Por Ágata Vaz
Antes de pensar em aposentadoria, patrimônio ou planejamento financeiro, muitas pessoas precisaram lutar por direitos básicos: existir publicamente, formar famílias reconhecidas pelo Estado, ocupar espaços profissionais e construir uma vida sem esconder quem são.
Com avanços sociais e jurídicos conquistados nas últimas décadas, uma nova discussão começa a ganhar espaço: como uma comunidade que passou tanto tempo lutando pelo presente também constrói segurança para o futuro?
A resposta tem relação com a forma como a própria sociedade entende as etapas da vida. O planejamento financeiro costuma ser associado a uma trajetória considerada tradicional: estudar, entrar no mercado de trabalho, construir estabilidade, acumular recursos e chegar à velhice com uma reserva formada ao longo dos anos.
Ciclo da vida
Essa lógica aparece na chamada Teoria do Ciclo da Vida, um dos modelos utilizados para compreender como as pessoas organizam seus recursos em diferentes momentos da existência. A professora de contabilidade Diana Vaz de Lima, da Universidade de Brasília (UnB), explica que a teoria considera que, durante a juventude, as pessoas investem em formação.
Na vida adulta, entram na fase de trabalho e acumulação de patrimônio; e, posteriormente, utilizam esses recursos como forma de garantir segurança financeira na aposentadoria.
“A teoria observa que um dos motivos mais importantes para guardar dinheiro é justamente essa ideia de que os jovens precisam economizar para que, quando ficarem velhos e não puderem ou não desejarem mais trabalhar, tenham recursos e tempo para gastar”, explica Diana.
Embora seja uma ferramenta importante para compreender o comportamento financeiro, esse modelo parte de uma trajetória social considerada padrão. No entanto, para pessoas LGBTQIAPN+, essa trajetória pode acontecer de outras formas, atravessada por diferentes experiências familiares, sociais e profissionais.
“Para esses jovens muitas vezes a fase inicial não é de investimento educacional com apoio familiar, mas de sobrevivência imediata devido a rupturas sociais”, afirma a professora.
O tempo de cada um
Isso não significa que exista uma única realidade dentro da comunidade. A professora identifica que as experiências são diversas e dependem de fatores como renda, escolaridade, identidade de gênero, apoio familiar e acesso ao mercado de trabalho.
Mas especialistas apontam que esses caminhos influenciam diretamente o momento em que cada pessoa consegue construir estabilidade financeira e pensar no envelhecimento.
É nessa relação entre trajetória de vida e planejamento que aparece a experiência do jornalista brasiliense Gustavo Elisson, homem gay de 30 anos. Ele conta que começou a pensar na poupança recentemente, quando passou a morar sozinho e percebeu a necessidade de organizar melhor a própria vida financeira: “Não foi o contexto em que cresci. Tive acesso a isso muito tardiamente”, relata.
Para Gustavo Elisson, a mudança veio com novas responsabilidades da vida adulta. Ao depender da própria renda, percebeu a importância de criar uma reserva e pensar em um futuro que antes parecia distante. Hoje, ele separa parte do salário como jornalista em uma agência de comunicação para uma reserva de emergência e mantém uma previdência privada com desconto mensal.
A conta do preconceito
O estudante de ciências contábeis e pesquisador Ricardo Bogaroch, explica que, para parte da população LGBTQIAPN+, essas trajetórias podem ser atravessadas por obstáculos que aparecem ainda na formação da vida adulta.
Ele destaca situações como rejeição familiar, dificuldades de permanência na escola e barreiras de inserção profissional como fatores que podem alterar o caminho de construção da autonomia. “A formação, a capacidade dessa ou desse jovem se tornar um adulto com renda ativa já está prejudicado desde a primeira fase”, afirma Ricardo Bogaroch.
O especialista chama atenção para o conceito de expulsão escolar, utilizado para descrever situações em que determinados grupos não apenas deixam a escola, mas são afastados por um ambiente que se torna hostil. As consequências desse processo podem aparecer anos depois, com impactos na qualificação profissional, no acesso ao mercado formal e na capacidade de contribuição previdenciária.
