Nesta penúltima sessão de novembro, o Ibovespa encontrou dificuldade para levar adiante ganhos já perto de 12% no mês, tampouco mostrou inclinação a realizar parte dos lucros que se acumularam no intervalo, até aqui o melhor desde novembro de 2020, há três anos, quando havia avançado 15,90% no mês.
Assim, a referência da B3 se manteve bem perto da estabilidade ao longo da tarde e acentuou mínimas em direção ao fechamento, aos 126.165,64 pontos, em baixa de 0,29% na sessão, vindo de ganhos moderados nas duas anteriores. Hoje, oscilou de 126 017,97 (-0,41%) a 127.388,15 pontos, saindo de abertura a 126 540,64 pontos. Na semana, o índice avança 0,52% e, no mês, ganha 11,51%. No ano, o Ibovespa acumula alta de 14,97%. O giro financeiro foi a R$ 22,4 bilhões nesta quarta-feira.
O dia foi positivo para as cotações do petróleo, com o Brent e o WTI em alta respectivamente de 1,73% e 1,89% no fechamento de Londres e Nova York. Contudo, Petrobras esteve como destaque de baixa (ON -1,32%, PN -1,04%) entre as ações de maior peso e liquidez na B3 – ambas ainda acumulam ganhos no mês, de 2,02% e 5,07%, respectivamente, em intervalo onde as perdas do petróleo giram em torno de 3% a 4%. Vale caiu hoje 0,03% e, entre os grandes bancos, Bradesco ON cedeu 0,56% e PN, 0,49%. Na ponta do Ibovespa, Marfrig (+4,73%), Lojas Renner (+4,14%) e Vibra (+3,48%); no lado oposto, Gol (-5,16%), Hapvida (-5,12%) e MRV (-4,64%).
“Na agenda de hoje, a segunda leitura sobre o PIB dos Estados Unidos no terceiro trimestre veio forte alta anualizada de 5,2%, ante expectativa a 4,9%, mas a acomodação vista no PCE, métrica de preços ao consumidor preferida do Fed, mantém o cenário para os juros de referência do BC americano”, diz Gustavo Harada, chefe da mesa de renda variável da Blackbird Investimentos.
Ele se refere à expectativa que tem se consolidado no mercado, a partir dos dados econômicos e de falas recentes de autoridades do Federal Reserve – como a de ontem do diretor Christopher Waller -, de que o ciclo de aumento de juros no país já tenha atingido o topo, e que os cortes na taxa de referência provavelmente virão antes do que se previa.
Mantidas as condições de temperatura e pressão, e na ausência de novos vetores que contribuam para reforçar a cautela do mercado com relação às condições fiscais domésticas, Harada considera que o Ibovespa possa buscar um fechamento de ano a 128 ou 129 mil pontos, perto da importante linha de resistência dos 130 mil pontos.
“O mercado tem demonstrado força, sustentando altas e os preços dos ativos, em boa sequência até o quase zero a zero de hoje. Até aqui, sem correção significativa neste mês de novembro, muito pautado pela melhora do cenário macro, com a percepção de que o Fed está conseguindo controlar a inflação e que não será necessário voltar a elevar os juros”, diz Felipe Moura, sócio e analista da Finacap Investimentos.
“A Bolsa aqui estava muito descontada e veio o gatilho, com a melhora do quadro macro, para a recuperação que estamos vendo, e que não deve ser revertida no curto prazo, em meio a avanço que se nota também, no cenário doméstico, em pautas importantes no Congresso”, acrescenta.
No fim da tarde, veio um pequeno revés nessa frente: o governo não conseguiu um acordo com a oposição e teve de aceitar o adiamento da votação do projeto de lei de taxação das apostas esportivas para a semana que vem. A definição será tomada após a volta do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), ao Brasil. Ele acompanha o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na comitiva à COP-28, em Dubai. A previsão é de que Pacheco volte a Brasília na próxima quarta-feira, 6.
