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Datafolha: 70% confiam mais em civis do que militares para trabalhar em escolas

O Pecim prevê que militares da reserva ou membros das Forças Armadas, participem da administração das escolas

Por FolhaPress 03/07/2022 7h40

Felipe Nunes e Norma Odara
São José do Rio Preto e Guarulhos

A busca pela disciplina foi o que motivou a empresária Samara Pereira Ribeiro, 43, a matricular a filha, Maria Fernanda Pereira Ribeiro, 15, em uma escola cívico-militar da rede particular de ensino em São José do Rio Preto (interior de SP). Samara elege a rigidez como um dos pontos positivos da instituição.

“O aluno aprende a importância de ser disciplinado, passa a ter mais responsabilidade e entende que seu comportamento pode ter consequências”, diz a mãe da estudante. O fato de passar pelo período integral sem acesso ao celular é outro ponto que a empresária avalia como positivo. “A gente sentiu que teve uma diferença grande no esforço e na concentração dela.”

Samara, porém, destoa da maioria dos brasileiros: 7 em cada 10 disseram confiar mais em professores do que em militares para trabalhar em uma escola, segundo a pesquisa Ultraconservadorismo na Educação. Ela foi encomendada pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) e pela Ação Educativa e realizada pelo Datafolha, que ouviu 2.090 pessoas com 16 anos ou mais.

Atraente para um grupo de pais como Samara, o modelo baseado na militarização cresce no país desde o início do governo Bolsonaro (PL).

PROGRAMA AVANÇA COM INJEÇÃO NO ORÇAMENTO

Foram as regras rígidas de conduta, além da vestimenta, que fizeram a autônoma Pâmela Cristina Gonçalves, 40, transferir a matrícula da filha, Valentina Gonçalves, 12, para a mesma escola cívico-militar do interior de SP.

“Hoje minha filha é outra criança. Ela sempre deu trabalho para ir à escola e para estudar, o que piorou durante a pandemia”, diz.

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Criado no início da gestão Bolsonaro, o Pecim (Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares) prevê que militares da reserva, como policiais, bombeiros ou membros das Forças Armadas, participem da administração das escolas.

No modelo cívico-militar das escolas públicas, as aulas são dadas por professores civis, enquanto a disciplina e a organização dos colégios ficam sob responsabilidade de militares da reserva, que são selecionados e capacitados pelo Ministério da Defesa.

Nas escolas da rede particular, desvinculadas do Pecim, a gestão é feita por associações de militares da reserva.

Os dois casos se diferenciam dos 14 colégios militares existentes no país, segundo o Ministério da Defesa, totalmente geridos pelo Exército.

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De acordo com o MEC (Ministério da Educação), o Brasil tem hoje 216 escolas cívico-militares distribuídas em 26 estados e no Distrito Federal. Isso representa 0,1% de 178.370 instituições de ensino básico em 2021, segundo o Inep. Outros 89 colégios estão em fase de implantação.

Mesmo em número menor, os colégios cívico-militares tiveram o repasse triplicado pelo governo federal, de cerca de R$ 16 milhões em 2020 para R$ 45,1 milhões em 2021.

Docente na UnB (Universidade de Brasília), Catarina de Almeida Santos avalia que a presença de militares no ambiente escolar põe em risco o incentivo ao debate, prática que contribui para reforçar noções de diversidade e inclusão. “A lógica do quartel é de uniformização do comportamento, dos corpos, das roupas, do cabelo.”

Para Santos, a ideia da disciplina como remédio para os males de crianças e adolescentes pode ser ilusória, já que a rigidez no ensino não daria conta de todos os desafios do ambiente escolar. “A homogeneização do pensamento também alimenta uma postura mais conservadora.”

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POPULARIZAÇÃO DE MODELO MILITAR EVIDÊNCIA FALHAS NA EDUCAÇÃO

Graziela Pepe, 45, diz que que o filho, João Pedro, 17, foi agredido verbalmente por um policial após participar, em maio, de um protesto contra a exoneração da vice-diretora de um colégio cívico-militar onde estudou por três anos, em Brasília. A mãe soube da história e chegou a tempo de impedir que o adolescente fosse levado à delegacia. Depois do episódio, decidiu transferi-lo. “Hoje, meu filho entra em pânico quando vê um policial.”

Graziela, que foi favorável à mudança da gestão da escola pública convencional para o modelo cívico-militar, agora vê o avanço da militarização do ensino com preocupação. “A polícia tem que proteger o cidadão e não oprimir e fazer da escola um quartel.”

Em nota, o MEC afirmou não ter recebido denúncias de quaisquer abusos de policiais das escolas participantes do programa cívico-militar.

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O ex-ministro da Educação Cristovam Buarque não vê sentido na militarização do ensino, já que o propósito da educação é promover o espírito crítico. Para ele, a popularidade de escolas cívico-militares é reflexo da ineficiência das tradicionais, que precisam ser repensadas. “Isso é resultado de erros nossos ao não sabermos combinar liberdade, disciplina e respeito.”

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