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Duas mães em casa: histórias de amor de famílias homoafetivas

Mães revelam como superaram os preconceitos da sociedade e construíram famílias cheias de amor. Conheça história de espera por quadrigêmeos

Por Agência UniCeub 09/05/2021 12h13

Exercer um papel materno e criar uma criança para muitos já é um trabalho difícil. Imagine ser mãe de quadrigêmeos? Esse é o caso do casal de enfermeiras Mariana Battistini, de 35 anos, e Nicole Cordaro, de 32, ambas de São Paulo (SP). Elas se conheceram na faculdade e, desde o início de seu relacionamento, já sabiam que um dia iriam ser mães. “Filho iria ocorrer em algum momento, não era algo que nenhuma das duas abriria mão por conta de um relacionamento”, disse Mariana. “Antes de se conhecer, a gente já tinha isso muito forte e desde o início, foi uma coisa sempre muito discutida entre nós”, complementou o casal.

Mariana Battistini (esquerda) e Nicole Cordaro (direita), esperando a gravidez. “Antes de se conhecer, a gente já tinha a vontade de ser mãe”. Foto: Arquivo pessoal

 Mariana e Nicole programaram tentar engravidar em 2020, mas com a chegada da pandemia, Nicole teve de trabalhar na linha de frente, prorrogando os planos do casal. No final do ano passado, elas optaram por realizar uma inseminação artificial que deu negativo. Na segunda tentativa veio a tão esperada gravidez. As duas passam este dia das mães na expectativa da chegada de Gregório, Luiza, Guilherme e Beatriz.

“Dá medo. A gravidez dá medo. O medo de não dar conta, porque são muitos bebês e poucos braços. Mas eu acho que a gente tá com uma rede de apoio tão gostosa, que nossas expectativas são as melhores possíveis. A gente tá muito feliz mesmo, cada semana que vai passando, parece que vai ficando mais leve. Apesar da barriga mais pesada”, Nicole conta sobre as expectativas de ser mãe.

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Mães que adotaram 

Enquanto isso, a fotojornalista Naiara Demarco, 31, e a antropóloga Janaína Fernandes, de 37, comemoram o feriado ao lado dos filhos, Gabriel, 10, e Guilherme, de 9. O casal já se conhecia por uma amiga em comum e se reencontru anos depois em uma manifestação.

Na época, Janaína passava por um processo de separação ao mesmo tempo que completava o processo burocrático da adoção tardia dos meninos. Quando ela e Naiara começaram a namorar, não demorou muito tempo para a jornalista entrar na família. “Eu comecei a entender que a nossa relação tava ali se concretizando. Uma família mesmo, apesar dos meninos me chamarem de tia, aí eu resolvi tomar aquela maternidade para mim também”,  relembra. 

Naiara conta que tentou conversar com os meninos para o processo ser o mais natural possível.

“Falei ‘olha, mas só se vocês quiserem, eu quero ser mãe de vocês junto com a Jana’. E aí o Guilherme [o mais novo] falou na hora ‘Mamãe! Mamãe!’, porque a gente já tava convivendo todos os dias, a gente já tava ali vivendo juntos”.

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Antes da pandemia, a família tinha o hábito de passearem juntos, todo os finais de semana. Para continuarem com os programas em família durante a pandemia, toda quarta-feira os quatro assistem a filmes de terror comendo pipoca. Apesar de a pandemia de covid-19 ser um período conturbado, o casal revelou que um dos maiores marcos da pandemia foi ensinar os meninos a ler. Ambos aprenderam a ler em casa com 9 anos.

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Naiara acredita que a melhor parte da maternidade é o amor construído aos poucos. “Isso não só do nosso lado, como do deles também. Esse amor foi aos poucos e ele foi construindo uma base muito sólida. E hoje, na nossa relação enquanto família, é uma relação que é inquebrável”.

Para ela, a pior parte é a cobrança da sociedade sobre os conceitos estabelecidos sobre o que é ser mãe. “Às vezes, a gente não supre as expectativas do que a sociedade estabelece e aí a gente acaba se frustrando. Fica achando que nós não somos boas o suficiente, mas não é isso, cada um tem a sua forma de maternar, sua forma de educar, sua forma de ser”.

Janaína Fernandes e Gabriel (esquerda) juntos com Naiara Demarco e Guilherme (direita). Foto: arquivo pessoal

Por ser uma adoção tardia, o casal contou que os irmãos chegaram com muitas marcas, vindas de rejeições anteriores. “Adoção tardia é uma adoção muito difícil, a criança, às vezes, passa anos no abrigo. Têm muitos que não conseguem ser adotados, principalmente quando a gente fala de meninos, irmãos e negros”, diz Naiara.

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 A mãe reforça que, no início, as crianças não se sentiam à vontade na casa. Mas com o tempo, e o amor construído e reforçado diariamente, os “muros” de proteção construídos pelos meninos foram quebrados.

“Hoje eles são duas crianças muito educadas, extremamente carinhosos, inteligentes e corajosos. Eu arrisco dizer que o Gabriel, o meu mais velho, passou por situações que eu acho que talvez nem eu com 30 anos tenha passado. A vida dele sempre foi muito corajosa”.

