São Paulo, 20 – O dólar exibiu queda firme nesta quarta-feira, 20, marcada por amplo apetite ao risco no exterior, mas manteve-se acima da linha de R$ 5,00 no fechamento Notícias sobre aumento do fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz e declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sinalizando avanço nas negociações com o Irã derrubaram as cotações do petróleo. Com redução dos temores inflacionários, as taxas dos Treasuries recuaram, o que abriu espaço para a recuperação de divisas emergentes.
Afora uma alta pontual pela manhã, quando registrou máxima de R$ 5,0576, o dólar à vista operou em queda no restante do dia. Com mínima de R$ 4,9999, na última hora de negócios, fechou em baixa de 0,74%, a R$ 5,0034, levando as perdas na semana a 1,27%. A moeda norte-americana ainda avança 1,02% frente ao real no mês, após desvalorização de 4,36% em abril. No ano, recua 8,85%.
“Moedas emergentes se valorizam hoje com um movimento de apetite ao risco. Temos notícias de passagem de navios pelo Estreito de Ormuz e alívio na curva de juros nos Estados Unidos”, afirma o gestor de portfólio Marcelo Bacelar, da Azimut Brasil Wealth Management. “Trump está em um momento difícil, com a proximidade dos “midterms” (eleições legislativas de meio de mandato nos EUA) e, apesar de às vezes falar mais grosso, vai buscar um jeito de terminar a guerra.”
No início da tarde, em conversas com repórteres, Trump afirmou que os EUA estavam “nos estágios finais” de negociação com o Irã, embora tenha voltado a reiterar que poderia retomar os ataques ao território iraniano se Teerã não agisse “de forma inteligente”. As cotações do petróleo caíram quase 6% com as falas de Trump e notícias sobre o fluxo de petroleiros por Ormuz O contrato do Brent para julho, referência de preços para a Petrobras, fechou em baixa de 5,62%, a US$ 105,02 o barril.
Bacelar, da Azimut, ressalta que a volta do dólar para a casa de R$ 5,00 nos últimos dias, após a taxa de câmbio ter operado abaixo de R$ 4,90 no início de maio, é resultado tanto do estresse nas curvas globais de juros quando aumento do risco político local com a desidratação da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na esteira do Flávio Day 2.0.
“As curvas de juros ganharam inclinação, com o mercado até precificando uma alta das taxas nos EUA, por conta do petróleo elevado. Mas a parte política local fez preço também, principalmente no dia da divulgação do áudio de Flávio Bolsonaro”, afirma Bacelar, em referência à mensagem enviada pelo senador ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro com pedido de recursos para uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro
O gestor da Azimut vê um quadro menos propício a uma nova rodada de apreciação do real, com o aumento da volatilidade em período eleitoral. Ele observa também que há um retorno do fluxo para as ações de empresas de tecnologia nos EUA, depois de um período de aporte mais forte em commodities que beneficiou muito os ativos brasileiros.
“Meu viés é mais neutro para o real. Temos, na margem, um cenário um pouco pior em relação a fluxo. De outro lado, o carrego é ainda muito elevado e tem papel fundamental em dar sustentação à moeda, porque é muito caro apostar contra”, afirma o gestor da Azimut.
À tarde, o Banco Central informou que o fluxo cambial total na semana passada (de 11 a 15) foi positivo em US$ 3,027 bilhões, graças à entrada líquida de US$ 3,334 bilhões pelo canal financeiro. Em maio, até o último dia 15, o saldo total é positivo em US$ 1,588 bilhão.
O economista Sérgio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, observa que, a despeito do fluxo cambial positivo robusto na semana passada, o real depreciou mais de 3% no período. A moeda brasileira registrou, ao lado do florim húngaro, o pior desempenho entre divisas emergentes, em razão do aumento do risco político local. “A magnitude da desvalorização semanal da moeda foi a maior desde novembro de 2022”, afirma Goldenstein, em nota.
Bolsa
Após três sessões no vermelho, o Ibovespa encontrou respiro nesta quarta-feira, 20, em que colheu o maior ganho em porcentual desde 8 de abril. O ânimo decorre de relativa descompressão do cenário geopolítico, ante sinais de reabertura parcial do Estreito de Ormuz e de perspectiva renovada quanto a algum entendimento entre EUA e Irã. O índice ganhou impulso ao longo da tarde e encerrou em alta de 1,77%, aos 177.355,73 pontos, apesar da correção de Petrobras (ON -3,85%, na mínima do dia no fechamento, a R$ 49,68; PN -3,23%), em dia de mergulho de quase 6%, no fim da tarde, nos futuros do Brent e do WTI.
Nesta quarta-feira, o giro foi a R$ 28,1 bilhões. Na semana, o Ibovespa passa ao positivo no intervalo (+0,04%), ainda cedendo 5,32% no mês. No ano, avança 10,07%.
Na ponta ganhadora na sessão, CSN Mineração (+10,29%), Cury (+8,53%) e Lojas Renner (+7,77%). No lado oposto, além das duas ações de Petrobras, destaque também para SLC Agrícola (-1,61%) e Prio (-1,00%). Entre as blue chips, Vale ON subiu 1,21% e os ganhos entre os maiores bancos chegaram a 2,70%, em Bradesco PN.
“A bolsa subiu hoje, devolvendo parte das perdas expressivas observadas no pregão de ontem. E a grande expectativa do dia gira em torno dos resultados da Nvidia, que funcionam praticamente como um catalisador global e ajudam a sustentar o movimento positivo dos mercados”, diz Nicolas Gass, estrategista de investimentos e sócio da GT Capital. “Os investidores aguardam com atenção os números trimestrais da gigante dos semicondutores, com expectativa de que a receita avance cerca de 80%, alcançando algo próximo de US$ 80 bilhões. A empresa funciona como um termômetro do apetite por risco, inteligência artificial e tecnologia.”
