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Promoções da Black Friday estão ameaçadas pela crise dos contêineres

A elevação de preços ainda é reflexo das dificuldades com a importação de insumos, peças e produtos prontos

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Fernanda Brigatti
São Paulo, SP

O consumidor na expectativa de realizar um sonho de consumo durante a Black Friday deste ano deve se preparar para encontrar preços mais altos. A maioria dos produtos mais procurados na data de promoções já acumula aumentos acima de 10% apenas em 2021.

A elevação de preços ainda é reflexo das dificuldades com a importação de insumos, peças e produtos prontos. As dificuldades são transatlânticas –e tudo ficou mais caro.

Nos fretes, os aumentos passam de 400%. De até US$ 2.000 (cerca de R$ 11 mil) até o início da pandemia, a indústria está pagando US$ 10 mil (cerca de R$ 55 mil) pelo transporte de insumos em contêineres, mas há quem relate ter precisado desembolsar US$ 30 mil (cerca de R$ 165 mil) para conseguir trazer insumos e matérias-primas.

Há ainda uma falta sem precedentes de contêineres, aumentando o tempo de percurso das linhas (o chamado transit time) e elevando as filas de espera.

As peças e partes produzidas fora do Brasil, principalmente em países no leste asiático também estão custando mais em dólar, num período em que o real acumula desvalorização. Desde janeiro, o dólar acumula 6,3% de alta frente ao real –na última sexta (8), a moeda americana chegou a R$ 5,5160.

“Nossa elevação de custo não é algo razoável. Boa parte dos nossos insumos é dolarizado e, para piorar, temos essa crise global de fretes e contêineres”, diz Jorge do Nascimento, presidente da Eletros, associação que representa fabricantes de eletrodomésticos, eletrônicos e portáteis.

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Um dos hits das edições anteriores da Black Friday, os televisores de tela fina já acumulam alta de preços de 28% até agosto deste ano, segundo monitoramento da consultoria de consumo GfK. Entre os notebooks, o aumento de preços é de 30%, e de 11%, entre as lavadoras de roupas.
Fernando Baialuna, diretor de negócios e varejo da GfK, diz que a tendência é que os preços atuais sejam mantidos. Ou seja, não deve haver novo ajuste até a Black Friday. “A maior parte dos aumentos de preços já aconteceu. Agora o desafio é conseguir atender essa demanda latente com parcelamento e ofertas.”

O perfil de compra na Black Friday, segundo Baialuna, já leva os preços médios negociados na data para cima. “É uma compra planejada, de realização de um desejo. Seja um celular melhor ou uma geladeira frost free.”

Neste ano, além do preço maior da compra do tipo “premium”, questões econômicas e de logística devem fazer com que o varejo fature mais, ainda que venda menos.

Nascimento, da Eletros, diz que os patamares de preços serão mantidos “graças a esforços gigantes”. Para o Natal, porém, ele calcula novas altas, entre 5% a 7%. “Conseguimos uma absorção de cerca de 85% dos reajustes. Mais do que isso, não dá.”

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Bárbara Kern, presidente-executiva da Viscaya, distribuidora das marcas Hermès, Montblanc, Coach, Jimmy Choo e Salvador Dalí, diz que as dificuldades com compras levarão um volume menor de produtos às lojas. Os preços, porém, não devem ter grande alteração.

“Aumentamos nossa previsão de compras meses atrás e os fornecedores não tinham mais como atender. Estamos preparados? Estamos, mas [a oferta de produtos] poderia ser maior.”

A executiva diz que a cadeia de produção e distribuição acabou absorvendo boa parte dos aumentos, apertando as margens. “Em alguns casos, você tem mesmo que assumir perdas, não dá para simplesmente repassar as instabilidades do dólar.”

A indústria eletroeletrônica diz que mais empresas têm relatado atrasos nas cargas importadas. Sondagem de agosto realizada pela Abinee, associação do setor, mostra aumento nas queixas de dificuldades em reservar contêineres e de atrasos nos agendamentos de fretes.

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Em junho, 27% das indústrias do setor relatavam problemas com as importações por dificuldades com contêineres. O percentual saltou a 46% na sondagem de agosto.

“Os empresários continuam com perspectivas favoráveis para os próximos meses. Porém, permanecem as dificuldades decorrentes da falta de componentes eletrônicos e matérias-primas no mercado e sua consequente alta de preços”, diz a Abinee.

Rafael Dantas, diretor comercial da empresa de logística Asia Shipping, diz que a previsão no mercado é de que os preços e condições dos fretes só sejam normalizados após 2023, quando novos navios e mais contêineres serão entregues.

