JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
MAGDEBURGO, ALEMANHA (FOLHAPRESS)
O Financial Times diz que seu sorriso de comercial de pasta de dente lhe dá um ar de personagem criado por IA. A revista Der Spiegel o classifica como “o homem mais perigoso” do país. O Le Monde nota que ele prefere ser chamado de Ulli.
“Ulli?” A pergunta do militante, pouco antes do comício em Magdeburgo, nesta sexta-feira (4), mostra que o apelido não chegou a todo mundo.
Ulli é Ulrich Siegmund, 35, que está sendo escrutinado por boa parte do planeta porque pode se tornar o primeiro político de extrema direita a chegar ao poder na Alemanha desde a Segunda Guerra. Em termos mais dramáticos, desde o nazismo e Adolf Hitler.
Um passo e tanto para o país, possível de ser dado neste domingo (6) na eleição de Saxônia-Anhalt, um dos estados do leste que compunham a ex-Alemanha Oriental, berço de alemães ilustres, como Martinho Lutero, Otto von Bismarck e Friedrich Nietzsche.
Palco também, há três décadas, de uma onda de violência de skinheads e neonazistas contra imigrantes, homossexuais e ativistas conhecida como os “Anos do Taco de Beisebol”. Apenas memórias.
Pesquisas projetam mais de 40% dos votos para a AfD (Alternativa para a Alemanha), sigla avaliada pelos serviços de segurança do país como de “extrema direita comprovada”.
O partido contesta a classificação em âmbito federal na Justiça. No diretório estadual do qual Siegmund faz parte, o rótulo já é irreversível. Parte de seus integrantes é investigada por discurso de ódio, citações nazistas e desobediência à Constituição.
O gabinete do primeiro-ministro Friedrich Merz discute como evitar que um eventual governo da AfD tenha acesso a segredos de Estado ou detalhes sensíveis da administração. Parte do establishment defende que o partido seja proscrito. Se a eleição deste domingo fosse em toda a Alemanha, 28% dos eleitores escolheriam a AfD.
Siegmund não é nome do partido para 2029, data do próximo pleito federal se o governo Merz não cair pelo caminho –o primeiro-ministro tem recordes negativos de popularidade e será ainda mais pressionado se a AfD chegar ao Poder Executivo pela primeira vez.
Aliados dizem que Berlim é plano para 2033, um jeito delicado de dizer que ele está na fila, atrás apenas de Alice Weidel, o grande nome do partido. De qualquer forma, Siegmund precisa primeiro se tornar ministro-presidente, cargo equivalente a governador.
“Precisa ser 45 ou mais”, diz o candidato sobre o número de cadeiras que define como “maioria segura” para ser indicado e governar. Os últimos levantamentos mostram que a AfD alcançará no mínimo 39 assentos. Qualquer coisa que não seja a maioria fará os militantes e integrantes de grupos extremistas irem para as ruas reclamar de fraude.
Siegmund, até aqui, diz que respeitará o resultado das urnas. Seu discurso, em geral, é simpático e contido, diferentemente do radicalismo expresso em seu programa de governo: deportações em massa de imigrantes em situação irregular, serviços de saúde livre de estrangeiros, a descrição de família como homem, mulher e filhos, intervenções severas nas áreas de cultura e educação. Nem as Igrejas Evangélica e Católica escapam, pois não seriam cristãs o suficiente.
Sua campanha não será lembrada por grandes discursos ou comícios. Marcantes foram os passeios pelo estado, puxando caravanas a bordo de uma motoneta Simson, relíquia da Alemanha Oriental, espécie de símbolo dos “bons tempos”, quando o russo era ensinado nas escolas e todos tinham emprego e habitação garantidos.
O partido promete tudo de volta, sem explicar exatamente como. Boa parte do programa é inconstitucional ou está fora da alçada de um estado. A AfD não lida bem com limites.
Na campanha, porém, o que importa são as memórias afetivas, processada em cortes no TikTok e na imagem de propaganda transmitida no telão do comício. Stasi, repressão, isso tudo é memória histórica, mal ensinada nas escolas por professores que insistem em se meter em política. Serão tolhidos, essa é outra promessa do partido.
Siegmund nasceu em 1990, após a queda do muro de Berlim, e prefere falar das crises atuais. É seu dom, explica, saber falar com as pessoas, entender o que elas precisam.
Foi com essa intuição e uma graduação em psicologia corporativa que criou uma empresa de marketing olfativo, com mais de 200 fragrâncias no catálogo. Por exemplo, “Le Patron”, com notas de limão, maçã verde, cravo e canela, usada para conferir elegância em escritórios e salas de espera.
O segmento era promissor, mas a vida política insistia em se impor. Com 18 anos, filiou-se à CDU, o partido democrata-cristão, de Merz e da então primeira-ministra, Angela Merkel. Pulou para a AfD em 2014, na crise do euro, elegendo-se deputado estadual dois anos mais tarde.
Viralizou na pandemia, obtendo projeção nacional ao reclamar nas redes sociais do confinamento e das medidas de restrição sanitária do governo federal. Ganhou peso no partido. Em 2024, virou heroi da militância de extrema direita depois de ter sido flagrado por um site investigativo em uma reunião com empresários discutindo reimigração –o eufemismo utilizado para deportação forçada.
O relato do encontro foi resgatado pela imprensa alemã nos últimos dias. Siegmund explicava sua estratégia de querer parecer “um cara completamente normal, alguém com quem as pessoas pudessem se identificar”. Decisões políticas cruciais deveriam ser tomadas “nos bastidores”. A mudança tinha que ser rápida, a vida para os imigrantes na Saxônia-Anhalt tinha que se tornar pouco atrativa.
Na semana passada, comerciantes de origem estrangeira no estado alertaram para as possíveis consequências desse tipo de política na prática.
Siegmund evita polêmicas. Porte atlético, cabelo escovinha e o tal sorriso de propaganda estão lá para tirar fotos com eleitores e autografar exemplares da Der Spiegel que traziam ele na capa. O epíteto de homem mais perigoso do país se tornou um ativo.
Seu perfil de popstar prescinde da política. Basta um pouco de memória seletiva.