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Eleição dificulta combate à inflação, dizem economistas

Há, ainda, o temor de reflexos sobre a taxa de câmbio -e a inflação- que podem ser causados por incertezas políticas e ruídos na área fiscal

Por FolhaPress 26/01/2022 1h35
Foto: Agência Brasil

Leonardo Vieceli

Uma combinação de ameaças ganha força e deve dificultar o combate à inflação no Brasil neste ano eleitoral, avaliam economistas. Os riscos têm origens distintas: envolvem desde a elevação dos preços do petróleo no mercado internacional, que impacta os combustíveis no país, até os danos causados pela estiagem na produção de alimentos em estados das regiões Sul e Centro-Oeste.

Há, ainda, o temor de reflexos sobre a taxa de câmbio -e a inflação- que podem ser causados por incertezas políticas e ruídos na área fiscal. Diante desse contexto, analistas começam a enxergar a possibilidade de o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) ficar ainda mais distante da meta perseguida pelo BC (Banco Central) em 2022.
Neste ano, o teto da meta de inflação é de 5%. O mercado financeiro, porém, já espera um IPCA maior.

A mediana das projeções para o indicador subiu de 5,09% para 5,15%, conforme a edição mais recente do relatório semanal Focus, divulgada na segunda-feira (24) pelo BC. “Não se trata de uma inflação puramente de demanda. Há uma grande pressão de custos sobre preços importantes, como os de energia e alimentos”, afirma Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento).

Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, tem opinião semelhante. “A gente começa a vislumbrar um IPCA mais próximo de 6%”, diz. Por ora, ela projeta inflação de 5,5% no acumulado de 2022, mas menciona que o viés é de alta nessa estimativa.

Combustível mais caro

O avanço do petróleo no mercado internacional causa pressão inflacionária no Brasil porque é levado em consideração pela Petrobras na hora de definir os preços dos combustíveis nas refinarias.

Na semana passada, a commodity atingiu o maior nível desde 2014. Analistas associam a escalada do petróleo a tensões geopolíticas em regiões produtoras e à decisão dos principais países fornecedores de não elevarem a oferta, apesar da demanda crescente.

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Pressionado pela carestia de itens como gasolina e luz, o governo Jair Bolsonaro (PL) estuda uma PEC (proposta de emenda à Constituição) para autorizar a redução temporária de tributos sobre combustíveis e energia elétrica, em uma tentativa de aliviar o bolso dos consumidores no ano eleitoral.

A proposta preocupa parte dos analistas em razão do possível reflexo nas contas públicas. Caso as alíquotas de PIS/Cofins sobre gasolina, diesel e etanol fossem zeradas, o impacto na arrecadação ficaria na faixa de R$ 50 bilhões ao ano, segundo fontes do governo informaram à Folha.

Na visão de analistas, mesmo com o eventual alívio nos preços para os consumidores, a perda de receitas também provocaria uma espécie de efeito colateral sobre a inflação.

Contas públicas em risco

É que um novo ruído fiscal tende a repercutir de maneira negativa no mercado financeiro e pode pressionar ainda mais o dólar, gerando reflexos sobre bens e serviços que dependem de insumos importados, por exemplo. “O projeto é como dar com uma das mãos e tirar com a outra. A leitura do mercado é de mais incertezas fiscais. Isso pode elevar riscos e desvalorizar ainda mais o real frente ao dólar”, relata Camila Abdelmalack, da Veedha Investimentos.

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Como mostrou reportagem da Folha de S.Paulo, o temor de que haja um pico de inflação no terceiro trimestre de 2022, no auge da campanha eleitoral, deflagrou a decisão de Bolsonaro de patrocinar a PEC do corte de tributos sobre os combustíveis. “O cenário para a inflação continua preocupante”, diz Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating.

“A festa fiscal potencializa riscos e, consequentemente, a inflação. Além disso, também há questões como o aumento dos preços do petróleo e a seca no Sul”, completa.

Em 2021, o IPCA teve alta de 10,06%, a maior desde 2015, quando a economia brasileira atravessava recessão no governo Dilma Rousseff (PT). Com o resultado, o indicador oficial de inflação estourou com folga a meta perseguida pelo BC no ano passado, cujo teto era de 5,25%.

Em 2022, a expectativa do mercado é de uma desaceleração do IPCA. Ou seja, o índice tende a apresentar um aumento menor do que em 2021, mas deve continuar em patamar desconfortável, acima da meta.

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Seca ameaça alimentos Na largada de 2022, a estiagem que castiga lavouras dos estados da região Sul e do Mato Grosso do Sul também preocupa economistas devido aos possíveis reflexos sobre a oferta de produtos agropecuários e seus respectivos preços.

A quebra de safra, segundo analistas, pode pressionar itens como milho, soja e frutas. Pastagens também já foram danificadas pela escassez de chuva, afetando a produção de leite e carne. “Os alimentos não devem ter uma desaceleração tão rápida”, analisa Nicola Tingas, da Acrefi.

Para tentar frear a inflação, o BC vem subindo a taxa básica de juros. A Selic está em 9,25% ao ano e deve encerrar 2022 em 11,75%, de acordo com a mediana do boletim Focus. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, avaliou neste mês que a inflação no Brasil é impactada pela alta nos preços de petróleo e por questões climáticas.

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Segundo ele, esses fatores já provocaram um pequeno crescimento das expectativas do mercado para o IPCA. No entanto, Campos Neto sinalizou que a inflação acumulada em 12 meses pode ter atingido seu pico, iniciando movimento de perda de fôlego. “Será mais um ano difícil em termos de inflação, por mais que a expectativa seja de um avanço menor do que em 2021”, afirma a economista Ana Cláudia Além, professora do Ibmec-RJ.

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“A pressão das commodities como o petróleo continua, e o dólar segue caro no Brasil. O câmbio é impactado por incertezas, que costumam não faltar nos anos eleitorais. E ainda há a quebra de safra”, acrescenta.
Alexandre Manoel, economista-chefe da AZ Quest, projeta inflação de 5,4% ao final do ano, mas não descarta um acumulado maior. “Tem riscos para cima e para baixo, mas a probabilidade maior hoje é para cima”, diz.

Na visão do analista, as principais ameaças para o controle dos preços vêm do exterior no momento, com a pressão de custos gerada por commodities como o petróleo. “Nossa aposta é de que, neste primeiro quadrimestre, vamos ter uma inflação rondando ainda os 10%”, estima.








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