São Paulo, 23 – Após rondar a estabilidade pela manhã desta sexta-feira, 23, e no início da tarde, o dólar à vista se firmou em baixa nas duas últimas horas do pregão e rompeu o piso de R$ 5,00, encerrando nos menores níveis desde 9 de outubro. O real exibiu o melhor desempenho entre as principais moedas globais, em dia marcado por sinal predominante de alta da moeda americana no exterior.
Operadores relatam a possibilidade de entrada de fluxo estrangeiro para ativos locais e desmontagem parcial de ‘hedge cambial’ no último pregão antes da realização do segundo turno, diante da perspectiva de que Flávio Bolsonaro vença a corrida presidencial, de acordo com levantamentos informais.
Pesquisa Datafolha divulgada na quinta à noite trouxe Flávio e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva empatados em votos válidos. Levantamento Ipespe/Abrapel, que saiu pela manhã, mostrou o senador numericamente à frente tanto em votos totais (48% contra 47%) quanto em votos válidos (50,5% contra 49,5%).
Com mínima de R$ 4,9891, na reta final dos negócios, o dólar à vista terminou o pregão em queda de 0,92%, a R$ 4,9931 – menor valor de fechamento desde o dia 9 (R$ 4,9851), quando o mercado ainda vivia a euforia provocada pela dianteira surpreendente de Flávio no primeiro turno. A moeda americana encerra a semana com perdas de 1,58% frente ao real, após alta de 1,77% na semana anterior.
O diretor de Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, observa que, apesar do quadro de disputa acirrada desenhado pelas pesquisas, as apostas entre investidores em vitória de Flávio são amplamente majoritárias.
“É natural que as pessoas se posicionem na reta final para um cenário mais provável”, afirma Weigt, lembrando que as expectativas de mudança da política fiscal estão depositadas no candidato da oposição. “Eu vejo um quadro bem assimétrico para o dólar no curto prazo. Pode cair um pouco com a vitória do Flávio e subir muito se o Lula ganhar.”
No exterior, o dólar subiu em relação a outras moedas fortes, após dados acima das expectativas nos Estados Unidos reforçarem a robustez da atividade. Por volta das 17h, o índice DXY avançava 0,19%, aos 101,799 pontos As cotações do petróleo voltaram a subir com o aumento das tensões no Oriente Médio. O contrato do Brent para dezembro encerrou em alta de 3,13%, a US$ 116,72 o barril, no maior nível desde abril.
O estrategista de mercados emergentes do Wells Fargo, Álvaro Vivanco, tem como cenário-base a vitória de Flávio, ao ver apenas 33% de chance de reeleição de Lula, e mantém posições “vendidas” em dólar contra o real. Vivanco tem como alvo um dólar a R$ 4,75 caso o candidato do PL conquiste o Palácio do Planalto. Já a recondução de Lula levaria a taxa de câmbio para R$ 5,30.
“É importante ressaltar que, em caso de uma vitória surpreendente de Lula, recomendaríamos fortemente posições compradas em real. Por exemplo, qualquer pico acima de R$ 5,30 na segunda-feira apresentaria uma oportunidade para aumentar a posição favorável ao real”, afirma o estrategista.
Para Vivanco, os fundamentos das contas externas e o ‘carry’ vão seguir dando suporte à moeda brasileira mesmo em um novo governo Lula. “Na verdade, esperamos sinalizações pró-mercado por parte de Lula, especialmente sobre a contenção de gastos, em caso de uma vitória surpreendente neste fim de semana”, afirma.
Bolsa
Após movimentos contidos pela manhã desta sexta-feira, 23, o Ibovespa se firmou alta e renovou máxima na segunda etapa do pregão. Segundo operadores, houve uma rodada final de alocações antes das eleições mirando uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL), visto pela maioria do mercado financeiro como mais favorável a um ajuste nas contas públicas.
As pesquisas eleitorais seguiram mostrando reação da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas a cautela que dominou as mesas de negociação na semana e pela manhã acabou sendo substituída pelo “medo de ficar de fora” caso haja um novo rali após o segundo turno.
Assim, o Ibovespa subiu 0,47%, aos 205.082,56 pontos, com giro financeiro de R$ 30,7 bilhões. Na semana dominada por cautela com eleição, cedeu 0,17%, mas acumula avanço de 10,06% em outubro e de 27,28% em 2026.
O especialista em mercado financeiro do grupo Axia, Felipe Sant’ Anna, afirma que operadores estavam “montando posição final acreditando na vitória do Flávio, em um movimento coordenado pela ideia de que ninguém quer ficar de fora”. Segundo ele, “quanto mais a Bolsa sobe, mais são acionados gatilhos de compra”.
O Termômetro Broadcast Bolsa aponta que o otimismo com o Ibovespa ganhou força ao longo de outubro e atingiu o maior nível da sequência recente. No levantamento desta sexta, 66,67% dos participantes esperam alta do índice na próxima semana, após o segundo turno, contra 50% na pesquisa anterior.
