Em 40 minutos de bate-papo descontraído, o treinador do UniCeub, Sergio Hernández, descreveu seu comportamento longe das quadras. Sorridente e com piadas na ponta da língua, demonstrou confiança ao assumir uma das maiores equipes do País.
Em fase de adaptação à capital federal e, principalmente, ao idioma (português), o argentino conta que já arriscou experimentar pratos típicos brasileiros – como a carne de sol e a feijoada – e falou da saudade da família, que permanecerá na Argentina. Preocupado com a evolução da equipe, indicou atletas internacionais para dar maior rotatividade ao “quarteto fantástico”, formado por Nezinho, Alex, Arthur e Guilherme Giovannoni. Corajoso e de perfil vencedor, Hernández fez questão de ressaltar que não tem medo da derrota e que confia na equipe que lidera, com o fôlego e a vontade de um iniciante.
Conte ao nosso leitor. Quem é Sergio Hernández?
Em resumo, tenho mais de 20 anos como treinador profissional e uma fortuna de títulos, além de ter tido a oportunidade de participar de dois mundiais (com a seleção argentina). O engraçado de tudo isso é que, para mim, me sinto outra pessoa. Cada dia é como se fosse o primeiro. Não é algo que me proponho a fazer, acontece de maneira natural. Se você ler o meu currículo para mim, penso que está falando de uma outra pessoa. Assim sou eu, tudo é um questão de desafio e entusiasmo por algo novo.
Qualidades e defeitos…
Tenho uma qualidade que poucos treinadores têm. Quando um jogo ou entrevista termina, automaticamente deixo o treinador para trás e viro o Sergio. Isto é muito difícil de fazer, mas não penso o tempo inteiro como técnico. Não sou treinador de basquete, sou uma pessoa que trabalha como treinador, assim fica mais fácil. Sou eu o tempo todo, nunca estou atuando ou fingindo. Meu defeito é que tenho o “sim” difícil e o “não” fácil. Isso, às vezes, se torna um problema. Conseguir arrancar um “sim” de mim é muito mais complicado do que um “não”.
Qual a diferença do Sergio pai para o Sergio técnico?
Gosto muito de me divertir com eles (família). Tenho dois filhos gêmeos de 19 anos que dão aulas de basquete para crianças. Não sou ciumento, talvez um pouco medroso por recear que algo de ruim aconteça, coisas normais de quem é pai. Como treinador, sou muito valente, assumo riscos, não tenho medo de perder uma final porque isso faz parte do jogo. Não dá para ganhar sempre.
Sua família vai ficar na Argentina ou vem para cá?
São 23 anos de casados e eles estão felizes porque estou longe (risos). Vou viajar para a Argentina assim que tiver tempo, e eles virão para cá no período das férias. Isso já aconteceu algumas vezes no passado, principalmente quando trabalhava da Espanha. Então eles já estão acostumados com isso. Não é bom, mas é o meu trabalho.
E a sua adaptação aqui em Brasília, como tem se saído com a língua e costumes?
Prometo que até novembro vou falar português. O meu assistente (Bruno Savignani) tem a responsabilidade de conseguir um professor de espanhol que me auxilie nos treinos, mas a convivência com todos vai me ajudar. Gosto de falar e aprender. Após o jogo, posso ficar mais duas horas só para cumprimentar a todos que queiram falar comigo. Com os jornalistas, se for algo organizado, é minha responsabilidade dar atenção, gosto de dar entrevistas.
Em sua apresentação, você disse que comeu carne de sol e gostou. O que mais te encanta aqui?
Comi no primeiro dia que cheguei. É comida de gente normal, comida de família. Sábado passado experimentei a feijoada. Nossa, muito bom. Gosto de Brasília porque é uma cidade com uma população grande, mas tem um clima de cidade de interior. Não há ruídos, se comparado às grandes metrópoles como a Argentina. Muito bem desenhada e tem um lugar para os hotéis, bancos, escolas, lojas, shoppings e outros para morar. Sem contar a arquitetura conhecida no mundo inteiro. Mas há algo que não entendo. Como fizeram um Lago (Paranoá) no meio de um lugar que parecia um deserto? Como a água chegou lá? (risos).
O que mais sente falta da Argentina?
Sem dúvida, da minha família e amigos. Talvez a televisão argentina e dos programas que tinha lá, mas a internet soluciona um pouco esse problema.