Essas desigualdades também aparecem no mercado de trabalho. O advogado especializado na inserção profissional da população LGBTQIAPN+, Jurandir Pereira, chama a atenção para barreiras específicas de acesso e permanência profissional.
Segundo ele, o esteticismo – ou seja, a discriminação baseada na aparência – influencia oportunidades de contratação e crescimento profissional. Como exemplo, no caso de transexuais, o advogado aponta que essas pessoas continuam mais expostas à informalidade e recebem, em média, cerca de 32% menos do que pessoas cisgênero em funções equivalentes.

Jurandir Pereira diz que desigualdades influenciam construção do futuro Foto: Arquivo Funpresp
Futuro financeiro
Essa diferença tem impacto direto na previdência: menos tempo em empregos formais significa menos contribuições acumuladas ao longo da vida.
Mas a relação da comunidade LGBTQIAPN+ com o futuro financeiro também relaciona-se com uma transformação cultural ligada ao consumo e à visibilidade.
É nesse cenário que surge o conceito de pink money. A expressão é utilizada para definir o poder econômico da população queer e o interesse crescente de empresas em disputar esse público. Na prática, o fenômeno aparece quando marcas desenvolvem campanhas, produtos e experiências direcionadas a esses consumidores, especialmente em setores como entretenimento, turismo, moda, cultura e lazer.
O reconhecimento desse público pelo mercado também acompanha uma conquista de pertencimento, ao ocupar lugares, consumir produtos e viver experiências que antes eram negadas.
Essa mudança, porém, cria uma nova discussão sobre dinheiro. Gustavo observa esse movimento especialmente entre homens gays. Para ele, existe uma valorização muito forte da juventude, das experiências e da possibilidade de aproveitar uma liberdade conquistada recentemente. “Criou-se um nicho voltado diretamente para esse público, o que faz com que pensem muito mais no hoje e esqueçam da fase de envelhecimento”, afirma.
Viagens, entretenimento, eventos e novos espaços de sociabilidade passam a fazer parte de uma realidade que antes não estava disponível.
O desafio aparece quando essa valorização do presente ocupa o espaço do planejamento de longo prazo. A mesma liberdade que amplia possibilidades de consumo também exige uma nova reflexão: como equilibrar as conquistas do agora com a construção de segurança para o futuro?
A questão não está no consumo em si, mas na relação entre consumo, acumulação e proteção financeira.
A professora Diana Vaz explica que a formação de patrimônio depende de um processo contínuo ao longo da vida. Essa dinâmica ajuda a compreender a chamada divergência de acumulação: pessoas com trajetórias diferentes podem chegar à vida adulta em momentos distintos de construção financeira.
O direito de envelhecer
Além da organização individual, a proteção financeira também envolve os direitos construídos a partir das relações afetivas.
Gustavo lembra que o reconhecimento jurídico das uniões entre pessoas do mesmo sexo trouxe mudanças práticas para muitos casais LGBTIAPN+. “Não tem muito tempo que temos usufruído de direitos que antes eram restritos somente aos casais heterossexuais”, comenta. O acesso a benefícios como inclusão em plano de saúde, a ideia da organização patrimonial e outras garantias familiares passaram a fazer parte de uma realidade que antes era limitada. “Estar em um matrimônio traz essa estabilidade e te faz pensar e planejar sobre o futuro”, completa Gustavo.
Rafael Alencar, servidor do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), explica que essas transformações ampliaram o acesso à proteção social. Segundo ele, a previdência envolve não apenas contribuição individual, mas também direitos construídos a partir dos vínculos familiares reconhecidos pelo Estado. “Além dos benefícios voltados ao segurado, a previdência também protege os dependentes”, diz Rafael.
Rafael também destaca a importância de compreender a diferença entre aposentadoria e benefícios assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Enquanto a aposentadoria depende das contribuições feitas durante a vida profissional, o BPC é destinado a pessoas que atendem aos critérios de vulnerabilidade previstos pela legislação.
Para quem teve uma trajetória profissional marcada por instabilidade, essa diferença pode ser determinante na velhice. “Eu acredito que quando a gente fala de população LGBT, não estamos falando de criar novos direitos para essa população, mas que os direitos que já existem sejam acessíveis”, finaliza Rafael.
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira