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Paulo Freire ainda é luz na escuridão para Angicos (RN), diz secretária de educação

Ela diz que é impossível mensurar a importância de Freire para Angicos, que seria um local muito diferente se não fosse a iniciativa

Foto: Raiane Miranda / Divulgação)

Arthur Ribeiro
(Jornal de Brasília / Agência de Notícias UniCEUB)

Uma experiência inicial na cidade de Angicos (RN) alfabetizou, pelo método de Paulo Freire, em 1963, pelo menos 300 adultos em cerca de 40 horas. A iniciativa fazia parte de uma estratégia para diminuir o número de analfabetos em todo o país. O evidente sucesso chegou até o Distrito Federal e depois foi abolido pelo golpe militar em 1964.  No entanto, o legado de Paulo Freire se manteve vivo em todo o país, inclusive na cidade com as sementes iniciais. Segundo a secretária de Educação do município, Maria Tereza Baracho, os ensinamentos do educador pernambucano ainda inspiram professores e alunos no local.

Para Maria Tereza Baracho, a ousadia de Freire em colocar em prática o projeto de alfabetização, há 58 anos, não apenas mudou o cenário da educação no município, mas proporcionou “uma luz à escuridão” que era a ausência do conhecimento. Assim sendo, ela diz que é impossível mensurar a importância de Paulo Freire para Angicos, que seria um local muito diferente se não fosse a iniciativa.

Prática

Neste ano é comemorado o aniversário do de Paulo Freire. Ele nasceu em 19 de setembro de 1921 e morreu em 2 de maio de 1997.  Estudado em países europeus, na pequena  Angicos, Freire está muito vivo. Um dos exemplos do legado foi a implantação, em Angicos, do projeto “40/100”, realizado no ano letivo de 2021, cujo nome faz alusão às 40 horas de Freire e ao seu centenário.

O objetivo primordial é que todas as escolas e demais segmentos de educação conheçam o legado deixado pelo educador. O trabalho final irá consistir em uma exposição do material produzido por cada centro de ensino, buscando proporcionar que as novas gerações também conheçam essa parte da história local, para que se apropriem e vivam tal legado.

O plano de ensino original foi tão importante que inspirou o Plano Nacional de Alfabetização. O método não apenas ensinou os trabalhadores a ler e escrever, mas também concedeu a eles o direito ao voto e noções sobre direitos de cidadania. 

“Com a concretização do método das 40 horas em nossa cidade, Paulo Freire deixou, não só para Angicos, mas para o mundo, a certeza de uma educação revolucionária, libertadora, pautada na dialogicidade, subjetividade e possível de se concretizar”, disse a secretária de Educação de Angicos.

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Ela testemunha que é uma entre as milhares de pessoas influenciadas pelo método de Freire. Em seu caso, Maria Tereza interagiu com os princípios do educador em sua formação.

“Meu primeiro contato com ele (Paulo Freire) foi por meio de uma formação docente voltada para professores da EJA (Educação de Jovens e Adultos) do nosso município, na qual me proporcionou a fazer pesquisas e ler obras dele como ‘Pedagogia da Autonomia’ e ‘Pedagogia do Oprimido’, entre outras. São obras que me influenciaram a ter um olhar e a prática partindo do princípio do contexto social e primando pela dialogicidade, a interação pautada no verbo ‘esperançar’”, compartilhou.

Por ocasião do centenário de Paulo Freire, um monumento em homenagem a Paulo Freire foi inaugurado no município potiguar, próximo à rodovia BR 304, importante estrada no caminho Natal-Angicos. A obra de arte em memória do educador é apenas uma pequena demonstração da importância histórica dele no local e que perdura até os dias atuais. 

Contra a evasão

A cidade continua no combate contra o analfabetismo, como explica a secretária de Educação. “É uma experiência de luta em procurar atender esse público (analfabetos) que não teve ou não tem acesso a educação por diversas situações. São pessoas que em grande parte precisam também ser inseridas em políticas sociais. Por meio de conversas e políticas públicas tentamos convencer essas pessoas a voltarem a estudar”.

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Apesar de toda a importância do patrono da educação brasileira na história do ensino no país, ele é menosprezado por muitos, especialmente por ser tachado como comunista. “Sem dúvidas, o contexto ideológico e político contribuem para que não se vivencie de fato o método. Ele foi um professor que desenvolveu algo grandioso no contexto educacional e que, de certa forma, é mais conhecido e praticado fora do Brasil”, explicou a secretária.

Mesmo com as críticas e a desvalorização, o legado de Paulo Freire está marcado profundamente na história de diversas pessoas, como Maria Tereza e os demais estudantes de Angicos. Certamente, sua contribuição será eternamente lembrada, seja nos livros, na memória e na experiência de cada um, ou até mesmo no monumento que agracia a BR 304 no Rio Grande do Norte.








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