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Brasil

Dia dos Namorados: Geração Z não se apaixona? Relações digitais ajudam a explicar, diz especialista

Pesquisa aponta que 82% dos jovens brasileiros se sentem solitários mesmo estando perto de familiares e amigos, sendo o Brasil, o país com o maior índice entre todos pesquisados

Redação Jornal de Brasília

12/06/2026 14h19

“os amantes”, do pintor surrealista belga rené magritte

“Os Amantes”, do pintor surrealista belga René Magritte. Foto: Creative Commons

Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Mariah Mergener e Lais Cornils

Em clima de Dia dos Namorados, a geração mais conectada da história enfrenta um embate: nunca foi tão fácil conversar com alguém, porém nunca tão difícil realmente se apaixonar. O quão superficial passou a ser um relacionamento por consequência das redes sociais? Especialistas entendem que a resposta pode estar relacionada ao contexto social.

Boa parte dos flertes da atual geração acontecem por meio de redes sociais. Curtidas nos stories viraram sinônimo de demonstração de interesse, foguinhos substituíram o “oi” e o “ghosting” (o silêncio) se tornou a forma mais comum de rejeição.

De acordo com a psicoterapeuta cognitivo-comportamental Priscila Moni, os pacientes jovens falam sobre inseguranças e exaustão emocional nos relacionamentos. E também fala sobre a sensação frequente de que as relações ficaram descartáveis e mais difíceis de serem interpretadas pelas duas partes. 

Solidão

De acordo com uma pesquisa realizada pela McCann Truth Central em 2024, 82% dos jovens brasileiros se sentem solitários mesmo estando perto de familiares e amigos, sendo o Brasil, o país com o maior índice entre todos pesquisados. A geração mais conectada é, simultaneamente, a mais solitária.

A superficialidade não é só uma impressão.

Artur, de 18 anos, estudante de relações internacionais, observa um efeito silencioso como consequência desse cenário.

“Muitas pessoas se especializaram no flerte online e acabam desaprendendo a ter interações românticas fora desse ambiente. Não é incomum casais não terem mais o que conversar no primeiro encontro.”

A tela criou uma zona de conforto da qual muitos não conseguem mais sair.

Beatriz Godoy, de 19 anos, resume o que parece ser o sentimento dominante entre a geração: “Hoje em dia as coisas são muito imediatas. As pessoas tomam decisões rápidas e impulsivas, deixando as relações cada vez mais rasas e voláteis.”

Relações sem rótulos

As famosas “situationships” são aqueles relacionamentos sem rótulo. Existe intimidade, constância, carinho, porém nenhum assume nada. Não é amizade, nem namoro, e ninguém tem coragem de perguntar o que é.

De acordo com a psicoterapeuta Pricila Moni, esse tipo de situação pode vir não do medo do compromisso, mas de que a geração Z cresceu vendo relações mais instáveis, acompanhando termos em tempo real pelas redes sociais e vivendo em uma cultura que valoriza muito a liberdade individual.

A superficialidade relatada por diversos jovens é muitas vezes o que causa essa situação.A geração enfrenta uma grande dificuldade de comunicação dentro de relacionamentos.

A cultura pop representa muito bem esse cenário através do livro/série “Normal People”, da escritora irlandesa Sally Rooney. A trama se desenvolve em volta de dois jovens que se amam mas são incapazes de dizer isso um ao outro.

A comunicação falha, o silêncio é constante e mais alto, e a relação se mantém em um limbo que hoje chamamos de “situationship”. 

Pandemia 

Os jovens passaram por um evento de quarentena que modificou a maneira de comunicação das pessoas.

“A pandemia interrompeu experiências importantes de socialização justamente em fases da vida em que muitos estavam aprendendo a se relacionar, lidar com rejeição, construir autonomia e desenvolver intimidade”, destaca a especialista. 

Outro fator que a profissional menciona é como a imprevisibilidade e isolamento do período resultou em índices maiores de de ansiedade.

“Às vezes brinco que muitos aprenderam a manter o Wi-Fi ligado o tempo todo, mas tiveram menos oportunidades de treinar a conexão emocional offline”, destaca a psicóloga.

Habilidades adiadas

A terapeuta também enfatiza que as habilidades foram adiadas durante esse período, vínculo, intimidade e tolerância a ser vulnerável são competências que podem ser aprendidas e fortalecidas ao longo da vida. 

Amar fora das redes

Apesar do cenário atual, ainda há um saudosismo pela conexão presencial. “A geração atual se contenta com tão pouco e nem faz questão de conhecer de fato os outros presencialmente. É só no encontro real que dá para entender a essência da outra pessoa”, comenta Júlia Simionatto, estudante de psicologia.

Nem todos enxergam as redes como vilãs dos romances atuais. Paulo Guerra, de 19 anos, pondera: “sempre existiram relacionamentos rasos entre as pessoas. As redes só facilitaram o encontro desses indivíduos.” 

*Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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