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Economia

Dólar cai a R$ 5,07 com sinais de fluxo, mas sobe 1,77% na semana

Um eventual fluxo para a bolsa doméstica, com a firme alta das ações da Petrobras, pode ter ajudado a moeda brasileira

Redação Jornal de Brasília

16/10/2026 18h19

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Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

São Paulo, 16 – Após alternar altas e quedas contidas ao longo da sessão, o dólar à vista terminou o dia em baixa de 0,26%, a R$ 5,0735. O real se destacou entre os pares latino-americanos, que foram castigados nesta sexta-feira, 16, pelo avanço das taxas dos Treasuries e pela aversão ao risco provocada pelo setor de Inteligência Artificial (IA). Um eventual fluxo para a bolsa doméstica, com a firme alta das ações da Petrobras em dia de ganhos de mais de 3% do petróleo, pode ter ajudado a moeda brasileira.

Apesar da leve baixa desta sexta, o dólar encerra a semana com ganhos de 1,77%, após queda de mais de 4% na semana passada, no auge da euforia com a dianteira de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição. Operadores atribuem o tropeço do real na semana ao aumento das incertezas sobre o desfecho da corrida ao Palácio do Planalto, após a última rodada de pesquisas mostrar os candidatos em empate técnico, mas com Flávio ainda numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A percepção é de que o momento é favorável ao petista. Além das manifestações massivas no último fim de semana no campo da esquerda e da aprovação do fim da escala de trabalho 6×1, Lula anunciou outras duas medidas de apelo popular: perdão de dívidas e apoio financeiro a microempreendedores individuais (MEIs) e “tarifa zero” no transporte público em feriados e fins de semana A entrevista de Lula ontem à TV Globo foi avaliada positivamente por operadores. A expectativa agora é pela participação de Flávio na Globo, na noite desta sexta, e pelo debate no domingo, 18, na Band.

Os analistas de câmbio Thierry Wizman e Gareth Berry, do Macquarie Group, afirmam que o retorno da taxa de câmbio a uma faixa entre R$ 5,00 e R$ 5,10 nesta semana reflete, em parte, as condições globais mais desfavoráveis para divisas emergentes, como o fortalecimento do dólar desde o início de outubro.

“Mas também há um certo receio de que as perspectivas de Lula não sejam tão ruins quanto pareciam no dia seguinte ao primeiro turno”, afirmam os analistas do Macquarie, que citam as medidas anunciadas nos últimos dias pelo petista e os esforços da campanha para reduzir a abstenção eleitoral e aumentar o engajamento por meio das redes sociais. “Dado o acirramento da disputa, os debates podem determinar o vencedor.”

A pesquisa Datafolha divulgada na quinta à noite mostrou que a diferença de Flávio para Lula caiu de quatro para dois pontos percentuais. As sondagens que saíram nesta sexta confirmam o acirramento da disputa: a CNT/MDA traz Flávio com 46,8% das intenções totais de voto, contra 45,9% de Lula, ao passo que PoderData/Aya traz ambos empatados em votos válidos.

Lá fora, o índice DXY – que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – recuou e furou o piso dos 102,000 pontos, em meio ao aumento das apostas na manutenção dos juros pelo Federal Reserve neste mês, após o presidente do BC americano, Kevin Warsh, evitar sinalizar os próximos passos da instituição. Por volta das 17h, o Dollar Index recuava 0,28%, aos 101,770 pontos, com recuo de cerca de 0,45% na semana e avanço de 0,30% no mês.

Bolsa

Em uma semana marcada pelo aumento da cautela dos investidores com o cenário eleitoral no Brasil, o Ibovespa acumulou uma queda de 1,74%, embora ainda se sustentando acima da importante faixa dos 200 mil pontos. O acirramento da disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Lula (PT) segue motivando o mercado a adotar uma postura mais defensiva, que se traduziu em uma correção para o principal índice da B3 nas últimas sessões.

No período da tarde desta sexta-feira, 16, o Ibovespa ganhou relativa força e encerrou com alta de 0,54%, aos 205.430,33 pontos, puxado principalmente pela forte valorização das ações da Petrobras, que foi, por sua vez, amparada pelo avanço do petróleo.

O contrato do Brent para dezembro já se aproxima dos US$ 110 o barril, diante dos receios com a oferta global da matéria-prima em meio às hostilidades persistentes no Mar Vermelho e no Estreito de Ormuz. Como a estatal é a empresa de maior peso do Ibovespa, ele se descolou do tombo das bolsas americanas.

No mês, o índice ainda acumula uma alta firme de 10,24% e, no ano, sobe 27,5%. O giro financeiro do dia foi inferior à média, em R$ 29 bilhões.

O sócio e gestor da Asset da Galapagos Capital, Jorge Dib, vê uma combinação de fatores externos e domésticos no pregão, mas considera a eleição predominante na formação dos preços no curto prazo. A composição do Ibovespa também ajuda a limitar o contágio da queda das ações de tecnologia no exterior.

Na semana, Dib relaciona a correção à redução da vantagem de Flávio ante Lula apontada pelas pesquisas eleitorais após a forte reação do mercado ao primeiro turno. “O mercado se animou no primeiro turno e subiu bem. Esta semana foi pautada pelas pesquisas fechando o ‘gap’ entre os candidatos, e o mercado devolveu um pouco dos ganhos. Há uma expectativa de como se posicionar para o segundo turno.”

A economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, Bruna Centeno, destaca que a Petrobras funcionou como suporte importante para o Ibovespa nesta sexta-feira, 16, acompanhando a forte alta do petróleo. Para o restante do mercado, porém, o encarecimento da commodity representa um vetor menos favorável por seus potenciais efeitos sobre inflação e juros.

“Petrobras segura o índice e ajuda muito no desempenho, que é muito mais influenciado pelo setor do que por uma melhora para o mercado em si. Olhando para a macroeconomia, essa volta do contrato de petróleo para patamares elevados não é interessante”, diz.

No ambiente doméstico, Bruna afirma que os investidores estão recalculando o impacto fiscal dos diferentes cenários eleitorais à medida que surgem novas propostas e pesquisas. Nesta semana, o governo realizou anúncios importantes às vésperas do segundo turno, como no caso do perdão de dívidas dos microempreendedores individuais (MEIs) à União, a extensão do pé-de-meia para universitários e o anúncio de fim de tarifas de transporte urbano nos fins de semana e feriados no Brasil.

“É como se o mercado fizesse uma conta todos os dias: se o cenário ‘X’ se concretizar, quanto vai pesar no fiscal? Se for o contrário, qual a probabilidade de não se concretizar? O que vai dar esse tom são as pesquisas, que vão pesar de um lado ou de outro desse balanço e fazer esse sobe e desce”, afirma Centeno.

O head da mesa de renda variável e sócio da AW Capital, Lucas Xavier, também vê o noticiário político comandando os ajustes recentes. “O mercado nos últimos pregões tem respondido a qualquer atualização no cenário político. Como nesta semana vimos o favoritismo do Flávio diminuir um pouco, percebemos o mercado ajustando as probabilidades de ajuste fiscal naturalmente através dos preços.”

Juros

Embora não tenham devolvido totalmente o efeito do rali eleitoral, no qual os ativos domésticos reagiram fortemente à liderança de Flávio Bolsonaro sobre o presidente Lula no primeiro turno, os juros futuros tiveram mais um pregão de recomposição de prêmios nesta sexta-feira, 16. As taxas médias e longas percorreram a tarde em alta, sustentadas por resultados de novas pesquisas eleitorais que mantiveram a tendência de crescimento das intenções de voto em Lula, reforçando dúvidas sobre o cenário, tido como certo até pouco tempo atrás, de que haveria vitória da oposição.

Somado à convicção menor sobre uma alternância de poder em 2027, o novo “pacote de bondades” anunciado pelo governo – com medidas como a aprovação da redução da jornada de trabalho semanal, o perdão de dívidas e ajuda financeira a Microempreendedores Individuais (MEIs) e a promessa de Lula de gratuidade no transporte público aos finais de semana e feriados – também ampliaram a aversão de risco nos DIs. Aos olhos do mercado, o combo é favorável ao petista, o que reduziria as chances de que haja ajuste fiscal mais austero no próximo ano.

No cômputo semanal, marcado pelo ajuste das expectativas do mercado à luz de novas possibilidades eleitorais, a curva a termo também ganhou inclinação, com alta de cerca de 40 pontos-base no miolo e na ponta longa.

Encerrados os negócios nesta sexta-feira, 16, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 subiu de 12,884%, no ajuste da véspera, a 12,895%. O DI para janeiro de 2029 anotou alta a 12,685%, vindo de 12,634%, e o DI para janeiro de 2031 aumentou de 12,684% a 12,720%.

Os retornos dos Treasuries médios e longos também voltaram a avançar no dia, na esteira de dados que mostraram inflação mais persistente e sinais de resiliência da economia americana, mas agentes avaliam que a abertura da curva local tem sido motivada essencialmente por fatores domésticos.

“O principal componente dessa movimentação é fiscal. O investidor está reavaliando as probabilidades dos diferentes cenários políticos e, principalmente, a capacidade do próximo governo de implementar medidas que estabilizem a dívida pública. As discussões recentes envolvendo novas despesas e mudanças na legislação trabalhista também contribuem para essa percepção de risco”, afirma o economista Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos.

Até o segundo turno, diz Mendes, os juros futuros devem continuar apresentando oscilações importantes. Em sua visão, para uma queda mais consistente e sustentável da curva longa, será necessário que o resultado eleitoral venha acompanhado de sinais concretos de responsabilidade fiscal e previsibilidade econômica.

Publicada na noite de quinta, pesquisa Datafolha mostrou que a vantagem de Flávio sobre Lula caiu de 4 pontos porcentuais para 2 pontos em uma semana. Na edição atual, o senador tem 47% dos votos, contra 45% do incumbente, configurando empate técnico. Ao longo da semana, outros levantamentos foram na mesma direção.

A falta de clareza sobre o quadro eleitoral levou, inclusive, a uma mudança marginal nas apostas para as próximas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, observa a economista-chefe da Mirae Asset, Marianna Costa. A curva, nesta sexta, segue apontando dois cortes de 0,25 ponto porcentual na Selic nas reuniões de novembro e dezembro, mas prevê reduções menores na primeira metade de 2027, nota.

Na última quarta-feira, a precificação indicava 80 pontos-base de corte no primeiro semestre e, nesta sexta, passou a apontar algo mais próximo de 56 pontos-base, diz a economista. “O movimento é reflexo das incertezas sobre o cenário eleitoral, no qual as pesquisas ratificam um placar muito apertado. No entanto, o movimento de hoje reflete um ajuste de posições após um fechamento importante observado nos últimos dias”, afirmou Marianna.

Estadão Conteúdo

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