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Economia

Economistas apontam juros altos como vilões da dívida pública no Brasil

Especialistas contestam tese de que gastos públicos elevam juros e defendem corte de taxas para reduzir endividamento, priorizando proteção de serviços essenciais.

Redação Jornal de Brasília

12/05/2026 8h33

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Foto: Reprodução

Economistas brasileiras questionam a narrativa predominante de que os gastos públicos são o principal fator para a elevação dos juros e da dívida pública no Brasil. Em vez disso, elas destacam que os juros altos pagos pela União, que consumiram R$ 1,08 trilhão nos últimos 12 meses até março, representando 8,35% do PIB, são os verdadeiros responsáveis pela pressão sobre o endividamento do Estado.

De acordo com dados do Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Central cresceu 1,4 ponto percentual em 2026, atingindo 80,1% do PIB, ou R$ 10,4 trilhões, com o aumento resultando principalmente da incorporação de juros nominais, que contribuíram com 2,4 pontos percentuais.

Juliane Furno, professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutora pela Unicamp, enfatiza que o déficit primário, relacionado a pagamentos de funcionários e serviços à população, tem impacto mínimo na dívida em comparação aos juros. ‘É uma hipocrisia apontar que os juros altos respondem à elevação da dívida, porque são os juros que a causam’, afirma ela.

Maria Mello de Malta, professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora pela UFF, critica o modelo macroeconômico atual por ser uma decisão política que favorece o setor financeiro em detrimento do crescimento econômico. ‘É condenar 210 milhões de pessoas a uma vida cara e endividada porque você quer beneficiar um setor que emprega tão pouco’, declara. Ela argumenta que o Estado não pode ser comparado a uma família ou empresa, pois emite sua própria moeda e define taxas de juros, e defende o corte de juros como forma de reduzir a dívida, destacando o efeito multiplicador dos gastos públicos na economia.

Maria Lourdes Mollo, professora de economia da Universidade de Brasília (UnB) e doutora pela Universidade de Paris, reforça que os juros altos aumentam a dívida há muito tempo e custam socialmente, beneficiando o mercado financeiro enquanto prejudicam a população vulnerável. ‘Quem está pagando esses juros altos são as pessoas que precisam do dinheiro para comer, morar, cuidar da sua saúde’, diz. Para ela, a inflação deve ser controlada estimulando a oferta produtiva, mas os juros elevados inibem o crescimento da capacidade econômica, agravando o problema a médio e longo prazo.

No contexto do endividamento das famílias, que motivou o lançamento do Novo Desenrola, as economistas apontam que o Brasil tem a segunda taxa de juros reais mais alta do mundo, atrás apenas da Rússia. Elas divergem da visão do Banco Central, expressa em atas do Copom, que associa a necessidade de juros altos ao esmorecimento da disciplina fiscal e incertezas sobre a estabilização da dívida. O BC estima que cada 1 ponto percentual de aumento na Selic eleva a dívida em mais de R$ 50 bilhões.

As especialistas defendem a proteção dos gastos primários, que financiam saúde, educação, segurança e aposentadorias, argumentando que cortes nesses áreas prejudicariam os mais pobres. Furno nota que o Estado brasileiro gasta mais que outros países devido a escolhas constitucionais por serviços universais. Malta questiona a tese de privatizações e cortes de gastos como soluções, vendo-a como visão ideológica que privilegia o lucro privado, pois privatizações eliminam receitas estatais, como no caso da Eletrobras.

Para reduzir a dívida sem comprometer o crescimento, as economistas propõem priorizar o corte de juros e investimentos na oferta de bens e serviços, em vez de focar apenas no combate à demanda via política monetária restritiva.

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