Em Nova York, no fechamento desta quarta-feira, Dow Jones marcava alta de 1,31%, S&P 500, de 1,08%, e Nasdaq, de 1,54%.
Gass observa também que a ata do Federal Reserve, divulgada no período da tarde, contribuiu para dar fôlego extra ao apetite por risco, impulsionando também o Ibovespa, ao desempenhar o papel de uma espécie de “âncora de curto prazo”. “O mercado já precifica uma probabilidade superior a 40% de uma alta de juros pelo Fed em setembro, e parte relevante da curva já incorpora esse cenário. Isso limita uma abertura adicional de prêmio e abre espaço para realização nas taxas mais longas em sessões de menor aversão ao risco e maior estabilidade”, explica.
No quadro de fundo, ainda pautado pela geopolítica do petróleo, a percepção de que venha a ocorrer “alguma normalização” da passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz animou os investidores, às voltas com preocupações sobre o efeito da alta da commodity sobre a inflação e os juros globais, destaca Matheus Spiess, analista da Empiricus Research. “Houve notícias de que algumas embarcações conseguiram atravessar o estreito sem maiores problemas”, o que resultou em descompressão nos preços dos contratos futuros em Londres e Nova York, nesta quarta-feira
No início da tarde, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que está nos “estágios finais” de negociação com o Irã, em comentários a repórteres feitos a caminho de um evento na Associação da Guarda Costeira. Segundo o grupo de imprensa da Casa Branca, Trump também reiterou ameaças a Teerã, caso um acordo não seja alcançado. “Veremos o que acontece. Ou conseguimos um acordo, ou faremos coisas um pouco desagradáveis; espero que não chegue a isso”, enfatizou.
Juros
Mais uma vez acompanhando o alívio nas cotações do petróleo, que ganharam influência preponderante sobre a curva a termo desde o início do conflito no Oriente Médio, os juros futuros mostraram forte descompressão no pregão desta quarta-feira, 20. O movimento, que já ocorria desde o início do dia com sinais mais positivos sobre negociações entre Estados Unidos e Irã, ganhou algum impulso após o presidente dos Estados Unidos Donald Trump voltar a demonstrar confiança de que a resolução do impasse será rápida.
As taxas curtas passaram a devolver quase 10 pontos-base no meio da tarde, e as intermediárias e longas, cerca de 20 pontos-base, em sincronia com a curva dos Treasuries.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 diminuiu de 14,148% no ajuste anterior a 14,075%. O DI para janeiro de 2029 exibiu firme redução, a 13,955%, vindo de 14,132% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 despencou de 14,285% no ajuste de terça a 14,11%.
O dia já começou em tom positivo nos mercados globais, com devolução dos prêmios de risco acompanhando a diminuição dos temores inflacionários. Isso porque foram veiculadas na imprensa notícias de que o Paquistão trabalha em uma versão final de um acordo de paz entre EUA e Irã, e autoridades paquistanesas estão em viagem rumo ao país persa. A tendência declinante dos Treasuries e do mercado local de renda fixa persistiu em meio a declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, de que as tratativas com Teerã estão em “fase final”.
Além deste pano de fundo, a retomada parcial do fluxo no Estreito de Ormuz, que escoa um quinto da produção mundial de petróleo, fez o contrato do Brent negociado para julho, que serve de referência para a Petrobras, recuar quase 6% na sessão regular, a US$ 105,02 o barril.
“Ainda há muita cautela, mas vimos um certo otimismo nesta quarta, ainda que falte consistência nas informações sobre as negociações”, pondera Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset. “E, novamente, o principal fator que movimentou os preços hoje e na última semana é o ambiente internacional. O externo prevalece e a curva continua bastante atrelada aos preços do petróleo”, observa.
Nas últimas sessões, porém, as dúvidas dos agentes sobre se o choque gerado pelo confronto no Golfo Pérsico seria apenas temporário, ou teria impacto mais duradouro, parecem ter sido dissipadas, afirma Costa. “Os preços estão mais caros e isso passa a ser mais permanente, com impacto nas cadeias produtivas. Teremos uma dinâmica de inflação mais pressionada”, disse.
Nos EUA, a ata da última reunião do Federal Reserve (Fed) apontou que o conflito no Oriente Médio tem ampliado as incertezas econômicas e se consolidado como um dos principais vetores de volatilidade nos mercados. Quase todos os dirigentes destacaram o risco de que o confronto se arraste por período maior do que o previsto ou que, mesmo após o fim das hostilidades, os preços do petróleo e de outras commodities permaneçam elevados por mais tempo.
Após a publicação do documento, o mercado voltou a ver como majoritária a chance de que o Fed mantenha os juros inalterados até dezembro deste ano, segundo a ferramenta de monitoramento do CME Group. A ata, considerada “bem negativa” por Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, não mudou, contudo, a dinâmica mais favorável dos ativos, ainda centrada no aparente arrefecimento das tensões geopolíticas, avaliou.
“O mercado está nessa rotação, acreditando que o Trump resolverá a situação sem o uso da força”, comentou Mollo, embora a ata tenha trazido elementos “hawkish”. “Uma das frases que mais me chamaram a atenção é que os dirigentes veem a inflação alta e que provavelmente pode haver aumentos de juros para controlá-la. Então, se o mercado estivesse seguindo a ata, deveria, na verdade, começar a cair”, disse.
Estadão Conteúdo