Informações desencontradas fizeram com que helicópteros de equipes de socorro transportassem mantimentos mais de uma vez para as mesmas localidades, em áreas isoladas de Teresópolis (RJ). Ontem, um grupo de vítimas de deslizamentos na cidade precisou avisar aos tripulantes de uma aeronave que já havia recebido água e alimentos naquele dia.
Policiais militares de três Estados, funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) e homens da Força Nacional de Segurança se estabeleceram em uma base no bairro da Várzea para levar donativos e resgatar moradores que estão ilhados. A prefeitura e o Corpo de Bombeiros passaram a centralizar o comando das operações, com o objetivo de evitar falhas, mas a medida não foi suficiente para evitar que aeronaves fizessem viagens desnecessárias.
O problema de comunicação entre autoridades, equipes de resgate e organizações independentes fez com que muitos moradores de pontos isolados de Teresópolis passassem a estocar mantimentos, uma vez que recebem mais produtos do que a comunidade pode consumir. Militares envolvidos nas operações confirmam que, nos primeiros cinco dias de socorro às vítimas do temporal, equipes “bateram cabeça”, realizando missões coincidentes ou improdutivas – classificadas por voluntários como “desperdícios de esforço”.
“Poderiam usar os helicópteros para entregar comida para quem ainda precisa, mas ainda falta organização”, disse um homem que tentava ajudar as equipes. Hoje, um helicóptero Águia da PM de São Paulo voou até o bairro Salaco, na periferia de Teresópolis, para resgatar um homem ferido por um cachorro. A informação havia sido passada à base da Várzea pelo Corpo de Bombeiros, mas a equipe de socorro não encontrou a vítima e voltou ao centro da cidade sem realizar o resgate.
“Voamos 4 quilômetros até o local, mas não conseguimos encontrar o homem ferido. Há desencontro de informações ou casos em que não recebemos um retorno se a vítima já foi retirada”, afirmou o capitão Paes, da PM paulista.
Irritação
A decisão da prefeitura de centralizar a distribuição de donativos e as operações de resgate para evitar essas falhas, no entanto, continuam irritando voluntários. Mantimentos só poderiam ser distribuídos com autorização expressa do município, o que teria impedido dezenas de missões de auxílio feitas por cidadãos comuns dispostos a ajudar.
Voluntários em um galpão precisaram esperar por horas para receber sacos de arroz, que estavam em falta, e foram barrados na saída de outros locais de doações. “Funcionários do município tentaram impedir a saída de caminhões com mantimentos e disseram que a entrega de donativos só seria feita com autorização deles, o que é um absurdo”, relata Edu Trevisan, coordenador de uma equipe de voluntários e responsável pela conta @leisecarj no Twitter.
A Prefeitura de Teresópolis nega a existência de conflitos com voluntários e organizações internacionais, mas reitera que é sua responsabilidade comandar a distribuição de mantimentos para evitar desvios e garantir que todas as famílias recebam todo o material de que necessitam. As autoridades municipais também alegam que é preciso organizar as missões em helicópteros para realizar um controle unificado do espaço aéreo da região.