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Equador amplia militarização e intensifica denúncias de repressão

Acordo com os EUA, novo estado de exceção e denúncias de perseguição política ampliam o clima de tensão no país.

Redação Jornal de Brasília

25/06/2026 8h33

Foto: Banco de Imagens

O Equador vem aprofundando a militarização da segurança pública e ampliando parcerias com os Estados Unidos em meio ao estado de exceção decretado na maior parte do país. No centro das medidas, o governo também concedeu imunidade penal para civis, militares e estrangeiros envolvidos em ações de repressão estatal.

Nesta segunda-feira (22), Equador e Estados Unidos assinaram um acordo de cooperação para operações na fronteira norte, com previsão de compartilhamento de informações e coordenação entre polícias e forças armadas dos dois países. Segundo o Ministério da Defesa equatoriano, um projeto piloto será aplicado na fronteira com a Colômbia e poderá ser replicado em outras regiões.

O acordo foi firmado uma semana após o presidente Daniel Noboa decretar novo estado de exceção, com duração de 60 dias, em dez províncias, sob o argumento de grave comoção interna provocada pelo aumento da criminalidade. Em decreto publicado em 18 de junho, Noboa voltou a estabelecer que o país vive um conflito armado interno e autorizou imunidade penal para agentes do Estado, civis, militares e estrangeiros acusados de abusos em ações de repressão estatal.

As medidas suspenderam direitos constitucionais, como a inviolabilidade do domicílio e das correspondências, e abriram espaço para o uso das Forças Armadas em ações de segurança pública. Ao mesmo tempo, organizações sociais e de direitos humanos manifestam preocupação com o aumento do risco de abusos cometidos por agentes do Estado.

A Comissão de Pessoas Desaparecidas da ONU afirmou ter recebido relatos de desaparecimento forçado de 51 vítimas, incluindo crianças, supostamente perpetrados por forças de segurança, inclusive as Forças Armadas, durante operações entre 2024 e 2025, com impacto principalmente sobre cidadãos afro-equatorianos nas províncias de Esmeraldas, Guayas e Los Ríos. O comitê pediu ao Equador que abandone essa abordagem e fortaleça forças de segurança de caráter civil.

No plano político, lideranças sociais e sindicais denunciam perseguição contra opositores e afirmam que contas bancárias de dirigentes críticos ao governo foram congeladas em meio à mobilização para iniciar um processo de revogação do mandato de Noboa, previsto na Constituição. A vice-presidente da Confederação dos Povos de Nacionalidade Kichwa do Equador (Ecuarunari), Vicenta Chuma, afirmou que houve bloqueio de contas de dirigentes e contestou as ações do governo.

A socióloga Irene León, diretora da Fundação de Estudos, Ação e Participação Social do Equador (Fedaeps), afirma que a militarização tem sido usada para perseguir opositores políticos, organizações indígenas e a população afrodescendente, sem reduzir a violência das gangues. Segundo ela, a ação do Estado não é desenhada para responder aos problemas de segurança, mas para atender a interesses geopolíticos dos Estados Unidos na América Latina.

León também criticou a suspensão do principal partido de oposição, a Revolução Cidadã, do ex-presidente Rafael Correa, por nove meses, decisão que o impediria de disputar as eleições municipais de novembro de 2026. O Tribunal de Contencioso Eleitoral suspendeu a legenda em meio a uma investigação sobre suposto financiamento estrangeiro ilegal nas eleições de 2023, e o partido acusa perseguição política.

A repressão, segundo a especialista, também se reflete na prisão ou suspensão de direitos políticos de prefeitos ligados ao campo progressista. Um dos casos citados é o do prefeito de Guayaquil, Aquiles Álvarez, preso em fevereiro de 2026 sob acusações de lavagem de dinheiro em uma investigação sobre venda ilegal de combustíveis. A defesa dele alega perseguição política.

No campo da segurança, o governo de Noboa adotou medidas semelhantes às de Nayib Bukele, presidente de El Salvador, com classificação de terroristas para grupos criminosos, uso ostensivo das Forças Armadas e a abertura de uma mega prisão de segurança máxima, em novembro de 2025. O Equador, porém, segue enfrentando forte escalada da violência. Em 2025, foram registrados 9.216 homicídios dolosos, alta de 30,5% em relação a 2024, segundo dados oficiais reunidos pelo Observatório Equatoriano do Crime Organizado.

A ACLED afirma que mais de 70% dos 18 milhões de habitantes do país foram expostos à violência do crime organizado em 2025 e que o Equador tem hoje 37 grupos criminosos ativos, contra 24 em 2023. A entidade também avalia que a agenda de militarização de Noboa não tem produzido resultados efetivos no combate às organizações criminosas.

Outro episódio citado pelas organizações foi o assassinato da ativista anticorrupção Monika Silva Koniuszek, encontrada morta em sua residência em 8 de junho. Inicialmente, o ministro do Interior, John Reimberg, disse haver indícios de suicídio, mas o laudo pericial divulgado na última sexta-feira (19) concluiu que se tratou de assassinato, após um golpe na cabeça e estrangulamento. Monika denunciava crimes ambientais e corrupção no país.

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