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Policiais fizeram churrasco e levaram malas de dinheiro e fuzis em matança no Salgueiro (RJ), dizem testemunhas

Testemunhas que participaram dos acontecimentos contaram à reportagem sua versão do que aconteceu, que diverge da narrativa da polícia

Por FolhaPress 24/11/2021 10h52
Foto: Agência Brasil

Júlia Barbon e Tércio Teixeira
Rio de Janeiro, RJ

As panelas de ferro cheias de arroz e farofa ainda estão no fogão, ao lado da faca suja repousada na tábua com restos de carne. Logo abaixo, pegadas de lama marcam o azulejo branco da cozinha, coberto por embalagens e taças de plástico.

Nas bancadas e no chão, uma bíblia e dezenas de latinhas, long necks e garrafas de bebidas vazias, provavelmente retiradas de um freezer de três portas de vidro -duas delas estilhaçadas de cima a baixo- e das prateleiras agora quase desocupadas.

Na parte de fora, seis cadeiras e uma mesa de bar de madeira boiam espatifadas na piscina onde as crianças costumavam brincar. Do lado interno do portão marrom, um recado: “Obrigado pela recepção, ass: ? [delta] force, bonde do caça siri”.

O siri pode ser uma referência aos animais que vivem no mangue logo atrás da porta, mas os oito corpos retirados dali nesta segunda (22) por moradores eram de homens -um nono rapaz também morreu em outro lugar. Nesta terça (23), a Folha esteve no clube, onde a perícia até agora não parece ter chegado.

O local fica na parte rural do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Quatro quilômetros de estrada de terra sem iluminação, pela qual o único ônibus não passa quando chove, separam essa parte mais pobre da favela da área mais urbanizada.

Também não chega água encanada, só carro-pipa. Quem não tem condição bebe da mesma chuva que faz as ruas alagarem até o joelho. Cavalos, galos e um boi passeiam entre as casas de alvenaria, muitas abandonadas, e porcos comem as flores agora deixadas no lugar dos corpos.

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Foi nesse contexto que ocorreram diversas incursões do 7º Batalhão e do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) da Polícia Militar ao longo do último fim de semana -dois dias depois, os traficantes da facção Comando Vermelho já voltam a reerguer as barricadas destruídas e constróem outras novas.

Testemunhas que participaram dos acontecimentos contaram à reportagem sua versão do que aconteceu ali, que diverge da narrativa de confronto alegada pela polícia. Nenhuma delas será identificada por motivos de segurança.

Segundo esses relatos, policiais fizeram um churrasco, mataram ao menos três homens que não eram envolvidos com o crime, torturaram parte das vítimas e depois levaram duas mochilas de dinheiro, fuzis e pistolas que não estão entre as apreensões divulgadas oficialmente.

A primeira incursão do 7º batalhão ocorreu no sábado (20) pela manhã. Foi neste dia que o sargento Leandro Rumbelsperger da Silva foi assassinado. A PM afirma que ele foi atacado durante um patrulhamento, mas dentro da comunidade a versão é de que não foram criminosos que o mataram.

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Foi também nesse dia que os moradores afirmam que dois jovens foram colocados em caveirões e sumiram, em momentos diferentes. Um deles reapareceu, vivo, depois que lideranças da favela acionaram autoridades.

O outro teria aparecido já morto, mas não está claro se ele estaria entre os corpos oficialmente reconhecidos. As polícias dizem que o nono homem baleado, Igor da Costa Coutinho, chegou a ser socorrido pelo Samu após ser atingido em confronto no domingo, morrendo no hospital, e que ele estaria envolvido no ataque ao sargento.

Ainda no sábado, fugindo dos policiais, cerca de 30 traficantes se esconderam na mata, onde permaneceram por mais de 24 horas. Dormiram ali abastecidos por barras de cereal e água. No domingo (21), o Bope entrou na comunidade.

Por volta das 5h, uma idosa de 71 anos saiu para ir à igreja quando viu dois caveirões passarem. Voltou correndo para casa, mas o tiroteio recomeçou quando ela quase encaixava a chave na tranca do portão. Não deu tempo. “Sabe quando você vai no médico e medem a pressão? Senti isso”, diz ela tocando o curativo no braço, com medo de se identificar.

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Mais tarde naquele dia, ainda segundo os relatos, os agentes teriam entrado no chamado Clube da Piscina usando uma chave mestra e feito a festa regada a cerveja e churrasco. Depois, usaram dois drones para mapear a área de mata.

Provavelmente nessas imagens, viram o eletricista Elio Araújo, de 52 anos, levando refrigerante e comida ao grupo que se escondia no mangue, entre eles um filho seu de consideração. Era entre 14h e 15h quando cercaram o mangue por várias entradas, uma delas pela trilha que sai do clube.

Os oito corpos achados no manguezal, conforme confirmou a Polícia Civil, são de Carlos Eduardo de Almeida, 33, David Wilson Antunes, 23, Douglas Vinicius da Silva, 27, Elio Araújo, 52, Italo George Gouvêa Ros, 33, Jhonatan Pacheco, 26, Kauã Miranda, 17, e Rafael Alves, 28.

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Elio teria sido o primeiro a ser morto, dizem testemunhas. Um dos vizinhos que carregou o corpo conta que ele estava com a garganta “raspada de faca” e um tiro que entrou pelas costas e saiu pela barriga. A reportagem teve acesso a um vídeo dos oito corpos que de fato mostra o pescoço exposto. Ele diz que, de perto, não era possível que a marca fosse produzida por arma de fogo.

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Além de Elio, outros dois não tinham qualquer envolvimento com o crime, de acordo com os relatos: David e o adolescente Kauã. Ao menos um outro homem também teria sido morto após se render.

Todos os traficantes levavam fuzis e pistolas, segundo as testemunhas, mas apenas duas pistolas foram oficialmente apreendidas pela PM, junto com munições, carregadores e grandes quantidades de maconha, cocaína e crack. Duas mochilas com uma quantidade vultosa de dinheiro também teriam sumido.

Em nota, a Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí afirmou que investiga o caso e que enviou um ofício à Polícia Militar solicitando os nomes dos agentes que participaram da ação e a apreensão das armas para exames periciais.

“Os agentes estão ouvindo depoimentos e novas testemunhas serão ouvidas no decorrer da investigação. A equipe da DHNSG também aguarda os resultados dos laudos de necropsia. A investigação está em andamento para esclarecer todos os fatos”, diz a delegacia, que divulgou ainda que cinco dos nove mortos tinham antecedentes ou anotações criminais.








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