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Ele não descarta a falta de produtos para a temporada de fim de ano, diante das dificuldades dos últimos meses, mas diz que muitos importadores anteciparam as compras, de olho nas dificuldades com entregas.

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Os prazos e preços instáveis nunca chegaram a uma estabilização desde que a pandemia começou.

A antecipação foi adotada também por grandes varejistas, como a rede Armarinhos Fernando. O caos acaba sendo um complicador para os pequenos compradores que, sem escala, acabam sujeitos a negociações menos vantajosas.

A crise dos contêineres também está afetando as exportações, pois os embarques estão demorando mais. Os agendamentos estão com janelas maiores –de embarques semanais, as empresas relatam esperas de quase um mês para conseguir enviar mercadorias.

E todo esse estrangulamento vem ocorrendo apesar do aumento da movimentação de contêineres nos portos. No Brasil, os terminais do porto de Santos, por exemplo, registraram aumento de 16% no número de contêineres. Em toneladas, cresceu 19,4%.

O volume movimentado no segundo trimestre no Tecon Santos, terminal de contêineres da Santos Brasil, foi o maior em oito anos. Foram 296 mil contêineres embarcados e desembarcados, e 23 escalas extras, que a empresa atribui ao aquecimento da demanda e às restrições operacionais de outros terminais.

Os portos de Itajaí (SC) –que inclui o terminal de Navegantes, o Portonave– registraram, de janeiro a agosto deste ano, aumento de 36% no número de contêineres embarcados e desembarcados. Na comparação por tonelada movimentada, o crescimento foi de 45%.

Claudio Loureiro, presidente do Centronave, entidade que representa os armadores (como são chamadas as companhias donas dos navios), diz que as regras de controle da pandemia ainda reduzem a produtividade nos portos e armazéns em todo o mundo.

Com isso, por exemplo, um contêiner que fazia quatro ciclos completos em uma rota entre Ásia e Costa Leste dos Estados Unidos, hoje faz dois ciclos e meio.
Há ainda relatos de congestionamentos nas costas, com filas de navios à espera de desembaraço. Em setembro, foi registrado um recorde de navios parados na costa da Califórnia, onde, além da crise dos contêineres, dificuldades com a contratação de mão de obra tornaram o trabalho nos portos ainda mais tumultuados.

Ricardo Santin, presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), diz que a situação impede que o Brasil tome mercado. Atualmente, o setor de aves e suínos usa cerca de 220 mil contêineres ao ano.

Com a demanda por essas carnes em alta, Santin diz que produtores menores teriam a chance de ganhar posições entre os exportadores, mas acabam não tendo condições de negociar fretes. Para os grandes, o impacto é menor, pois a maioria tem contratos longos.

No fim de agosto, diversas entidades do setor produtivo assinaram um ofício no qual pedem que o Ministério da Infraestrutura atue por uma solução para a escassez. O governo federal diz que vem atuando junto para discutir alternativas, “mas não possui competência para atuar diretamente para reverter o que é uma escassez de mercado.”

Santin, da ABPA, diz que os produtores querem uma solução de Estado. “Precisamos apressar concessões, rever a legislação da praticagem, formar mão de obra, melhorar a profuncionadade das nos portos”, afirma.

A “BR do Mar”, projeto do governo federal para modernizar a legislação da cabotagem, é apoiada pelas entidades. O Ministério da Infraestrutura prevê aumentar de 1,2 milhão para 2 milhões a capacidade de movimentação de contêineres no país. Na oferta de embarcações, o governo aposta em um aumento de 40%.

Fernando Biral, diretor-presidente da autoridade portuária de Santos, a SPA, diz que o comércio exterior hoje vive os reflexos da redução nas encomendas de navios ocorridas em 2019 e 2020. “Problemas de guerra comercial fizeram com que se pisasse no freio com as encomendas. Acabamos com um desbalanceamento dos contêineres, pois a Ásia exporta muito mais do que importa.”

Durante encontro do fórum nacional de logística, realizado há alguns dias em Brasília (DF), Biral indicou ainda os próximos desafios para os portos brasileiros. A maioria dos navios em produção hoje são maiores, de 400 metros. O que poderia ser uma boa notícia em capacidade de carga, é ruim para o Brasil.

“Temos a incapacidade da infraestrutura dos terminais em receber esses navios, e não é só em Santos. Vamos ter de aumentar a capacidade do canal. Precisamos investir em infraestrutura e o ritmo de investimentos terá de ser muito alto.”

As dificuldades com contêineres acabaram impulsionando os fretes aéreos. A Asia Shipping diz ter aumentado em 30% suas operações de exportações em aviões cargueiros no primeiro semestre. A Maersk, uma das gigantes dos mares, lançou em junho o serviço de frete aéreo para o Brasil.








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