Dólar
O dólar à vista encerrou a sessão desta quarta-feira, 29, em leve alta no mercado doméstico de câmbio, mas ainda abaixo da linha de R$ 4,90, em dia marcado por ganhos moderados na moeda americana em relação a divisas emergentes e de exportadores de commodities. Operadores atribuíram o tropeço do real a um movimento natural de realização de lucros e ajustes na véspera da formação da última taxa Ptax de novembro, uma vez que a divisa já acumula valorização de mais de 3% no mês.
Afora uma queda bem moderada e pontual nos primeiros negócios, com registrou a mínima do pregão (R$ 4,8640), o dólar operou com sinal positivo no restante do dia. Com máxima a R$ 4,9058, a divisa fechou cotada a R$ 4,8876, avanço de 0,32%. Na semana, o dólar ainda apresenta baixa de 0,22%. Se terminar novembro com perdas similares aos níveis atuais, a moeda vai ter a maior queda mensal desde junho, quando recuou 5,59%.
O consultor econômico da Remessa Online André Galhardo observa que novembro foi marcado por uma perda global de força do dólar, diante de leituras benignas de inflação nos EUA e sinais de que o Federal Reserve já encerrou o processo de alta dos juros. Houve também um recuo das taxas longas dos Treasuries, o que beneficiou divisas emergentes como o real.
“A segunda preliminar do PIB dos EUA hoje trouxe crescimento anualizado mais forte. Mas a expectativa é de pouso suave da economia americana”, afirma Galhardo. “Se os dados de inflação americana vierem como esperado, podemos ter mais uma “pernada” de valorização do real em relação ao dólar”.
Pela manhã, a segunda leitura do PIB americano no terceiro trimestre mostrou crescimento anualizado de 5,3%, acima da estimativa dos analistas, de 4,9%. O índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) e seu núcleo no terceiro trimestre, contudo, vieram levemente abaixo da primeira leitura.
“A revisão para baixo dos números de inflação e a continuidade da convergência para a meta dão conforto pra posição de espera do Fed. Os EUA caminham pra fechar o ano com crescimento em torno de 2,5% (ante 1,9% de 2022)”, escreve, em nota, o economista-chefe da Nova Futura, Nicolas Borsoi.
Já em baixa pela manhã, as taxas dos Treasuries ampliaram o ritmo de queda à tarde na esteira da divulgação do livro Bege do Fed, que traz um sumário das condições econômicas do país. Com mínima a 4,59%, a taxa da T-note de 2 anos – que reflete mais às perspectivas para a condução da política monetária – desceu hoje menor nível desde junho. O retorno do T-bond de 30 anos renovou mínima à tarde, a 4,44%. A taxa da T-note de 10 anos furou o piso de 4,30%, com mínima a 4,244%.
Segundo o documento, a atividade desacelerou desde outubro e as perspectivas para os 12 meses também recuaram. Além disso, houve moderação no ritmo de aumento de preços na maior parte dos distritos avaliados. Trata-se de um panorama que reforça a perspectiva de arrefecimento inflacionário conjugado com “pouso suave” da economia. À tarde, a presidente do Fed de Cleveland, Loretta Mester, disse que houve progressos na redução da inflação sem queda no crescimento do país e que ainda há uma parte do aperto monetário realizado a ser transmitida para a economia.
Monitoramento de plataforma do CME mostra que a probabilidade de corte de juros pelo Fed já em março de 2024 subiu de 46,3% para 50%. Crescem também as apostas de que o ciclo total de redução da taxa de referência no próximo ano seja de 125 pontos-base.
Por aqui, investidores acompanham a tramitação da agenda econômica no Congresso. Com o mercado já fechado, o Senado aprovou, em votação simbólica, o projeto de lei de taxação dos fundos offshore e fundos exclusivos – uma das medidas gestadas pelo ministério da Fazenda para ampliar a arrecadação e cumprir a meta de déficit primário zero em 2024. Aprovado sem alterações significativas em relação ao texto que saiu da Câmara dos Deputados, o projeto segue agora para a sanção presidencial. Já a votação do PL de taxação das apostas esportivas foi adiado para a semana que vem, por falta de acordo.
