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Brasil

Água de derretimento da Groenlândia abençoada pelo papa chega a Belém para a COP30

A água peregrinou até Belém, no Pará, aportando na COP30 nesta quarta (12), como parte da agenda da Igreja Católica na conferência do clima das Nações Unidas

Redação Jornal de Brasília

14/11/2025 8h56

Foto: Alberto PIZZOLI / AFP

Foto: Alberto PIZZOLI / AFP

ISABEL GNACCARINI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Abençoar a água derretida de um bloco de gelo da Groenlândia pode parecer estranho. Mas foi exatamente isso o que aconteceu em 1º de outubro, em Castel Gandolfo, no Vaticano, quando o papa Leão 14 benzeu uma porção de líquido simbolizando o derretimento das geleiras causado pelo aquecimento do planeta.

A água peregrinou até Belém, no Pará, aportando na COP30 nesta quarta (12), como parte da agenda da Igreja Católica na conferência do clima das Nações Unidas.

A peregrinação, chamada “Da Groenlândia à Amazônia”, passou antes por outros por santuários brasileiros, incluindo o de Aparecida do Norte (SP) e o do Cristo Redentor (RJ), antes de chegar à Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém.

A ideia de benzer o bloco de gelo recortado de uma camada glacial em processo de retração na Groenlândia foi do artista Olafur Eliasson e do geólogo Minik Rosing. A água polar foi levada ao Vaticano pelos organizadores do Movimento Laudato Si, uma organização de ativistas católicos pelo clima.

O nome do movimento é uma referência à encíclica “Laudato Si”, lançada há dez anos. Escrita pelo papa Francisco, a carta ecológica teve muita repercussão durante a COP21, a conferência do clima realizada na França em 2015.

É justamente o Acordo de Paris, assinado dez anos atrás, que os negociadores tentam resgatar na COP30, uma vez que os países signatários falharam em cumprir suas metas nacionais propostas. Nessa jornada, a cúpula em Belém instituiu o Balanço Ético Global, oferecendo espaços oficiais destinados às religiões na conferência climática.

A Igreja Católica está com uma presença forte na COP30, representada oficialmente pelo secretário de Estado da Santa Sé, o cardeal Pietro Parolin. A delegação episcopal conta com 10 integrantes da Santa Sé, além de 8 cardeais, 47 bispos e outras 97 pessoas ligadas a diferentes organismos eclesiais.

Da presidência da CNBB participam o cardeal Jaime Spengler (presidente), dom João Justino (primeiro vice-presidente), dom Paulo Jackson (segundo vice-presidente) e dom Ricardo Hoepers (secretário-geral).

A articulação para a COP30 foi constituída pela CNBB, Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), Cáritas Brasileira e o Movimento Laudato Si.

O ponto alto das atividades do clero foi o simpósio “Nos Caminhos da Ecologia Integral por Justiça Climática e Conversão Ecológica”, realizado na quarta-feira.

Em mesa mediada por Dom Vicente de Paula Ferreira, secretário da Comissão Especial para a Ecologia Integral e Mineração da CNBB, houve participação da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, da cientista Ima Vieira (Museu Goeldi/MCTI) e do cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus acompanhado de cardeais de todos os continentes.

Especializado nos impactos da mineração no Brasil, Dom Vicente Ferreira destaca, em entrevista à Folha, que a Igreja se posiciona de forma contrária à exploração do petróleo na bacia Foz do Amazonas. Em outubro, a Petrobras obteve autorização para pesquisar óleo na costa do Amapá, parte da chamada margem equatorial.

Ele afirma que, para uma COP que se quer “de implementação”, a licença ambiental dada semanas atrás pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais) é uma contradição. Para Dom Vicente, as salvaguardas oferecidas pelo Ibama são “uma falsa solução”.

“Cobraremos do governo brasileiro uma posição firme na defesa das nossas florestas, nossas águas e da biodiversidade”, diz, comentando a proposta do presidente Lula de usar recursos da exploração de petróleo para a transição enérgetica, parte de seu discurso na abertura da COP30.

Seu recado para o presidente brasileiro é de “que ele não ceda às pressões de grandes multinacionais”. “E que mude sua visão de desenvolvimento, levando em conta os direitos da natureza”, completa.

Dom Vicente Ferreira destaca ainda a proposta de perdão da dívida externa dos países em desenvolvimento, uma campanha dos jesuítas na COP30. A ideia é que o cancelamento das dívidas seja atrelado a metas de mitigação mais ambiciosas dessas nações.

O secretário da CNBB para a Ecologia Integral e Mineração avalia que “aquilo que os países do Norte fazem com os do Sul Global é colonialismo”. “As dívidas são injustas”, diz.

Na visão do religioso, “nossas riquezas são os motivos de nossa pobreza”, em crítica a investimentos que vão, em grande parte, para a mineração e o agronegócio. Para ele, em troca, deveria ser ampliado o incentivo à agroecologia, modelo de agricultura defendido por ambientalistas.

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