Policiais militares do Batalhão de Choque lançaram hoje dez bombas de gás lacrimogêneo contra moradores que protestavam pacificamente contra ordem judicial que determinava reintegração da posse de um terreno de 33 mil metros quadrados na Favela Vila Taboinhas, em Vargem Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. No tumulto provocado pela ação da polícia, uma criança foi pisoteada, três mulheres desmaiaram e pelos menos quatro favelados ficaram feridos.
Quando as bombas foram lançadas, o coronel Antônio Couto, que comandava a operação, fazia uma vistoria dentro da favela, acompanhado de oficiais de Justiça, para conhecer o local das remoções, que atingem cerca de 250 famílias. Ele afirmou que não havia partido dele a ordem para lançar as bombas. Depois, questionado sobre quem determinara a ação, ameaçou prender o repórter do jornal O Estado de S. Paulo. “Você está atrapalhando o meu trabalho.” Segundo o coronel, policiais do Choque relataram ter reagido a pedras lançadas por moradores, mas isso não foi testemunhado pela equipe de reportagem.
Em um dos momentos mais tensos do confronto, moradores ergueram, com entulho e pedras, uma barricada na rua principal da favela, para impedir a ação das máquinas levadas para demolir as casas. Em seguida, o comandante reuniu moradores na entrada da favela e fez um discurso: “Se eu não cumprir a ordem judicial, vou preso. Mas para isso preciso da presença de outros órgãos do Estado”, disse o policial. “Estou aqui obrigado. Vocês acham que eu gosto de derrubar casas? A polícia também é vítima. Policiais muitas vezes também moram em locais de invasão, por isso peço compreensão. Agressão mútua não vai resolver nada. Estou tentando viabilizar um lugar para vocês irem”, discursou o coronel.
Representantes da Defensoria Pública e da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa cobraram do policial que solicitasse à juíza responsável pela decisão o fim da operação, Érica Batista de Castro, por falta de condições de segurança. Com a chegada de representantes da Secretaria de Habitação e de Assistência Social do município, após mais de seis horas de impasse, a situação ficou menos tensa. O subsecretário de Habitação, Pierre Batista, comprometeu-se a encontrar uma solução alternativa para as famílias e a pedir à juíza um prazo maior para que a reintegração fosse feita.
“Mesmo sendo uma área privada, viemos buscar uma solução. Já conversei com a juíza e vamos oferecer aluguel social de R$ 400 e assentar as famílias com renda de até três salários mínimos por meio do programa Minha Casa, Minha Vida”, prometeu Batista, sem apontar uma saída para as famílias que não se enquadram nessa faixa de renda. Segundo o secretário, serão necessários três dias para cadastrar os moradores e “até 60 dias” para reassentar os moradores.
Toda a ação foi acompanhada por cinegrafistas do Canadá e de uma TV Venezuelana, além dos jornalistas brasileiros e observadores de ONGs. Até as 18h30, a juíza não tinha revogado a ordem de reintegração.