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Facebook tenta acalmar funcionários após denúncias de negligência

Zuckerberg passou cerca de 20 minutos falando da pessoa que fez a denúncia, seu depoimento e da recente cobertura da imprensa

(FILES) In this file photo taken on October 05, 2020 this picture shows logos of US social networks Facebook, Instagram and mobile messaging service WhatsApp on the screens of a smartphone and a tablet in Toulouse, southwestern France. – Facebook on October 8, 2021 said some users were having problems accessing its services, just days after a massive outage. “We’re aware that some people and businesses are having trouble accessing Facebook products,” a spokesperson told AFP. (Photo by Lionel BONAVENTURE / AFP)

Em uma sessão de perguntas e respostas com funcionários na semana passada, Mark Zuckerberg, presidente executivo do Facebook, foi questionado a respeito de Frances Haugen, ex-gerente de produto que denunciou a empresa e prestou depoimento no Congresso sobre os danos causados pela rede social.

Zuckerberg passou cerca de 20 minutos falando da pessoa que fez a denúncia, seu depoimento e da recente cobertura da imprensa, tudo sem mencionar Frances pelo nome, de acordo com uma gravação da reunião a qual o The New York Times teve acesso. Algumas das declarações dela sobre como a plataforma polariza as pessoas, disse ele aos funcionários, eram “muito fáceis de desmascarar”.

Os comentários do Zuckerberg fazem parte de um esforço interno do Facebook para lidar com as consequências das revelações de Frances. Mesmo que os executivos do Facebook tenham questionado publicamente a credibilidade da delatora e dito que as acusações dela eram infundadas, eles têm sido igualmente atuantes com posicionamentos dentro da empresa, enquanto tentam manter a boa vontade de mais de 63 mil trabalhadores e dissipar suas preocupações.

Para contra-atacar as alegações de Frances – que foram respaldadas por pesquisas internas mostrando que os serviços do Facebook prejudicam a autoestima de crianças e impulsionam conteúdos tóxicos -, os executivos organizaram eventos internos ao vivo com funcionários, realizaram sessões de briefing de emergência e enviaram vários memorandos, de acordo com documentos obtidos pela reportagem e entrevistas com cerca de dez atuais e ex-funcionários. Aqueles que continuam na empresa também forneceram informações a respeito de como os trabalhadores devem responder quando “forem questionados em relação aos recentes acontecimentos por amigos e familiares”, de acordo com um memorando.

Conflito

O Facebook agiu rapidamente, já que os funcionários ficaram divididos em relação a Frances, segundo os trabalhadores. Em mensagens internas da semana passada compartilhadas com a reportagem, um trabalhador disse que Frances estava “dizendo coisas que muitas pessoas aqui vêm falando há anos” e que a empresa deveria ouvi-la. Outro chamou o depoimento dela de “incrível” e disse que ela era uma “heroína”.

No entanto, outros disseram que Frances deveria receber uma “ordem de não fazer” ou ser processada por quebrar seu acordo de sigilo com o Facebook. Vários a criticaram dizendo que ela não tinha conhecimento suficiente sobre os temas que mencionou em seu depoimento no Congresso, de acordo com as mensagens vistas pelo The New York Times.

O debate entre os funcionários é a dor de cabeça mais recente do Facebook provocada por Frances, 37 anos, que trabalhou na equipe de desinformação cívica por aproximadamente dois anos antes de deixar o emprego em maio. Durante seu tempo na empresa, Frances reuniu uma coleção de pesquisas internas do Facebook, as quais ela já distribuiu para imprensa, legisladores e reguladores para provar que a rede social sabia dos vários efeitos nocivos que estava causando.

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Suas revelações geraram uma tempestade de críticas, levando o Facebook a pausar o desenvolvimento do Instagram Kids, versão do app para crianças. Além disso, a diretora global de segurança da empresa, Antigone Davis, foi duramente questionada durante uma audiência no Congresso sobre o assunto.

Depois que Frances revelou sua identidade, ela disse ao Congresso que o Facebook estava deliberadamente mantendo as pessoas – inclusive as crianças – presas a seus serviços. Muitos legisladores agradeceram por ela ter disponibilizado as provas.

Em uma declaração no domingo, Andy Stone, porta-voz do Facebook, disse: “Tendo em vista que muito do que foi relatado sobre o Facebook está errado, achamos que é importante fornecer os fatos aos nossos funcionários”.

Frances não quis se pronunciar a respeito dos comentários de Zuckerberg ou das discussões internas, mas disse em um comunicado que fez a denúncia em parte por causa do que chamou de “falta de funcionários” nas equipes que trabalharam no setor de desinformação e proteção durante o período das eleições americanas. Ela disse que seus ex-colegas no Facebook “merecem uma equipe que corresponda à enorme magnitude do trabalho que estão desenvolvendo”.

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No decorrer dos anos, os funcionários do Facebook têm se tornado cada vez mais francos. Em junho de 2020, por exemplo, centenas de trabalhadores organizaram uma greve para protestar contra a falta de ação de seus patrões em relação às polêmicas postagens do ex-presidente Donald Trump publicadas na plataforma.

