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China celebra sua versão de Hong Kong nos 25 anos da retomada

Ele exemplifica sua visão com a escolha do ex-chefe de segurança honconguês John Lee como o substituto de Carrie Lam

Por FolhaPress 30/06/2022 6h39
Local medical workers hold a strike near Queen Mary Hospital as they demand the city close its border with China to reduce the coronavirus spreading, in Hong Kong on February 3, 2020. – Hong Kong has 15 confirmed cases of the disease, many of them brought over from the Chinese mainland where the epidemic began and has so far killed more than 360 people. (Photo by Anthony WALLACE / AFP)

Igor Gielow
São Paulo, SP

A China celebra nesta sexta (1º) os 25 anos da retomada do controle sobre Hong Kong. Mais significativamente, comemora os 2 anos em que impôs sua versão sobre como deve ser o território que recebeu de volta dos britânicos após um século e meio de dominação colonial.

O faz em grande estilo, com a primeira viagem do líder Xi Jinping fora da área continental da ditadura comunista desde o início da pandemia de Covid-19, em 2020. Logo depois de chegar à estação de trem de alta velocidade vindo da vizinha Shenzhen, Xi falou rapidamente e deu o tom.

“Depois das tormentas, Hong Kong renasceu das cinzas e emergiu com uma vigorosa vitalidade. Os fatos demonstram que o princípio de ‘um país, dois sistemas’ está cheio de vitalidade”, afirmou o líder.

É um resumo racional para uns, cínico para outros, do que aconteceu desde a última vez que Xi esteve por lá, em 2017. As ditas “tormentas”, a convulsão política de 2019, quando milhares foram às ruas em protestos que terminaram em violência por garantias democráticas, mudaram para sempre Hong Kong.

“Eu sinto falta da minha terra, e espero voltar um dia. Mas não é possível negociar com Pequim porque este é um regime totalitário que não pode dar nenhuma liberdade para as pessoas”, afirmou por mensagem Stanley Ho, 37. “Mais importante, o regime ainda tem ódio pelo que ocorreu em 2019.”

Ho era um conselheiro local de um partido moderado, eleito no pivotal pleito de novembro de 2019 que selou a morte dos movimentos pró-democracia no território, que haviam tido uma vitória expressiva e sinalizado uma via de resistência dentro do sistema. Ele, que havia sofrido um brutal ataque de nacionalistas chineses naquele ano, dizia à reportagem à época acreditar que aos poucos Hong Kong ganharia outra feição.

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Ganhou, mas não a desejada por ele. Em agosto de 2020, um mês depois que Pequim implementou a dura Lei de Segurança Nacional, todos os políticos de oposição à China renunciaram no território. “Um ano depois, eu saí de Hong Kong. A mensagem que recebemos era de que teríamos grandes problemas, seríamos presos ou mortos, se insistíssemos em fazer o que fazíamos no passado”, conta ele, que mora em Cardiff (Reino Unido).

A repressão ao que era percebido por Pequim e pela elite econômica de Hong Kong como uma desestabilização impossível de aceitar acabou matando, na prática, o sistema enaltecido por Xi nesta quinta como havia sido concebido.

Como os protestos se radicalizaram por pedidos de independência em vários momentos, o temor de isso ser visto como exemplo para outras regiões e mesmo para Taiwan, ilha que Xi busca absorver e que o Ocidente vê como uma Ucrânia em potencial, ficou evidente.

Em 1984, o acerto entre britânicos e chineses previa que o território seria devolvido em 1997. A partir daí, 50 anos se passariam sob “um país” (a China) e “dois sistemas” (comunista no continente, capitalista liberal no território).

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“Foi uma relação sempre tensa, desde o começo. É preciso lembrar que os ingleses eram os inimigos na cabeça de muitos honcongueses, em especial aqueles que se deram bem financeiramente. Para quem só queria liberdade, contudo, acabou sendo a troca do inglês pelo han [etnia majoritária no continente, enquanto Hong Kong é 92% cantonesa]”, diz John, um jornalista ocidental que mora há 30 anos na cidade e pede para usar um nome fictício.

A China foi favorecida. Hong Kong virou seu entreposto comercial com o mundo, com cerca de 65% do fluxo de investimentos estrangeiros para dentro e para fora do país passando por lá. O capitalismo altamente desregulado também tornou a cidade um centro financeiro internacional.

Turbulência sempre ocorreu, como em 2003 ou 2014, mas 2019 provou-se um marco porque foram mais de seis meses de crise aguda e com a interferência dos Estados Unidos. Hong Kong virou peça da Guerra Fria 2.0 promovida por Washington contra a assertividade de Xi, e em Pequim o controle rígido virou uma necessidade política.

Com isso, os “dois sistemas” foram erodidos, com a intervenção no Conselho Legislativo, que agora só pode eleger “patriotas”, aspas compulsórias, e teve sua composição mudada para reduzir o acesso pelo voto direto. O Judiciário, cuja autonomia era peça central do arranjo, agora vê a polícia secreta chinesa operar livremente no território, e a lei draconiana levou centenas à prisão.

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De forma ilustrativa, todos os ativistas com quem a reportagem conversou em 2019 hoje estão presos ou exilados. Cidadãos que optaram por ficar escondem sua identidade e conversam por meios eletrônicos indiretos, com medo da vigilância instalada.

Como diz John, Hong Kong hoje caminha para ser uma cidade chinesa como outras, embora seu DNA não permita isso de forma tranquila. Seu papel econômico segue importante, mas dividido: em 2021, apesar de ter registrado a maior entrada de investimento estrangeiro da história, ele era basicamente chinês.

E houve uma redução de seu peso relativo: antes a capital das IPOs (ofertas públicas de ações), Hong Kong registrou apenas 15 no primeiro trimestre deste ano, 90% a menos do que no mesmo período de 2021. Já as Bolsas de Xangai, Shenzhen e Pequim fizeram 85 de janeiro a março.

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Economicamente, contudo, talvez Hong Kong resista e se reinvente nos moldes desenhados por Pequim. Do ponto de vista político, parece difícil acomodar as demandas. John afirma que a vitalidade que o atraiu como um jovem de 20 anos à cidade “se esvaiu completamente”, sendo substituída por “tensão e desconfiança”.

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“Não temos como ter esperança agora. Muitos dos honcongueses ilustrados foram embora. Outros estão presos. Acredito que as questões sociais e políticas não serão dissolvidas e vão ficar piores porque as pessoas com talento para resolver problemas foram embora”, afirma Ho, que trabalha como chefe de comunicação de uma rede sindical galesa com 400 mil membros e quer ir estudar nos EUA no ano que vem.

Ele exemplifica sua visão com a escolha do ex-chefe de segurança honconguês John Lee como o substituto de Carrie Lam, a impopular executiva-chefe do território desde 2017. “Ele tem uma péssima reputação. Era um policial de alto escalão em 2019, tomou más decisões, e agora recebeu apoio de Pequim. Ele só irá seguir as ordens”, diz o ativista.








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