Juros
Os juros futuros fecharam com viés de alta na ponta curta e estáveis nos vencimentos longos, numa postura mais defensiva à tarde com relação à manhã, em meio ao enfraquecimento do câmbio e à aceleração dos preços do petróleo. As taxas curtas ficaram perto da estabilidade durante todo o dia, na ausência de fatos novos com potencial de mexer com as apostas para a política monetária no Brasil, mas tinham viés de alta no fechamento. A curva, portanto, voltou a perder inclinação, favorecida pelo aumento do apetite ao risco no exterior. O PIB dos EUA no terceiro trimestre superou as expectativas mas trouxe um quadro de desaceleração da inflação, reforçando a ideia de pouso suave da economia americana.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2025 fechou em 10,450% (máxima) de 10,415% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2026 passou de 10,08% para 10,09%. A do DI para janeiro de 2027 recuou a 10,14%, de 10,18% ontem, e a do DI para janeiro de 2029, a 10,56% (de 10,57%).
A queda das taxas na B3 foi mais intensa na primeira parte dos negócios, quando também o recuo dos retornos dos Treasuries era mais consistente. A segunda estimativa do PIB dos Estados Unidos, mostrando alta de 5,2% entre julho e setembro, acima da mediana das estimativas de 4,9%, não alterou o otimismo do mercado sobre o ciclo de corte de juros pelo Federal Reserve em 2024. Até porque houve leve desaceleração das taxas trimestrais do índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês), de 2,9% a 2,8%, e do núcleo do PCE, de 2,4% a 2,3%.
A taxa da T-Note de dez anos, na mínima, caiu para a casa de 4,24%, diminuindo o ritmo à tarde, quando rodava a 4,27%, depois que o presidente do Fed de Richmond, Thomas Barkin, afirmou que prefere deixar em aberto a possibilidade de subir juros à frente, caso a inflação persista.
Felipe Rodrigo de Oliveira, economista da MAG Investimentos, diz que o mercado local estava mais animado pela manhã e à tarde “murchou”. “A desaceleração da queda das taxas tem a ver com o câmbio e com o petróleo”, explicou. O dólar se firmou em alta, ainda que moderada, na sessão vespertina e o petróleo ampliou ganhos depois que a Opep+ afirmou que estuda novos cortes de até 1 milhão de barris por dia na produção.
Assim, entre os vencimentos mais líquidos, a taxa do DI para janeiro de 2026 chegou, na mínima da manhã (10,01%), perto de voltar a um dígito, mas o fôlego arrefeceu à tarde, e as demais taxas também se acomodaram longe dos pisos do dia. A perda de força é vista como natural, dada a queima de prêmios de risco na curva ao longo do mês.
Como destacou o coordenador de Operações da Dívida Pública do Tesouro Nacional, Helio Miranda, novembro apresentou uma conjuntura “bem diferente” da de outubro, diante da retomada do apetite a risco nos mercados internacionais. O ambiente foi favorecido também pela publicação de dados de inflação mais favoráveis, inclusive no Brasil. “Nossa curva de juros chegou a ceder 80 pontos na parte longa. E temos CDS de cinco anos que teve forte melhora no mês, com recuo de 19%, acompanhando nossos pares da América Latina”, afirmou, em entrevista para comentar o relatório mensal da dívida.
A melhora de humor está diretamente ligada ao distensionamento da curva longa nos EUA, na medida em que o mercado zerou apostas em nova alta de juros pelo Fed e antecipou as projeções de ciclo de corte agora para o primeiro trimestre. Após a divulgação do Livro Bege às 16h, a ferramenta do CME Group passou a mostrar 50% de probabilidade de queda do juro em março. O documento destacou que a atividade econômica nos Estados Unidos desacelerou desde o relatório anterior, de outubro.
Estadão Conteúdo