As mães afirmam que não veem diferença na criação de casais homoafetivos ou de casas heterossexuais.  “Não existe papel feminino ou masculino na criação de uma criança. O que existe são duas pessoas que querem educar, amar e providenciar para que a criança saiba se virar no mundo e tenha o que melhor que ela possa ter”, reforçou Naiara.

Naiara Demarco e Gabriel (esquerda) e Janaína Fernandes e Guilherme (direita). Foto: Arquivo Pessoal

Tanto Naiara e Janaína quanto Mariana e Nicole acreditam que a maternidade vai muito além de uma gestação. Para Naiara “uma família  é construída de amor, de afeto e de conversas”. Para Mariana, “[Ter o meu DNA na criança] é uma coisa que pra mim é muito indiferente quando a gente conversa e fala sobre maternidade. Pra nós a maternidade é muito maior do que isso, vai muito mais além do que isso”.

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Para o casal de enfermeiras, “ser mãe é você conhecer um amor incondicional”. Ela complementa que “Pra gente ser mãe é vivenciar a gente cometer erros, mas que quanto mãe a gente vivencia bons e nos maus [momentos], nas falhas e nos acertos, sempre esse amor incondicional.”

Já Naiara, por não ter acompanhado os 4 anos de processo burocrático da adoção dos meninos desde o início, no começo teve medo de seu papel como mãe ser questionado. “Eu tinha muito medo das pessoas invisibilizarem a minha maternidade. Só que daí se passaram quase cinco anos e eu entendi que maternidade é uma construção. Todas as piores fases que a gente poderia passar no início, eu passei junto com eles e tô aqui até hoje. Então, eu acho que isso, essa construção de amor, de afeto, é o que me tornou mãe”, disse a fotojornalista.

Mães de gêmeos 

Patrícia Luna e (esquerda) Liliane Dantas (direita), quando estavam grávidas. Foto: arquivo pessoal

Patrícia Luna, empresária, de 35 anos, e Liliane Dantes, arquiteta de 33 anos, se encontraram pela primeira vez, em um restaurante, quando foram apresentadas por uma amiga. Apaixonaram-se, casaram e, hoje, desfrutam do incrível e desafiador papel de serem mães. Dois filhos, gêmeos, João e Joaquim Dantas, com  1 ano e 4 meses, foram fecundados através de Fertilização in Vitro (FIV), e desde que nasceram, só trazem alegria e muito amor para a vida das mamães. 

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Para as duas, a vontade de ser mãe sempre foi algo estrutural e esteve presente desde que elas entendem o que é ser mulher. “Chegou um momento do relacionamento que entendemos que precisávamos virar uma página, que precisávamos executar o planejamento de formar uma família. Foi aí que demos o primeiro passo, que foi casar e em seguida, marcar uma consulta com a médica de reprodução assistida”, afirma Patrícia.

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Construir uma família, para poder ter a oportunidade de vivenciar histórias incríveis com muito amor, cumplicidade e diversão é o sonho de muitas mulheres e para Patrícia e Liliane, não difere. Elas contam que o melhor e mais inesquecível momento familiar que puderam viver com seus filhos, sem nenhuma dúvida, foi quando os gêmeos chegaram. “O parto foi algo realmente muito marcante, ali se formou uma família. Os meninos amamentaram nas duas mães, em sua primeira hora de vida. Foi algo planejado e realizado, e isso foi incrível”, relatam. As mamães contam também que as atividades preferidas para fazer com o João e Joaquim, são: cuidar de plantas, fazer as refeições juntos, viajar, cantar e tocar música.

“Patrícia com João (direita) e, Liliane com o Joaquim (esquerda), todos juntos. “João é aventureiro, destemido e persistente. Joaquim é sensível, não gosta de quem fala alto, ama música e muito concentrado.”

Em relação à formação dos filhos, Patrícia e Liliane explicam que o primeiro passo é desmitificar as fantasias sobre um relacionamento homoafetivo e sua formação familiar e, acrescentam que não se difere da criação de uma criança que tem pais heterossexuais.

“Lógico que num casal homoafetivo iremos ser questionadas sobre a diferença da família deles para as outras, mas acreditamos que explicar isso não será nosso maior desafio. Nosso maior desafio na educação dos meninos, é formar dois homens que tenham princípios íntegros, respeitando sempre o próximo, sendo antirracistas e antimachistas”, concluem. 

 “As emoções e relações são fluidas. Em nossa maternidade buscamos sempre vibrar em cada pequena coquista dos meninos. O fato que foi bem difícil até então, foi a privação do sono”, explicam. 

A todos casais que desejam construir uma família, Patrícia e Liliane deixam um conselho: “Executem, marquem consultas, não esperem o momento emocional e financeiro ideal, a gente nunca vai achar que está preparado. Corram atrás dos seus sonhos”.

Quanto à adoção, Naiara deixa um recado para as futuras famílias: “Não jogue todas as suas expectativas no seu filho, principalmente na adoção. Você não pode criar expectativas, você tem que estar totalmente preparado para o que Deus e a vida traga para você. Aprender a aceitar que são pessoas com dores, com marcas, com problemas e que você vai ter que lidar isso junto”.

Por Adna Fernandes e Gabriela Gallo (Agência UniCEUB / Jornal de Brasília)






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