Menu
Bastidores
Bastidores

Cleitinho desarmou a armadinha de Lula

Cleitinho, que já está eleito, demonstrou que a reivindicação ultrapassa a polarização

Vladimir Porfírio

14/10/2026 5h57

cleitinho

A decisão de Flávio Bolsonaro de votar pelo fim da escala 6×1 mudou a carta de navegação de sua campanha. Lula preparava uma armadilha eleitoral que ia além de apresentar o adversário como inimigo dos trabalhadores.

A intervenção de Cleitinho, governador eleito de Minas Gerais, funcionou como intérprete da vontade popular, num lance que pode ser decisivo para manter a candidatura de Flávio no caminho da vitória.

Defensor da redução da jornada há anos, Cleitinho cobrou publicamente o apoio do candidato e afirmou ter conseguido convencê-lo. Seu argumento, aliás, ressalta que parlamentares que desfrutam de longos recessos não têm autoridade moral para negar ao trabalhador mais um dia de descanso.

O mineiro também defendeu compensações tributárias para empresas, demonstrando que é possível apoiar a conquista social sem ignorar seus custos.

Flávio compreendeu o recado e anunciou ontem que votará favoravelmente à redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. A campanha abandona, assim, a resistência frontal e declarada à proposta, passando a disputar as condições econômicas da mudança.

Enquanto Lula levou quase quatro anos para descobrir a urgência da proposta, Flávio precisou de uma eleição apertada para descobrir que o voto contra seria um desastre político. Mas essa, certamente, não seria a decisão de Flávio, caso sua vantagem fosse folgada.

O Brasil contabiliza aproximadamente 39,5 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado, nem todos submetidos à escala 6×1. Outros 38,8 milhões trabalham na informalidade. Há ainda cerca de 13,7 milhões de MEIs registrados, que não passam automaticamente a ter jornada protegida pela CLT. São universos estatísticos que não favorecem Lula.

O entregador, o motorista de aplicativo e milhões de trabalhadores informais continuarão sem o segundo dia de descanso remunerado. A medida representa avanço social, mas não a redenção trabalhista anunciada pela publicidade política.

Há também a conta. Manter o salário e reduzir de 44 para 40 horas eleva em 10% o custo salarial por hora. Grandes empresas poderão absorver parte do impacto. Consta que pequenos negócios enfrentarão dificuldades maiores. Ignorar isso é tão irresponsável quanto negar que nada foi feito para compensar os postos de trabalho perdidos para o avanço tecnológico.

O protagonismo de Cleitinho e sua aguçada sensibilidade social, inclusive, superou as fronteiras da sucessão presidencial e pode ter comprometido as pretensões de David Alcolumbre no Senado. Isto porque o PL e aliados de Flávio sinalizaram a disposição de disputar o comando da Casa lançando Rogério Marinho, caso vençam a eleição presidencial.

Para Alcolumbre, uma recuperação eleitoral de Lula poderia, portanto, favorecer o projeto de reeleição no comando do Senado, na razão direta da sua boa vontade recente com o governo. Mas a manobra não foi tiro com pólvora molhada.

A decisão de Flávio Bolsonaro votar a favor reduz o risco de perda do que ele já conquistou no primeiro turno. Mas a vitória da proposta que reduz a jornada de trabalho para 40 horas pode pavimentar uma ponte de Lula com a parcela do eleitor que está fora das bolhas.

Portanto, Lula não perde necessariamente a oportunidade de colher dividendos pela aprovação da proposta.

O dano político para Flávio continua possível, especialmente se Lula conseguir estabelecer comunicação direta com o eleitor que não votou nele.

Afinal, apoiar uma conquista não significa receber automaticamente os votos de seus beneficiários. O trabalhador pode querer dois dias de descanso e continuar rejeitando o governo.

Cleitinho, que já está eleito, ao contrariar a posição inicial de seu próprio campo político, demonstrou que a reivindicação ultrapassa a polarização.

Até porque, em tempos de eleição, de posse do poder do voto, o trabalhador não fica com o pires na mão.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado