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Personalidade influencia respeito ao distanciamento social durante a pandemia, diz estudo

Para surpresa dos pesquisadores, as pessoas mais abertas à experiência foram as que se mostraram mais propensas a ficar em casa

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São Paulo, SP

O que determina se as pessoas ficam ou não em casa durante a pandemia de Covid-19? Para responder a essa pergunta, quatro pesquisadores das universidades Columbia e Harvard, nos EUA, e de Cambridge, no Reino Unido, ao lado de uma equipe interdisciplinar (responsável pela coleta de dados) conduziram um estudo mundial.

Foram entrevistadas 100.005 pessoas em 55 países – o Brasil forneceu a maior amostra, com 11.568 pessoas ouvidas.

Para surpresa dos pesquisadores, as pessoas mais abertas à experiência foram as que se mostraram mais propensas a ficar em casa.

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O estudo, publicado pela American Psychological Association, utilizou um inventário de personalidade conhecido como Tipi.

Nele, os entrevistados respondem a dez questões que avaliam a prevalência em sua personalidade de cinco traços amplos, os chamados “Big Five”.

Para isso, atribuem valor de 1 (discordo totalmente) a 7 (concordo totalmente) a perguntas que descreveriam a abertura à experimentação, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo.

A pesquisa, então, analisou os resultados com relação à opção dos entrevistados por respeitar ou não o isolamento social.

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Pessoas com abertura à experimentação são aquelas consideradas curiosas, mais dispostas a correr riscos; conscienciosidade se refere àquelas mais responsáveis e confiáveis; a extroversão, às mais sociáveis e extrovertidas; amabilidade, às pessoas mais cooperativas e empáticas; e o neuroticismo, às mais tensas e ansiosas.

Os estudiosos também observaram o rigor da política governamental nos países. Para isso, consideraram sete medidas: fechamento de escolas, fechamento de locais de trabalho, cancelamento de eventos públicos, suspensão do transporte público, implementação de campanha de informação à população, restrições à movimentação interna e controle de viagens internacionais.

A pesquisa concluiu que pessoas com pontuação baixa em neuroticismo e abertura à experiência eram menos propensas a ficar em casa na ausência de medidas governamentais rigorosas –tendência que se anulava diante de políticas restritivas.

Os pesquisadores esperavam que pessoas mais abertas à experiência estivessem menos dispostas a ficar em casa. Eles acreditavam que essa parcela estaria mais determinada a não seguir normas culturais e se colocaria em mais em risco.

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Mas, ressalta Friedrich Götz, doutorando na Universidade de Cambridge (Reino Unido) e porta-voz do estudo, “a abertura também está relacionada a percepções de risco precisas, universalismo e identificação da humanidade”.

Com isso, diz, expostas à informação, “no mundo digitalizado em que ocorre a atual pandemia, essas qualidades podem ter levado esses indivíduos a seguir o surto de Covid-19 em outros países, perceber sua gravidade e agir de acordo com ela”.

A pesquisa concluiu ainda que traços de personalidade também atuam de forma independente das políticas governamentais. Pessoas com alto grau de extroversão, por exemplo, tendem a se isolarem menos, mesmo diante de medidas mais rígidas.

Götz avalia que a caracterização desses indivíduos pode ajudar a identificar pessoas com potencial de espalhar o vírus ou a melhorar o trabalho de comunicação entre governos e população.

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Lucas Francisco de Carvalho, professor do programa de pós-graduação em psicologia da Universidade São Francisco (USF) e também autor de estudos sobre aderência a medidas contra a Covid-19, aponta restrições do uso dos “Big Five” – ou “modelo dos cinco grandes fatores”.

Carvalho diz que o Tipi é de fácil aplicação, mas que é restrito pois avalia cada um dos cinco traços apenas por dois itens, enquanto outros formulários podem incluir mais de dez itens.

O problema, explica, é que a pontuação no Tipi não leva em conta possíveis patologias de personalidade.

Ele diz que, embora venha se observando a relação entre os “Big Five” e a aderência às medidas de contenção, “traços patológicos da personalidade parecem ter um papel igualmente, ou até mesmo mais relevante”, diz.

Ele ressalta, entre esses, os comportamentos antissociais – aqueles em que os outros são prejudicados em prol do benefício da própria pessoa, como manipulação e indiferença.

Segundo Carvalho, de modo geral, tem-se observado que pessoas com elevação de traços antissociais são as que menos aderem às medidas de contenção. Já as que têm pontuação alta em empatia mostram maior disposição a aderirem.

Desde que medidas mais rígidas foram adotadas pelo governo João Doria (PSDB), no dia 24 de março, a melhor taxa de isolamento no estado de São Paulo foi de 59%.

Com o estado atualmente quase todo na fase verde de flexibilização – a quarta e penúltima do Plano SP –o índice está em torno de 42%.

Enquanto parte da população voltou a frequentar restaurantes, shoppings, bares e praias, outras pessoas se mantêm firmes na decisão de sair somente o necessário.

É o caso da Roseli Faria da Silva, 48. Merendeira em uma creche em Bauru (329 km de São Paulo) e membro de uma família de cinco pessoas, ela afirma que segue o distanciamento social a rigor desde o início.

Sua filha mais velha e o seu marido tiveram de voltar ao trabalho de forma presencial, mas se limitam a isso, conta. Outras saídas se limitam ao mercado, ao médico ou à farmácia.

Os encontros familiares e idas a lojas foram extintos. “Dá para deixar para o ano que vem ou até que a vacina saia”, afirma.

A engenheira eletricista Camila (o nome foi trocado a seu pedido), 28, moradora da capital, também respeitou, no início, o isolamento social. Asmática, começou a trabalhar de casa e tinha medo até de ir ao mercado, recorda.

Decidiu passar parte da quarentena com a família, que mora no interior. Mas, no regresso a São Paulo, em junho, começou a sair mais.

Ela conta que agora participa de pequenas reuniões entre amigos, vai a restaurantes e, às vezes, ao shopping. Também já viajou duas vezes com conhecidos.

“Eu tenho medo de pegar Covid-19, sim! Não me sentia segura no começo da quarentena e não me sinto agora, mas parece que estou no piloto automático, não penso tanto a respeito.”

Esta reportagem foi produzida no âmbito do Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde, que conta com o patrocínio do Laboratório Roche e da Rede D’Or São Luiz.

As informações são da Folhapress




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