Essas divergências, junto com as questões que o Facebook tem enfrentado ao espalhar informações equivocadas e discurso de ódio, desgastaram a imagem da empresa, o que pode dificultar o recrutamento de novos funcionários.

Então, quando Frances revelou sua identidade e disse que o Facebook colocava “os lucros acima da segurança”, os executivos entraram em ação. Na semana passada, vários vice-presidentes da empresa realizaram eventos internos ao vivo para dar aos funcionários mais informações sobre como as diferentes partes da empresa operam, de acordo com um memorando obtido pela reportagem.

As sessões contaram com a participação de executivos como Guy Rosen, vice-presidente de integridade; Ronan Bradley, vice-presidente de análise e pesquisa; Monika Bickert, vice-presidente de política de conteúdo; e Pratiti Raychoudhury, vice-presidente e chefe de pesquisa, disse o memorando. Cada um falou sobre temas como: o que a empresa entende por polarização, mudanças no algoritmo do feed de notícias e como os executivos estavam mantendo a plataforma segura.

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Os executivos também distribuíram uma lista com pontos de discussão para que os trabalhadores soubessem o que dizer se amigos e familiares lhes perguntassem sobre os “eventos recentes”. O The New York Times teve acesso a uma cópia da lista que incluía uma negação de que o Facebook colocasse o lucro e o crescimento acima da segurança das pessoas e como a empresa tem solicitado regulamentações do governo.

Respostas

Na rotineira sessão de perguntas e respostas programada entre Zuckerberg e os funcionários, que ocorreu na quinta-feira, 7, ele defendeu o Facebook e contestou as alegações de Frances, de acordo com a gravação da reunião. “Nós nos preocupamos profundamente com questões como segurança, bem-estar e saúde mental”, disse ele a certa altura. “Então, quando você vê a cobertura da imprensa que apenas deturpa nosso trabalho e tira isso do contexto e, em seguida, usa isso para contar histórias que são falsas a respeito de nossas motivações, é realmente difícil e desanimador de se ver.”

Entre as perguntas a respeito de uma paralisação total do Facebook na segunda-feira da semana passada, quando todos os aplicativos da empresa ficaram inacessíveis em todo o mundo por mais de cinco horas, e questões relacionadas à certificação de trabalho para funcionários estrangeiros, Zuckerberg também argumentou que o Facebook gastou muito mais em pesquisa e segurança do que empresas maiores, como Google, Apple e Microsoft.

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Ele garantiu aos funcionários que o Facebook acabaria saindo dessa melhor. “O caminho a longo prazo não é fácil, certo? Não é algo como uma linha reta”, disse Zuckerberg. “Vocês sabem, às vezes a gente apanha.”

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Fora da reunião, os funcionários tiveram discussões furiosas sobre Frances e suas alegações. Alguns argumentaram que o Facebook deveria convidá-la para falar em uma reunião para toda a empresa, de acordo com as mensagens vistas pela reportagem. Um deles disse que o depoimento dela foi um “alerta” para o Facebook, que parecia muito atrasado.

Mas outros trabalhadores questionaram as motivações de Frances, sua formação e suas credenciais. Em uma mensagem interna, um funcionário disse que ela era “ignorante”. Alguns disseram que ela não tinha conhecimento técnico suficiente.

“Ela não entendia o básico de como as pilhas funcionavam”, escreveu um engenheiro do Facebook, referindo-se a um termo usado pela equipe de engenharia para descrever como os dados são estruturados na programação de computadores. Ele disse que todo o depoimento dela deveria ser desqualificado.

Outros disseram que Frances e a cobertura da imprensa deturpavam o tipo de trabalho que eles realizavam no Facebook. Em duas postagens em um blog público na semana passada, Veronika Belokhvostova, diretora do Facebook que supervisiona o setor de ciência de dados, reuniu depoimentos de colegas para chamar a atenção para o quanto eles tinham avançado em segurança, linguagem e outras questões nos últimos anos.

Alguns funcionários também especularam que uma das motivações para Frances vazar os documentos foi porque ela não tinha sido autorizada a trabalhar remotamente de Porto Rico, lugar para onde se mudou durante a pandemia.

As discussões se tornaram tão intensas que o departamento de comunicações internas do Facebook divulgou uma diretiva na semana passada para que os trabalhadores não desrespeitassem Frances, de acordo com um memorando visto pelo The New York Times.

“Estamos cada vez ouvindo falar de solicitações de repórteres aos funcionários para fazer comentários a respeito de Frances Haugen e os sentimentos das pessoas em relação a ela”, disse Andrea Saul, diretora de políticas de comunicações, em um memorando ao qual a reportagem teve acesso. “Recebemos funcionários que perguntaram especificamente se podem defender a empresa referindo-se às experiências que tiveram com ela. POR FAVOR, NÃO SE ENVOLVAM nessas conversas”.

“Desrespeitá-la pessoalmente não é o certo, não está permitido e não é quem somos como empresa”, escreveu Andrea. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Estadão Conteúdo








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