Paolla Oliveira expôs mensagens ofensivas que recebeu de homens nas redes sociais após declarar seu posicionamento político. Entre os ataques, a atriz foi chamada de “bonita por fora, mas podre por dentro” e ouviu que teria “o cérebro mais pequeno” do que a aparência.
Eu saía da Embaixada, no Príncipe Real, rumo ao Jardim da Estrela, quando dei de cara com o desabafo de Paolla e precisei parar um instante. Porque o roteiro desses homens é tão previsível que chega a dar vergonha: antes, lotam a internet de “delícia”, “gostosa” e “era dentro”; quando a mulher abre a boca para defender o que pensa, viram fiscais de inteligência e donos do voto alheio.

Paolla não deixou a contradição passar em branco. A atriz lembrou que muitos dos perfis que agora despejam ofensas eram os mesmos que a sexualizavam havia anos. “Aqueles que me chamavam de delícia, gostosa, era dentro, agora estão me chamando de burra”, resumiu.
Eu, que já ia descendo a rua com o sol de Lisboa na cabeça, fico impressionada com a velocidade dessa transformação: para certa turma, mulher só pode existir como fantasia. Basta ela ter opinião, consciência e coragem para o desejo virar rancor. É um machismo tão velho que já devia estar aposentado, meu amor.
A atriz afirmou que aceita o debate e a crítica, mas fez uma distinção que deveria ser básica para qualquer adulto com acesso à internet: “Minhas opiniões podem ser debatidas, minhas escolhas podem ser criticadas. Mas ofensa não é argumento”.
No Jardim da Estrela, já procurando uma sombra para respirar, eu pensei no tamanho da violência escondida nessa patrulha. Não é só discordar de Paolla: é tentar reduzir uma mulher a um corpo admirável quando convém e a uma “burra” quando ela não serve ao projeto político deles. Que conveniência miserável.

Paolla disse que seu voto está ligado a valores, respeito à vida e dignidade. Em seguida, mandou um recado direto às mulheres: “Seu voto é seu. Não é do seu marido, do seu pai, do seu patrão. É você quem decide”.
Eu assino embaixo e carimbo com força: quem se incomoda tanto com uma mulher escolhendo por si mesma não quer debate, quer obediência. Paolla fez bem em expor a sujeira. Opinião se responde com opinião; ataque misógino se chama pelo nome.