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“A vida dela dependia disso”, diz pai de paciente que usa Canabidiol

O canabidiol é uma das 400 substâncias encontradas na Cannabis Sativa podendo representar 40% dos extratos da planta

Guilherme Gomes
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“Sabíamos que estávamos fazendo algo ilegal, mas a vida dela dependia disso”. Esse é o relato de Norberto Fischer, que importava o Canabidiol (CBD) ilegalmente para o tratamento da sua filha, Anny Fischer, uma linda garota que enfrenta crises convulsivas desde o início de sua infância.

O canabidiol é uma das 400 substâncias encontradas na Cannabis Sativa podendo representar 40% dos extratos da planta. De acordo com um estudo sobre as aplicações terapêuticas da planta publicado na Universidade Fernando Pessoa, em Porto, o composto pode ser usado no tratamento de pacientes com epilepsia, esquizofrenia, mal de parkinson, autismo, ansiedade e insônia.

Anny é uma criança com CDKL5, um gene que codifica uma proteína essencial para o desenvolvimento normal do cérebro, o que causa convulsões frequentes no início da infância. Ela faz tratamento com o CBD desde 11 de novembro de 2013, quando a substância ainda era ilegal no Brasil.

“Foi um forte impacto, mas resolvemos trazer para o Brasil, mesmo sabendo da proibição”, afirmou Norberto Fischer. O pai conta que, após tentativas com outros tratamentos, resolveu tentar o Canabidiol.

“Em determinado momento um pai Americano, Dustin Howard, publicou que iria testar esse tal de Cannabidiol. Nas semanas seguintes ele postava as melhoras da filha, foi quando resolvemos estudar o que era… para nossa surpresa, o Canabidiol era proveniente da Cannabis”, contou.

Tratamento com o Canabidiol (CBD)

O pai da Anny conta que ficou surpreso com o resultado do tratamento. Para ele, o CBD proporciona um pouco mais de qualidade de vida para sua filha. “De imediato percebemos que ela começou a nos olhar nos olhos. Depois vimos gradativamente as crises convulsivas reduzindo de 80 por semana para 0”, explicou.

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Norberto lembrou ainda que a filha usa outros dois medicamentos, mas em dose mínima. “Podemos afirmar hoje que de tudo o que Anny toma, somente o CBD não pode faltar, pois sempre que falta ela piora rapidamente e as crises voltam de forma intensa”, alertou.

Em 2013, no início do tratamento da Anny com o CBD, o composto ainda estava na lista de substâncias proibidas do Conselho Federal de Medicina (CFM). Só em 2015 que o uso compassivo e a importação da substância foram autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e CFM.

“Depois que a ANVISA criou um protocolo de importação o processo tem aos poucos melhorado, mas ainda estamos longe de ser um processo simples, tem muito espaço para melhorar. Vários pontos dos processos de autorização e importação podem ser simplificados”, critica Norberto.

Em 2014 a família conseguiu a autorização da Anvisa para a importação do medicamento. Anny foi a primeira brasileira autorizada a fazer o uso medicinal da cannabis no Brasil.

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Desesperado com as crises da filha, Norberto achou no Canabidiol um motivo para ter esperança e acreditar. “Estávamos desesperados e, graças a Deus, com apenas 9 semanas de uso, conseguimos ter um controle efetivo das convulsões… algo que nunca havíamos conseguido com as medicações existentes nas farmácias aqui no Brasil”, contou.

Eficácia do CBD

Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Neurologia e Psiquiatria sobre os efeitos do canabidiol na frequência das crises epilépticas, mostrou que o composto da Cannabis pode ser efetivo e dar qualidade de vida aos pacientes.

Em conjunto, o estudo avaliou 534 indivíduos com epilepsia de difícil controle. Desse total, 315 pacientes fizeram uso do canabidiol. Durante a pesquisa, todos os participantes utilizaram outros anticonvulsivantes e fármacos além do CBD.

Foto: divulgação

No resultado, os pacientes que usaram o Canabidiol demonstraram melhora na frequência das crises, com redução percentual entre 43,9% e 90%, quando comparado à frequência anterior. Aproximadamente um em cada três pacientes continua apresentando crises.

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Dos 315 indivíduos que usaram o Canabidiol, 21 ficaram livres de crises convulsivas. Esses pacientes já faziam o uso de 7 medicações disponíveis para o tratamento.

Por fim, o estudo lembra que não foi estabelecida a segurança do medicamento a longo prazo. Ainda existem preocupações com relação aos potenciais efeitos negativos do uso crônico de cannabis no desenvolvimento do cérebro, função cognitiva e desempenho escolar em crianças com epilepsia resistente a medicamentos.

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