Já se identificou com algum time de futebol do Brasil?
Sei que flamenguista não posso ser por conta da rivalidade entre UniCeub e Flamengo, mas o Corinthians e o Botafogo me chamam a atenção. Na Argentina, sou Boca Juniors.
Pelé ou Maradona?
Os dois e nenhum (risos). Ambos falam muito, mas como atletas eram extraordinários, superestrelas. Para surgir alguém como eles vai demorar um pouco.
Como projeta o seu relacionamento com os jogadores do UniCeub?
Assim como com os meus filhos que confirmam chegar em casa às 21h de uma festa, por exemplo, e o relógio marca 21h10, claro que fico preocupado. Mas, se eles me avisam e me deixam por dentro dos motivos do atraso, tudo se resolve, porque é assim que as coisas devem funcionar: com união e comunicação. É um tema de convivência. Não quero ter problemas com jogadores quando chegam tarde “porque sim”. Estamos convivendo e existem regras a serem cumpridas.
Por ser um esporte muito querido em Brasília, o que os candangos podem esperar de você como treinador?
Não gosto muito de falar nisso porque minhas atitudes vão dizer por mim. Vou prometer? Sim. Posso prometer muita honestidade, trabalho e vou honrar a camisa do UniCeub como se fosse o time de toda minha vida, mas qual técnico não vai falar isso?
Pensa em trazer jogadores argentinos para compor a equipe?
O time está completo com dez jogadores adultos, o que é suficiente, e mais dois jogadores jovens para dar rotatividade ao elenco (Ronald e Isaac). Além deles, quero colocar outros dois do time de base para que tenham a oportunidade de treinar com os maiores. Tenho três nomes: Bruno, Giovane e Maxwell. Eles mostraram uma condição tão boa quanto os profissionais, mas precisam amadurecer.
Como enxerga a equipe do Uniceub?
Sempre foi uma equipe boa por ser tricampeã e campeã das Américas. Manteve a mesma base. Agora, o campo é mais largo, com mais possibilidades de rotação. Quando enfrentei o time ou quando o assistia por televisão, notava que muitos jogadores permaneciam em quadra por muito tempo, como Alex, Guilherme, Nezinho e Arthur, que têm mais de 30 anos e precisam de um tempo maior de descanso para dar qualidade ao jogo. É necessário ter gente no banco que tenha mais possibilidade de entrar e jogar.
Para compor o elenco, o uruguaio ala/armador Martín Osimani foi contratado. Como foi a contratação dele?
A presença dele na equipe só acrescenta essa rotatividade que falei. A equipe tinha dois alas (Alex e Arthur) e necessitávamos de um jogador que pudesse gerar jogo para os demais. Me pareceu que Osimani seria ideal pela sua mentalidade vencedora e por atuar em duas posições.
E o novo pivô Marcus Goree?
Ele nunca atuou em times Sul-americanos. Jogou muitos anos nas melhores equipes de basquete no mundo. Hoje, tem 35 anos e pensou que o Brasil seria uma boa opção. A ideia é trazer um jogador que mostre aos outros como funciona um basquete de alto nível. Vai nos ajudar a ter mais ciência do esporte. Pensamos em pivôs brasileiros, o Murilo e o Caio Torres, mas já tinham ofertas de outras equipes.
Acompanhou a última edição do NBB? O que achou do UniCeub e da eliminação nas quartas de final?
Aconteceu o mesmo comigo quando estava no comando do Peñarol. Ganhamos três campeonatos seguidos e perdemos o quarto. É normal isso acontecer porque o entusiasmo e a energia acabam. Para as outras aquipes tudo é novo, e para nós, não. É necessário cair para levantar mais forte e lutar por aquilo que um dia foi conquistado. Por isso, o Peñarol e UniCeub estarão perigosos no próximo campeonato.
O que te difere do José Vidal como treinador?
Somos pessoas muito parecidas na maneira de trabalhar. Não o conheço muito, mas como líder é parecido comigo.
Arthur, Alex, Nezinho e Giovannoni são amigos e jogam juntos há muitos anos. É um ponto positivo pelo entrosamento, mas isso pode prejudicar a equipe de alguma maneira?
Depende do quão boa seja a relação deles. Se for forte o suficiente, a convivência só pode ser boa. Em quadra não há nada melhor.