GUILHERME MATOS
BAURU, SP (FOLHAPRESS)
O técnico bancário da Caixa Econômica Federal Matheus Crespo, 45, sofreu uma lesão por conta de atividades físicas no início de 2026. Com os exames e a fisioterapia, seu gasto com o plano de saúde da empresa, dobrou por meses.
“Muitas pessoas, por conta desses custos todos, precisam escolher qual procedimento podem fazer. Eventualmente, deixam de fazer o tratamento se não são urgentes e negligenciam a saúde por conta do custo que tá cada vez mais alto”, disse à reportagem.
O aumento do plano de saúde da Caixa é o principal impasse que levou os bancários a uma greve nacional, desde 10 de setembro, cuja negociação foi parar no TST (Tribunal Superior do Trabalho). A corte vai julgar o dissídio coletivo nesta terça-feira (29).
Funcionários ouvidos pela reportagem afirmam que o convêncio, muitas vezes, tem atendimento precário, valores altos e cobranças que não reconhecem.
Em nota, a Caixa afirma que apura todas as denúncias que recebe e diz ainda que valores cobrados por hospitais e médicos credenciados são disponibilizados aos titulares pelo apalicativo Saúde Caixa ou portal do plano, onde também são estão dados sobre a coparticipação em cada atendimento.
“A Caixa destaca que todas as denúncias de erro ou falta de transparência nas cobranças feitas em hospitais credenciados ao Saúde Caixa são apuradas e submetidas à análise técnica especializada, que verifica se os valores cobrados estão compatíveis com o tratamento prestado e em conformidade com as condições contratuais vigentes com o prestador de serviços de saúde”, diz o texto.
O banco informa ainda que “os dados base do plano, detalhados, são fornecidos trimestralmente às entidades representativas dos empregados, conforme previsto em acordo coletivo de trabalho”.
Dentre as queixas dos bancários está o fato de que o plano pode ter uma reajuste de 60% no valor a ser pago para consulta em pronto-atendimento, que subiria de R$ 75 para R$ 120, entre outros aumentos.
Crespo afirma que o convênio funciona mal há um tempo. Ele mora em Natal (RN) e diz que faltam especialistas até na capital do estado. “A gente ainda não tem nenhum especialista em cirurgia cardíaca aqui em Natal. A gente passou uns três anos sem ter nenhum urologista no Rio Grande do Norte inteiro.
Isso só foi resolvido no ano passado”, afirma.
Segundo o bancários, quem mora no interior enfrenta uma realidade pior. É preciso se deslocar até a capital ou para outros estados para conseguir atendimento considerado básico.
Na ausência de profissionais credenciados, o funcionário pode consultar médicos fora da rede, mas precisa arcar com o custo do próprio bolso e depois solicitar reembolso de parte do valor. O processo é burocrático e, segundo Crespo, atrasa o atendimento e exige que o trabalhador tenha o dinheiro adiantado.
Frederico Cruz dos Santos, 46, trabalha como caixa em uma agência de Bauru (SP) e é diretor do sindicato local. Ele diz que o valor pago pelo banco a título de reembolso é muito inferior ao gasto real do funcionário. “Hoje, em uma consulta com um profissional você paga R$ 500. A Caixa te reembolsa R$ 50”, afirma.
Segundo Santos, essa defasagem obriga muitos bancários a arcar sozinhos com o custo do atendimento particular, já que a rede credenciada do Saúde Caixa no interior paulista tem fila de espera longa.
“Às vezes você vai marcar uma consulta e só tem vaga daqui a três meses. Você é obrigado a pagar uma consulta particular porque tá precisando do profissional no momento”, diz.
O bancários também diz que há falta de transparência nas cobranças e nos reembolsos. Segundo ele, a Caixa demora a responder os pedidos de reembolso feitos pelo site e, em alguns casos, não dá retorno algum.
“A gente tem vários desses problemas e não tem transparência da Caixa, a gente não tem uma resposta, não tem para quem reclamar”, diz.
Santos cita ainda relatos de cobranças indevidas na rede credenciada. Segundo ele, funcionários já reclamaram de receber fatura por materiais que não correspondem ao que foi usado no atendimento.
“A gente já ouviu vários relatos de pessoal que foi lá, tomar uma injeção no pronto-socorro, e na hora que vem a cobrança, vem uma caixa de agulha, uma caixa de luva, uma caixa de seringa. Eu usei uma, quer dizer que toda vez que eu vou lá o hospital tem que abrir uma caixa pra me dar uma injeção?”, questiona.
Para ele, é ruim o funcionário ter que solicitar o prontuário a cada procedimento só para conferir se a cobrança está correta.
Júlia Eberhardt, bancária no Rio de Janeiro (RJ), afirma que as cobranças indevidas são recorrentes na rede credenciada ao Saúde Caixa na capital carioca.
Segundo ela, é comum haver cobrança de procedimentos e materiais que não foram de fato utilizados no atendimento na rede credenciada. “A gente descobre que eles cobram duas, três internações, ou um colega que tomou soro e cobraram dois rolos de esparadrapo em mais de R$ 100”, relata.
Documentos e relatos encaminhados à reportagem mostram outros casos de cobrança de altos valores na rede credenciada. Em um deles, uma funcionária da Caixa diz ter usado apenas um curativos simples após um procedimento médico simples, mas o plano foi cobrado por quase R$ 633,30 em esparadrapo.
Neste caso, o valor foi contestado e revertido.
Uma bancária diz ter realizado uma tomografia cujo valor do exame era de R$ 705,42. Segundo a guia do serviço médico, a fatura apresentada incluía ainda R$ 1.913,75 em materiais e R$ 877,45 em medicação, elevando o total para R$ 3.496,62.
Ao questionar a cobrança, a funcionária precisou pedir a emissão de um novo documento apenas com o valor do exame.
Além disso, os funcionários ouvidos pela reportagem também reclamam da cobrança de uma 13ª mensalidade do plano de saúde, cobrada uma vez por ano além das parcelas mensais regulares. Segundo eles, a prática não existe em nenhum outro plano de saúde do mercado.
A cobrança foi instituída em um acordo coletivo fechado em 2023 e passou a valer a partir de 2024. À época, a Caixa alegou que a medida seria necessária para cobrir o déficit do plano.
O modelo do Saúde Caixa funciona de forma semelhante ao da previdência no Brasil: os funcionários mais jovens, que usam menos o plano, financiam os funcionários que utilizam com mais frequência. “Vai chegar uma hora que as pessoas vão começar a sair do programa. Eventualmente o plano pode acabar quebrando”, afirma Santos.
Eberhardt faz a comparação da situação da Caixa com a de outras estatais, como a Telesp (Telecomunicações de São Paulo S/A), que passaram por processos de privatização, segundo ela, após anos de sucateamento.
Segundo Eberhardt, a Caixa também desmontou a área interna que auditava os gastos do plano, o que dificulta o acesso dos funcionários a informações sobre os custos reais do Saúde Caixa. Santos defende que a categoria negocie a realização de uma auditoria externa independente sobre as contas do Saúde Caixa.
A Caixa Econômica Federal mantém um conselho com os próprios funcionários que pode auditar os gastos do plano de saúde. Além disso, são publicados balanços mensais com a discriminação dos gastos. Eberhardt, porém, considera que a informação é insuficiente e não garante transparência real.