Menu
Economia

Dólar tem leve queda na contramão do exterior, mas segue acima de R$ 5,20

Pela manhã, quando a maioria das divisas emergentes se apreciava, o dólar furou o piso de R$ 5,20, registrando mínima de R$ 5,1975

Redação Jornal de Brasília

29/09/2026 18h21

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

São Paulo, 29 – Após trocas de sinal ao longo da tarde, o dólar se firmou em leve baixa frente ao real nas últimas horas do pregão, em sintonia com a desaceleração da alta da moeda norte-americana e do retorno dos Treasuries de longo prazo, na esteira de declarações mais amenas de um dirigente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).

Apesar da expectativa pela realização do primeiro turno da eleição presidencial no próximo domingo, 4, a dinâmica da formação da taxa de câmbio parece ter sido ditada pelo exterior.

Pela manhã, quando a maioria das divisas emergentes se apreciava, o dólar furou o piso de R$ 5,20, registrando mínima de R$ 5,1975. A virada para o campo positivo no início da tarde veio em meio às máximas da moeda lá fora, com pico de R$ 5,2416

Com o alívio na reta final dos negócios, o dólar à vista terminou a sessão em baixa de 0,18%, a R$ 5,2170. A moeda norte-americana acumula ganhos de 0,71% em setembro, depois de valorização de 2,16% em agosto.

O real tem, contudo, perdas bem inferiores às de outras divisas latino-americanas no mês, o que é atribuído em grande parte à percepção de aumento das chances de vitória da oposição na disputa pelo Palácio do Planalto e, por tabela, de mudança da política fiscal.

O gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, observa que, além da questão eleitoral, há movimentos técnicos típicos de fim de mês que adicionam volatilidade ao câmbio, como a rolagem de contratos no segmento futuro e a preparação para a disputa, na quarta-feira, em torno da última formação da taxa Ptax de setembro.

“Estamos tentando nos descolar da tendência do dólar lá fora, mas sem muita convicção. O mercado já parece mais cauteloso à espera da eleição”, afirma Galhardo, que vê possibilidade de apreciação do real caso o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, termine o primeiro turno poucos pontos porcentuais à frente de Flávio Bolsonaro. “Podemos ver o dólar se acomodar temporariamente nos R$ 5,10. Se Flávio for eleito, a taxa de câmbio deve ir para R$ 4,90, com um piso em R$ 4,50.”

Pela manhã, pesquisa Atlas/Bloomberg trouxe Lula com 45,3% contra 42,2% de Flávio em simulação de primeiro turno, o que configura um empate técnico. Já em um eventual segundo turno, o candidato do PL tem 47,7% das intenções de voto, ao passo que o petista aparece com 47,6%.

Lá fora, o índice DXY – referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis divisas fortes – subia cerca de 0,21% por volta das 17h, aos 101,410 pontos, após máxima aos 101,612 pontos. As taxas dos Treasuries longos reduziram o ritmo de alta, e o retorno da T-note de 2 anos virou para o negativo no fim da tarde, na esteira de comentários do presidente do Federal Reserve (Fed) de Nova York, John Willians. Ele que afirmou que “não há urgência” em apertar a política monetária, embora veja mais uma alta de juros neste ano.

Os indicadores norte-americanos divulgados pela manhã – abertura de postos de trabalho (relatório Jolts) em agosto e o índice de confiança do consumidor em setembro, pelo Conference Board – vieram abaixo das expectativas. Na quarta, sai o índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) de agosto, medida de inflação preferida pelo Fed. Na sexta-feira, 2, é divulgado o relatório de emprego (payroll) de setembro.

“A leitura do Jolts veio um pouco abaixo das expectativas, mas o DXY não reagiu muito. O mercado aguarda indicadores de inflação e de atividade nos próximos dias, que têm potencial maior de movimentar as curvas de juros e o dólar”, afirma o especialista em câmbio Nicolas Gomes, da Manchester Investimentos.

Bolsa

Depois de começar o dia com tom mais negativo, o Ibovespa se firmou em alta durante a tarde e interrompeu a sequência de quatro quedas seguidas, descolado do desempenho das bolsas norte-americanas e amparado pelo posicionamento dos investidores às vésperas da eleição. O setor de consumo foi destaque nas horas finais da sessão, após os dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrar um aquecimento do mercado de trabalho.

O principal índice da B3 subiu 0,46%, aos 183.827,59 pontos, muito perto da máxima de 183.951,05 pontos pouco antes do fechamento. O índice chega ao penúltimo pregão de setembro com alta acumulada de 3,61% no mês. No ano, avança 14,1%. O giro financeiro de hoje somou R$ 20 bilhões.

O Caged mostrou uma criação de 165.827 postos de trabalho em agosto, acima do projetado. O dado aponta para um aquecimento da economia, tal qual a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), que mostrou uma taxa de desempenho em linha com as estimativas, mas com a população ocupada no maior nível da série histórica.

