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Gritos de ‘abaixa a arma’ e ‘perdi’ precederam matança no Jacarezinho, dizem moradores

De acordo com os relatos de três moradores, um grupo de traficantes armados fugia por cima de lajes e por dentro de casas durante a ação

Ação policial no Jacarezinho deixa rastro de sangue. Foto: Mauro Pimentel/ AFP

Júlia Barbon e Italo Nogueira
Rio de Janeiro, RJ

“Abaixa a arma” e “perdi” foram algumas das falas que moradores afirmam ter identificado na gritaria que precedeu a saraivada de tiros numa casa próxima à rua do Areal, na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro.

Dentro da residência, segundo eles, havia policiais civis, um grupo de seis a oito criminosos armados e três pessoas de uma mesma família. Os bandidos morreram, os policiais retiraram os corpos e os moradores do imóvel decidiram se mudar, de acordo com os relatos de vizinhos.

A localização e a descrição feitas à Folha na quinta-feira (13) no Jacarezinho indicam que o episódio se refere à ocorrência com sete mortos registrada por policiais na Divisão de Homicídios. Foi o local com mais vítimas na operação mais letal da história do estado fluminense.

As circunstâncias de todos os 27 óbitos de civis (um policial também morreu) ainda estão cercadas de perguntas. Esse, porém, é o único caso em que não consta nenhuma informação no boletim de ocorrência —a reportagem não teve acesso aos depoimentos dos agentes.

De acordo com os relatos de três moradores, que não quiseram se identificar por medo de represálias, a sequência de fatos foi a seguinte: um grupo de traficantes armados fugia por cima de lajes e por dentro de casas durante a ação, pela manhã, até que parou ​em uma delas.

Na sala, por cerca de 20 minutos, eles debateram uma rendição, segundo a mulher que presenciou a conversa. Ela conta que os traficantes falavam em ligar para suas famílias em busca de ajuda porque já não viam solução e que estavam tão nervosos que não conseguiam se comunicar.

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Um deles então viu a porta da residência da frente aberta e sugeriu que trocassem de esconderijo. Segundo ela, a lógica do grupo foi de que, nas outras casas, haveria mais gente para tentar “salvá-los” dos policiais, já que na sua só havia ela, seu marido e seu irmão.

Nesse segundo imóvel, que tem dois andares, moravam duas famílias. Uma delas, com um bebê de apenas oito dias, conseguiu pedir abrigo na vizinha da frente. Segundo essa vizinha, porém, a outra família acabou ficando dentro da casa com os traficantes.

Então a polícia chegou. O que aconteceu ali dentro, os moradores dizem não saber ou não querem falar. De fora, o que eles ouviram foram diversos gritos indistintos no meio do nervosismo, entre eles “abaixa a arma” e “perdi” ou “perdemos”, indicando uma discussão entre o grupo e os policiais, seguida de muitos tiros.

As três pessoas que estavam na casa se mudaram no mesmo dia. A família com o bebê, que conseguiu evitar presenciar as mortes, também já saiu dali. Com medo, a dona do imóvel, que era alugado pelas famílias, não quis abrir a porta para a Folha.

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Uma moradora contou que os vizinhos se juntaram para limpar a casa, mas ouviram dos policiais que não poderiam mexer ali porque haveria perícia. Ela diz que os agentes ficaram na região por cerca de 40 minutos após os óbitos.

Ela afirma que os agentes ficaram na região por cerca de 40 minutos após os óbitos, mas não soube responder se de fato houve perícia. Questionada se houve o exame de local e sobre qual foi a versão dos policiais para a ocorrência com sete mortos, a Polícia Civil não retornou. O boletim de ocorrência não aponta a realização do procedimento.

A moradora do Jacarezinho também relata que, enquanto os agentes estavam retirando os corpos —o que vai contra determinação do STF (Supremo Tribunal Federal)—, o que mais impressionou foram as gargalhadas que eles davam.

A descrição que os vizinhos fazem da casa após a ação é de cenário de terror, como ocorreu em outros pontos da favela. Havia muito sangue em quase todos os cômodos, exceto no banheiro, inclusive em cima das fraldas no quarto do bebê.

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Uma marca na cozinha, dizem, indicava um corpo arrastado, e muitas luvas que os policiais usavam teriam sido deixadas para trás. Água, vinagre e creolina foram usados para tentar tirar o cheiro de sangue.

Entre as pessoas com quem a reportagem conversou, ninguém depôs à polícia ou ao Ministério Público, que investigam o caso. Os familiares de alguns mortos chegaram a pedir que eles fossem dar depoimento, mas eles dizem que ficaram com medo de falar o que viram e ouviram.

O boletim de ocorrência sobre o episódio com sete mortos corresponde aos nomes de Diogo Gomes, 39, Evandro Santos, 49, John Jefferson da Silva, 30, Marlon de Araújo, 23, Pablo de Mello, 26, Toni da Conceição, 29, e Wagner Luiz Fagundes, 38.

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Familiares de ao menos três deles já deram declarações públicas ou à polícia. Um parente de John disse que ele estava encurralado quando foi morto. A mãe de Marlon afirmou que o filho era mototaxista e ligou no início da operação pedindo socorro em uma casa com vários jovens, mas que ela não conseguiu chegar a tempo e que ele foi executado.

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Já a mãe de Pablo disse em sede policial que viu na TV o filho pulando uma laje, que ele morava no Jacarezinho havia um mês com a namorada e que era envolvido com o tráfico. Também informou que ele já trabalhou na Fiocruz e que tinha uma bebê.

Participaram desse suposto confronto oito policiais da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais), grupo tático da Polícia Civil comparado ao Bope (Batalhão de Operações Especiais) da Polícia Militar, cuja uma das funções é auxiliar delegados em áreas consideradas de risco.

Foram apreendidos três fuzis, duas espingardas e duas pistolas no local. Não foi possível cruzar os boletins médicos das vítimas com a ocorrência para entender quais ferimentos cada um deles tinha quando chegou ao hospital.

As informações são da FolhaPress






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