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Economia

Toneladas de caroço de pêssego viram produtos como óleo, carvão ativado e fungicida natural

O empresário gaúcho Fábio Pereira dos Santos de Castro teve uma ideia genial: transformar em produtos de elevado valor agregado enormes montanhas de caroço que se formavam mensalmente nos arredores das indústrias do pêssego em Pelotas (RS), capital brasileira da fruta. E conseguiu. Depois de muita pesquisa, Fábio fez com que 5 mil toneladas de caroço deixassem de ser descartadas no meio ambiente anualmente – uma vez que somente 25% são utilizados para o replantio

Redação Jornal de Brasília

12/09/2023 14h21

Foto: Indústria Verde

Depois de muita pesquisa, empresário gaúcho encontrou a solução para um crescente problema ambiental ao reaproveitar resíduos para criar produtos de alto valor agregado

O empresário gaúcho Fábio Pereira dos Santos de Castro teve uma ideia genial: transformar em produtos de elevado valor agregado enormes montanhas de caroço que se formavam mensalmente nos arredores das indústrias do pêssego em Pelotas (RS), capital brasileira da fruta. E conseguiu. Depois de muita pesquisa, Fábio fez com que 5 mil toneladas de caroço deixassem de ser descartadas no meio ambiente anualmente – uma vez que somente 25% são utilizados para o replantio – e gerou produtos como:

? Óleo da amêndoa do caroço de pêssego, cheirosíssimo, cheio de propriedades especiais, para a fabricação de cosméticos
? Extrato pirolenhoso condensado, uma espécie de fungicida para utilização na agricultura, um subproduto do processo de pirólise que aumenta a resistência das plantas, já validado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
? Carvão ativado para utilização no tratamento de efluentes e d’água, entre outras aplicações

O extrato pirolenhoso e o carvão ativado são vendidos por cerca de R$ 10 o litro e o quilo, respectivamente; e o óleo da amêndoa, por cerca de R$ 1 o litro.

Desta forma, o empresário encontrou a solução para um problema ambiental que se tornava cada dia mais grave. “O caroço de pêssego era um drama para as indústrias de Pelotas”, diz Fábio, hoje dono da Bioquim Especialidades Químicas, Biológicas e Equipamentos Ltda, que presta serviços na área ambiental para diferentes áreas de atuação – da indústria alimentícia à metalmecânica. Hoje, toda a produção de caroço de pêssego da região é direcionada para a Bioquim.

“Os caroços eram enterrados no chão, mas não se degradam”, explica. Fábio então partiu para a pesquisa e descobriu que havia pouco estudo em torno do tema. “Fui me aprofundando – e a ideia de que isso poderia se transformar em um bom negócio veio a partir do aprendizado sobre o óleo da amêndoa e, depois, da possibilidade de criar carvão ativado para tratar água. Em seguida, me encantei muito com o extrato pirolenhoso, também. Acabei alugando um lugar que tinha alguns fornos gigantescos – uma antiga olaria – e ali fiz minhas primeiras retiradas de carvão. E começou a dar certo.”

Processo a frio

O empresário detalha o processo: “Eu quebro o caroço, tiro a amêndoa, que então passa por um processo a frio, de espremer e tirar o óleo; e, da parte amadeirada do caroço que sobra, eu tiro dois outros produtos muito nobres: o carvão ativado e o extrato pirolenhoso”. Fábio fala de seu empreendimento com orgulho. “A Bioquim foi uma empresa muito pequena e com grandes dificuldades, no início, para fazer esse processo andar. A gente não vem de família rica, mas agora tenho a possibilidade de fazer escala – então o futuro da Bioquim é promissor. Temos grandes parceiros interessados.”

Ele também percebe o quanto sua ideia pode frutificar em searas mais distantes. “Veja bem: o que estamos fazendo pode ser replicado, porque o Brasil é um dos 14 países que produzem pêssego – tem país que produz muito mais. A China produz muito pêssego; a Grécia também. Os Estados Unidos, o Canadá, a Itália, a Argentina, o Chile… ao todo, mais de dez países estão à frente do Brasil, dependendo da safra. E eu posso replicar essas tecnologias em outros países; posso reproduzir o meu maquinário e colocá-lo na Grécia, por exemplo. Então acredito que a coisa vai dar certo.”

Maior produtor do país

Somada às cidades próximas Morro Redondo e Capão do Leão, Pelotas é o maior produtor de pêssego do país: todo ano, a indústria local produz 131 mil toneladas de pêssego – ou 50 milhões de latas de fruta em conserva – e descarta mais de 4 mil toneladas de caroços. Hoje, toda a produção de caroço de pêssego da região é direcionada para a Bioquim.

O projeto de Fábio que deu origem ao reaproveitamento dos caroços de pêssego – “O resíduo do caroço de pêssego e seus lucrativos e inovadores produtos”, com foco na preservação do meio ambiente e na economia circular – foi aprovado em 2018 no Edital de Inovação para a Indústria do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) por sua contribuição à bioeconomia nacional e sua capacidade de resolver um impasse ambiental.

A partir de 2020, o projeto foi desenvolvido em parceria com o Instituto SENAI de Tecnologia em Couro e Meio Ambiente, que viabilizou o desenvolvimento de produtos a partir dos resíduos de caroço de pêssego.

“Hoje este projeto é de grande orgulho para nós”, afirma Luciana Costa Teixeira, analista de Serviços Técnicos e Tecnológicos no Instituto SENAI de Tecnologia em Couro e Meio Ambiente, que desenvolveu o projeto de Fábio. Segundo ela, a ideia do empresário salvou o dia. “Esta era uma antiga demanda das empresas da região: o que fazer com tantos caroços de pêssego”, acrescenta Luciana.

O Edital de Inovação para a Indústria do SENAI foi lançado em 2017 – com a parceria do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) e do Serviço Social da Indústria (SESI) – para financiar o desenvolvimento de novos produtos, processos e plantas-piloto para a indústria nacional. A intenção é “trazer inovação para a indústria”, diz a analista. “Os projetos têm de ser aplicados, entrar no mercado. Não é só um estudo para ver se o projeto é possível: ele já tem de vir com uma prova de conceito – prática que testa a viabilidade técnica. Assim: o empresário já viu que funciona e agora precisa aumentar a escala.”

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