Uma economia mais forte é, de um lado, negativo do ponto de vista de política monetária, já que enseja uma taxa de juros mais alta para controle inflacionário. Ao mesmo tempo, as empresas cíclicas, que sofrem com o juro elevado, encontram potencial alívio em termos de resultado financeiro. O Índice de Consumo da B3 (ICON) subiu 0,95%, enquanto o Índice Imobiliário (IMOB) teve alta de 1,55%. Quem limitou a alta do Ibovespa foi a Vale, em queda acima de 2%.

“O mercado melhorou depois que foi divulgado o Caged, acima do esperado, e isso fez com que as empresas ligadas ao setor de consumo melhorassem”, afirma Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora. “Já as empresas exportadoras de commodities estão negociando em baixa, com destaque para a siderurgia.”

No pano de fundo, as eleições seguem como grande ponto de atenção, especialmente de olho nas últimas pesquisas eleitorais que serão divulgadas nos próximos dias. A expectativa de um avanço da chapa à direita, que poderia representar, na visão do mercado financeiro, uma maior austeridade fiscal, ainda motiva um reposicionamento dos investidores.

“Se, por um lado, o Caged mostra a economia bastante aquecida e queremos, de certa forma, que ela desaqueça para diminuir a taxa de juros, por outro lado setores cíclicos que são dependentes de emprego podem se beneficiar. Mas acredito que realmente os investidores estejam olhando o ‘trade’ eleitoral, com a possibilidade de uma troca de governo”, diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos.

Juros

Os juros futuros negociados na B3 aceleraram o ritmo de queda ao longo da tarde e fecharam em baixa firme nesta terça-feira, 29. A melhora ignorou dados fortes do mercado de trabalho formal em agosto – que, segundo agentes, parecem ter sido vazados de forma antecipada mais uma vez – e seguiu a moderação da curva dos Treasuries, após declarações mais ‘dovish’ de um dirigente do Federal Reserve (Fed) conterem a disparada dos rendimentos mais distantes, enquanto os mais curtos passaram a recuar.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 13,559%, no ajuste da véspera, a 13,550%. O DI para janeiro de 2029 recuou a mínima intradia de 13,755%, vindo de 13,902% no ajuste, e o para janeiro de 2031 anotou baixa de 14,048% a 13,940%.

Em igual horário, o juro da T-Note de dois anos anotava queda de 4,924% a 4,880%. A taxa da T-Note de dez anos operava estável em 5,244%, e a do T-Bond de 30 anos avançava de 5,552% a 5,568%. A renda fixa norte-americana passou por forte estresse mais cedo, com renovação de máximas em mais de duas décadas nos vencimentos longos. Essas taxas se afastaram dos picos e as curtas registraram mínimas, contudo, após discurso do presidente do Fed de Nova York, John Williams.

Destoando do tom mais conservador das últimas comunicações do BC americano, Williams afirmou que, se a economia dos EUA evoluir de forma consistente com seu cenário-base, uma nova elevação dos juros pode ser apropriada mais adiante neste ano. Ao mesmo tempo, ressaltou que “não há urgência” para um novo aperto monetário.

Depois das falas, o avanço dos títulos americanos de 10 anos diminuiu de 6 pontos para cerca de 1 a 2 pontos, notou um gestor de renda fixa de uma grande asset, o que, em sua visão, foi suficiente para acalmar o mercado local de juros futuros, até nos trechos longos. Para este profissional, o comportamento dos DIs hoje foi mais ditado pelo cenário externo, sem apoio de aumento da tomada de risco de investidores às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial.

Para o estrategista-chefe da Avenue, William Castro Alves, dados mais fracos da maior economia do mundo podem abrir espaço para uma realização ou uma suavização do movimento dos Treasuries ao longo de setembro. No mês, observa Alves, a abertura significativa da curva de juros americana foi um dos principais destaques, refletindo tanto temores inflacionários do conflito no Oriente Médio quanto um nível de atividade mais forte do que o esperado.

Nesta terça, o contrato do petróleo tipo Brent para dezembro, referência para a Petrobras, encerrou com queda de 1,71%, a US$ 96,16 o barril, diante de sinais de retomada das exportações pelo oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita e da recuperação de embarques no Golfo. Ainda não há, contudo, perspectiva de um acordo entre EUA e Irã para encerrar o confronto.

Por aqui, dados do mercado de trabalho apontaram na mesma direção, indicando que o setor está em equilíbrio, mas ainda em nível resiliente, avalia o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung. A Pnad Contínua ficou em linha com as projeções, ao indicar a taxa de desemprego em 5,3% nos três meses encerrados em agosto. Já o Caged trouxe geração de 165,8 mil vagas no mercado formal no último mês, bastante acima do consenso de mercado, de 93,5 mil postos.

Apesar do dado sinalizar um cenário mais desafiador para o Banco Central continuar cortando a Selic, a curva de juros não esboçou reação aos números, em meio a relatos de que houve novo vazamento antecipado de informações.

Para Sung, o mercado de trabalho aquecido, os riscos de alta para a inflação, as expectativas inflacionárias desancoradas e a possibilidade de que haja mais volatilidade do câmbio nos últimos dois meses do ano indicam que o BC não deve mais reduzir o juro básico em 2026. “Teremos um fim de ano estressado, em que será difícil o BC ter perspectiva de cortar os juros”, disse.

Estadão Conteúdo

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado