 16% dos votos, atrás de A Esquerda (24,5%) e a CDU (20%), partido de Merz.

Os pleitos estaduais se transformaram em uma espécie de plebiscito de sua administração. O premiê convocou uma reunião do comitê executivo de seu partido durante o domingo eleitoral, surpreendendo analistas e imprensa.

“O que precisa ser feito agora exige firmeza, perseverança e paciência. Invocarei essas qualidades como presidente da CDU e, sobretudo, como chanceler [primeiro-ministro] do nosso país”, declarou Merz, confrontando as especulações sobre seu futuro.

Há duas semanas, em Saxônia-Anhalt, a AfD alcançou quase 44% dos votos e ficou muito próxima de formar seu primeiro governo. Se consumado, será um marco para a Alemanha, que construiu um sistema político e garantias constitucionais para evitar um novo partido nazista após o Holocausto e a derrota na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A ascensão da extrema direita no país ocorre em um momento de impopularidade crescente de Merz, que alcançou novo recorde negativo na última semana, com 88% de insatisfeitos e apenas 10% de aprovação. Eleito em 2025, o conservador pena para emplacar reformas complexas em um país há anos com a economia estagnada.

“Estamos vivendo em um Estado que se tornou complicado demais”, disse Merz. “Nossa economia está passando por uma profunda transformação, e o tom das relações sociais em nossa sociedade tornou-se mais áspero e complexo.” Segundo o premiê, “a resposta para isso não pode ser um retorno aos bons velhos tempos”, em referência às propostas reacionárias da AfD.

Além de deportação em massa de imigrantes ilegais, a sigla populista defende a volta do marco alemão, uma eventual saída da União Europeia e a troca da transição energética pela volta do gás russo. A intenção da AfD de reatar as relações com Moscou, cortadas desde o advento da guerra na Ucrânia, é tratada quase como uma conspiração pelo gabinete de Merz.

Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, um dos estados mais pobres do país, os democratas-cristãos experimentam um dos piores resultados nos 81 anos de história do partido. A sigla teria superado por pouco a cláusula de barreira de 5%. Para integrantes da CDU local, a culpa é do primeiro-ministro e de sua política, insensível às demandas básicas da população.

Schwesig, cujo SPD faz parte da coalizão de governo montada por Merz, também não poupou críticas ao premiê. Além de se opor abertamente a itens da reforma da Previdência, acordados com os sociais-democratas, a governadora passou os últimos dias cobrando um teto para o preço dos combustíveis, que disparou com o recrudescimento do conflito no estreito de Hormuz.

Sua projetada vitória, segundo analistas, pode servir de incentivo para os sociais-democratas serem mais vocais na disputa interna da coalizão, aumentando a disputa interna dentro do governo. Em sua primeira entrevista após o fechamento das urnas, Schwesig resumiu a eleição em seu estado como “uma advertência dirigida ao primeiro-ministro e a todo o governo”.

Em Berlim, em outro revés para Merz, a CDU deve perder a prefeitura para A Esquerda, que pela primeira vez indicará um nome para o cargo de governador da cidade-estado. Elif Eralp, principal candidata da sigla, deve alcançar o posto propondo uma coalizão com o SPD e os Verdes.

“Quero me tornar prefeita de Berlim para que as pessoas da nossa cidade voltem a ter uma vida melhor”, disse Eralp, que se apresentou durante a campanha como “inquilina”, antes de qualquer outra qualificação. A oferta de moradia, assim como preços de aluguel, é um problema crônico na capital alemã.

Entidades judaicas expressaram preocupação com o resultado. A Esquerda tem integrantes investigados por antissemitismo devido a manifestações de apoio à Palestina e contra as ações de Israel em Gaza.

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