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Atirador de Buffalo detalhou plano na internet cinco meses antes de massacre

À época, escreveu no aplicativo que mataria aqueles que chamava de “substitutos” -referência à “teoria da substituição”

Por FolhaPress 17/05/2022 5h12
Foto: AFP

O homem que matou dez pessoas a tiros no sábado (14), em um ataque a um supermercado em Buffalo, no estado de Nova York, detalhou seus planos em posts numa plataforma online nos últimos cinco meses.

O jornal The Washington Post teve acesso a mais de 600 páginas de mensagens escritas por Payton Gendron, 18, no aplicativo Discord, em que usuários criam grupos de bate-papo restritos a convidados.

Segundo a reportagem, Gendron decidiu realizar o ataque em dezembro de 2021. À época, escreveu no aplicativo que mataria aqueles que chamava de “substitutos” -referência à “teoria da substituição”, cada vez mais difundida nos EUA, segundo a qual os americanos correm o risco de serem substituídos por pessoas não brancas. Dias antes do ataque, ele publicou online um manifesto racista de 180 páginas.

De acordo com as mensagens postadas pelo atirador, em fevereiro deste ano ele resolveu que o alvo seria o supermercado Tops, em Buffalo, baseado na alta concentração de pessoas negras na região.

Gendron, branco, atingiu 13 pessoas, 11 das quais negras. O atentado foi transmitido por ele ao vivo por meio da plataforma Twitch, serviço de streaming da Amazon usado principalmente por gamers.

Em 8 de março, ainda segundo os posts, o atirador realizou uma viagem até o local para conhecer a loja e ver como a segurança era feita. Gendron é de Conklin, também em Nova York, a 330 km de Buffalo.

Ele contou também que mais de 50 negros estavam no local no dia da visita. As mensagens são acompanhadas de esboços da planta baixa do supermercado e de várias fotografias. O atirador chegou a ser confrontado por um segurança do estabelecimento, que estranhou o fato de ele ter ido diversas vezes ao lugar. Gendron, então, teria inventado uma desculpa. “Foi por pouco”, disse ele em uma das postagens.

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O atirador identificou o supermercado como “área de ataque 1” e demonstrou a intenção de atirar em igrejas e escolas. Em 28 de abril, ele chega a questionar por que o FBI não está atrás dele. Ao Washington Post um porta-voz da polícia disse que a agência não sabia nada sobre o atirador antes do ataque.

As mensagens postadas no Discord não estavam disponíveis publicamente, e a reportagem do jornal afirmou que a empresa se recusou a dizer quantas pessoas puderam ver as postagens antes do atentado.

Além de detalhar os planos de Gendron, os posts exibem outros comportamentos violentos, como quando ele contou ter mutilado um gato ou foi submetido a uma avaliação de saúde mental, em junho de 2021, após ter dito na escola o desejo de “cometer um ataque suicida” ao ser questionado sobre o que gostaria de fazer depois de se formar. Ele foi levado a um hospital psiquiátrico e liberado um dia e meio depois.

Na época, ele disse à polícia que estava brincando, mas, nas mensagens postadas, contou que não era uma piada. Em novembro, Gendron divulgou uma cópia do manifesto publicado por Brenton Tarrant, um racista declarado que matou 51 muçulmanos em ataques a duas mesquitas na Nova Zelândia em 2019.

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O atentado em Buffalo lembra outros massacres por motivos raciais que ocorreram nos EUA nos últimos anos, incluindo um ataque à sinagoga de Pittsburgh que deixou 11 mortos em 2018 e os tiroteios em Atlanta, em março de 2021, nos quais um homem branco matou oito pessoas, visando asiáticos.

O ataque também coloca a polícia, as redes sociais e o governo Biden na mira. Ativistas, políticos e especialistas tentam entender como o massacre poderia ter sido evitado. Mesmo após ter sido investigado pela polícia, no ano passado, Gendron não teve dificuldades para comprar uma arma capaz de disparar mais rapidamente do que armamentos comuns.

Ao comentar o atentado, no sábado (14), o presidente Biden não falou sobre reforçar controles de armas, mas enfatizou que o caso se tratava de terrorismo. “Temos de fazer tudo ao nosso alcance para acabar com o terrorismo doméstico alimentado pelo ódio”, afirmou o democrata, em comunicado.

Principais leis sobre armas nos EUA

1791
2ª Emenda Constitucional
Diz: “Uma milícia bem regulada, sendo necessária para a segurança de um Estado livre, o direito de manter e portar armas não deve ser infringido”.

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1934
National Firearms Act (Lei nacional de armas de fogo)
Primeira lei federal a regulamentar e taxar a fabricação e a venda de armas de maior calibre. Pistolas ficaram de fora das regras.

1938
Federal Firearms Act (Lei federal de armas de fogo)
Exigiu que fabricantes, importadores e vendedores de armas tenham licença para atuar e impediu a venda de armas a ex-condenados pela Justiça, entre outras categorias.

1968
Gun Control Act (Lei de controle de armas)
Expandiu a lista de restrições à compra, determinou que as armas tivessem um número de registro e vetou a importação, exceto para fins esportivos -mas sem definir o que seriam “fins esportivos”.

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1986
Firearms Owners’ Protection Act (Lei de proteção aos donos de armas)
Retirou várias restrições à compra, legalizou a venda em feiras de armas e afrouxou as exigências para que comerciantes mantenham registros sobre os produtos vendidos.

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1993
Brady Act (Lei Brady)
Estabeleceu prazo de cinco dias entre a compra e a entrega, para haver mais tempo para a checagem de antecedentes do cliente. Nos anos seguintes, a norma foi flexibilizada e, atualmente, é permitida uma avaliação rápida em muitos casos.

1994
Federal Assault Weapons Ban (Veto federal às armas de assalto)
Baniu a fabricação, venda e posse de armas semiautomáticas e de maior poder de fogo. A medida expirou em 2004 e não foi renovada.

2005
Protection of Lawful Commerce in Arms Act (Proteção ao comércio legal de armas)
Proibiu que fabricantes e vendedores sejam processados caso seus produtos sejam usados em crimes e passou a exigir que as armas sejam transportadas e mantidas de forma segura.

2007
NCIS Improvement Amendments Act (Lei de melhoria no sistema nacional de checagem de informações criminais) deu estímulos financeiros para que os estados melhorem as bases de dados a serem consultadas pelos vendedores antes de entregar as armas aos compradores.








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