Destrinchando algumas pesquisas eleitorais, o Datafolha mostrou Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) empatados com 50% dos votos válidos, que excluem nulos e brancos. Já a pesquisa Ipespe/Abrapel mostra Flávio com 50,5% dos votos válidos para o segundo turno, contra 49,5% do atual presidente. Por fim, Vox Brasil aponta Lula com 50,6% das intenções de voto e o senador aparece com 49,4%.
O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, avalia que “aparentemente o mercado está dando maior peso a pesquisas internas que mostram uma vitória da oposição no domingo”. Investidores também aguardam o debate entre os candidatos, à noite, na TV Globo.
O advisor sênior da Blue3 Investimentos, Rafael Stephano, destaca um ânimo generalizado na Bolsa no final da tarde. “Todos os setores em alta, mas os mais fortes são setor imobiliário e setor de consumo, refletindo uma animada na tomada de juros por parte dos investidores.”
A tese do mercado é de que a eleição de Flávio poderia levar a uma política fiscal mais austera, o que derrubaria os juros futuros. Com o trade eleitoral, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) abaixo do esperado ficou em segundo plano.
Entre as blue chips, Petrobras e Vale subiram, seguindo os ganhos de 3% do petróleo Brent e de 0,6% do minério de ferro em Dalian. Entre os bancos, apenas Santander Brasil Unit caiu 0,79% Até Bradesco abandonou a queda conforme os operadores absorveram a frustração com o balanço do terceiro trimestre de 2026, e os papéis subiram 0,84% (ON) e 0,74% (PN).
Juros
Em sintonia com a melhora dos demais ativos domésticos, os juros futuros apagaram a alta observada até o início da tarde desta sexta-feira, 23, e fecharam no terreno negativo, se beneficiando dos últimos efeitos do trade eleitoral antes do segundo turno das eleições presidenciais. Embora as pesquisas mostrem uma disputa voto a voto entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a visão de que a vitória da oposição ainda seria o cenário mais provável levou a um achatamento da curva a termo, que também contou com o suporte de dados de inflação abaixo do previsto.
Na leitura de parte do mercado, a alternância de poder em 2027 deve trazer um ajuste fiscal mais austero, o que permite queda adicional dos juros à frente. Ainda assim, as oscilações das taxas foram estreitas às vésperas da decisão nas urnas, com players evitando apostas direcionais. A expectativa é que, com um desfecho dentro do esperado, haja nova queima de prêmios na segunda-feira, ainda que em intensidade menor do que a vista após o primeiro turno.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 recuou de 13,496%, no ajuste antecedente, a 13,475%. O DI para janeiro de 2029 cedeu a 12,595%, vindo de 12,664% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 caiu de 12,665% a 12,575%. No cômputo da semana, a curva perdeu inclinação, com estabilidade na ponta curta e recuo de 9 pontos-base e 14 pontos-base no miolo e na ponta longa, respectivamente.
Segundo Felipe Castello Branco, sócio e private banker da Blackbird Investimentos, a aproximação de Lula em relação a Flávio nas pesquisas levou o mercado a buscar mais proteção, mas boa parte dos agentes acredita na vitória da oposição neste domingo, o que tem se refletido na tendência da curva de juros ao longo do mês.
Ele observa que a taxa para janeiro de 2035, mais sensível ao risco político e fiscal, estava perto de 14% antes do primeiro turno, desabou mais de 130 pontos-base depois da liderança de Flávio nas urnas na ocasião e, agora, ronda os 12,7%. “O mercado se pautou muito nos resultados do primeiro turno e de pesquisas eleitorais”, disse, completando que, nesta sexta, parece ter montado posições pensando na próxima semana.
Em pesquisa do Citi que ouviu 73 gestores, o analista cita que mais da metade deles (55%) espera descompressão adicional de 50 a 100 pontos-base no DI de janeiro de 2029 caso Flávio vença o pleito, enquanto 13% vê uma queda de mais de 100 pontos, em magnitude igual à ocorrida depois do primeiro turno.
A Eurasia Group reduziu nesta sexta de 70% para 60% a probabilidade de que a oposição vença, citando uma arrancada de Lula nos últimos dias de campanha e uma tendência de estreitamento nas pesquisas de intenção de voto.
Embora tenha ficado em segundo plano diante da proximidade com o desfecho das eleições, o IPCA-15 aquém do previsto também deu alívio à curva, sobretudo nos trechos mais curtos. O dado avançou 0,32% em outubro, abaixo do piso do Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de 0,37%, com surpresa vinda da queda nas passagens aéreas.
“O resultado mais baixo melhora a leitura do mês, mas mantém o diagnóstico de uma inflação que deve se deteriorar no último trimestre, com choques de oferta altistas se somando a componentes sensíveis à demanda ainda bem resilientes”, afirmou Gabriel Pestana, economista da Genial. “Seguimos avaliando que o Banco Central encontrará dificuldades em justificar o aumento do ritmo de corte de juros baseado na dinâmica da inflação”, comentou.
Estadão Conteúdo