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Ouro "torto" de Baloubet será tema de documentário de Cacá Diegues

Arquivo Geral

21/02/2013 14h47

Na vida de suas retinas tão fatigadas, Baloubet du Rouet nunca se esquecerá que no meio do caminho tinha um obstáculo/tinha um obstáculo no meio do caminho. Com o título inspirado no poema de Carlos Drummond de Andrade, o renomado Cacá Diegues, um dos criadores do Cinema Novo, prepara um documentário sobre a tortuosa trajetória percorrida pelo brasileiro Rodrigo Pessoa e sua montaria rumo ao ouro olímpico.

 

O filme “No meio do caminho tinha um obstáculo” se propõe a retratar o período iniciado com as históricas refugadas de Baloubet du Rouet nos Jogos de Sydney-2000 e encerrado com o ouro das Olimpíadas de Atenas-2004 – o conjunto ganhou o prêmio apenas no ano seguinte pelo doping de Waterford Crystal, montado pelo irlandês Cian O’Connor na Grécia. Apesar do caráter documental, a produção terá alguns elementos ficcionais, especialidade de Cacá Diegues.

 

“Participar de um projeto como esse é ajudar a contar a história da alma brasileira e suas emoções esportivas através de fatos reais, como em uma antropologia do esporte e do espírito nacionais”, afirmou o cineasta, diretor de filmes históricos, como Xica da Silva (1976) e Bye Bye Brasil (1980). A meta da equipe responsável pela produção é terminar de colher os depoimentos ainda em fevereiro e finalizar a obra até o próximo mês de abril.

 

A proposta, idealizada pela produtora Luz Mágica, de Cacá Diegues, foi selecionada na segunda edição do projeto Memória do Esporte Olímpico Brasileiro, que viabilizou filmes sobre medalhistas como Servílio de Oliveira, José Telles da Conceição e Adhemar Ferreira da Silva em sua primeira fornada. O documentário a respeito de Baloubet de Rouet, escolhido entre 122 concorrentes, receberá R$ 230 mil e terá uma duração aproximada de 26 minutos.

 

Há cerca de 13 anos, a delegação brasileira embarcou para os Jogos de Sydney com grandes expectativas em diferentes esportes, mas retornou sem as sonhadas medalhas douradas – ganhou seis pratas e seis bronzes. No documentário, serão abordadas as decepções de outros esportistas cotados ao ouro, como Gustavo Kuerten, Robert Scheidt e Ronaldinho Gaúcho, destaque da Seleção de futebol masculina, entre outros. A ideia é mostrar o clima de expectativa que cercava a participação de Baloubet du Rouet e Rodrigo Pessoa na final do hipismo.

 

“A lembrança de todo mundo acordando cedo para ver a única medalha de ouro do Brasil em Sydney ainda é muito viva para mim”, explica Renata Magalhães, casada com Cacá Diegues e produtora do documentário. “De repente, nos demos conta de que no mundo há obstáculos. O que é ser favorito? Como você pode ter certeza, se somos todos falíveis? É um pouco a metáfora da nossa vida, porque a gente acha que controla tudo, mas no meio do caminho pode ter um obstáculo que muda as coisas”, completou.

 

Juntos, Rodrigo Pessoa e Baloubet du Rouet conquistaram o inédito tricampeonato da Copa do Mundo em Helsinque-1998, Gotemburgo-1999 e Las Vegas-2000. A falha nos Jogos de Sydney, no entanto, fez o prestígio do conjunto escorrer pelo ralo entre o grande público, que até incorporou o verbo “refugar”, apesar do bronze por equipes. Para finalizar o enredo cinematográfico, a parceria se recuperou com o tortuoso ouro de Atenas-2004.

 

“Temos a proposta de fazer um documentário usando elementos de ficção, porque a história deles tem uma curva dramática incrível. Vamos contá-la com uma certa dramaturgia, colocando elementos que pontuam a narração. A medalha de ouro foi toda torta, já que veio do doping do outro cavalo e era totalmente inesperada para o próprio Rodrigo. Eles são anti-heróis com um final de heróis. Isso tudo nos leva a refletir sobre nossa relação com o esporte, sobre a obrigação de ganhar. No Brasil, ninguém pode perder pênalti, quando na verdade a graça do esporte é que acontece o que a gente acha que não vai acontecer”, disse Renata.

 

Aposentado das competições desde 2006, Baloubet du Rouet vive em um haras nas imediações de Lisboa. No último mês de janeiro, Cacá Diegues e Renata Magalhães estiveram na Europa para filmar o animal, considerado um dos melhores saltadores da história, e fazer as duas entrevistas que funcionarão como espinha dorsal do documentário: com o milionário português Dom Diogo Pereira Coutinho, proprietário do mito de quatro patas, e com o cavaleiro Rodrigo Pessoa.

 

“De certa forma, os dois falaram a mesma coisa sobre Sydney. Na realidade, houve uma dupla falha, já que se trata de um conjunto. Provavelmente, o Rodrigo entrou mais nervoso e o animal sentiu medo ou uma contusão”, disse Renata. O encontro com o cavaleiro, segundo a produtora, foi marcante. “O Rodrigo fez uma coisa linda: descreveu, obstáculo por obstáculo, a prova de Sydney. Nessa hora, você percebe que cavalo e cavaleiro são a mesma coisa. É uma relação que a gente não compreende bem. Todo mundo ficou emocionado e o Cacá até chorou”, contou.

 

Em julho de 2012, a Gazeta Esportiva.net revelou que a decisão de encerrar a carreira de Baloubet du Rouet, tomada por Dom Diogo Pereira Coutinho, causou o afastamento entre o português e Rodrigo Pessoa. Segundo a produtora de “No meio do caminho tinha um obstáculo”, os dois se mostraram receosos diante de possíveis questionamentos sobre o assunto durante os recentes encontros. Na medida em que o desentendimento é posterior aos Jogos de Atenas-2004, ele não será abordado no filme.

 

À GE.net, Nicole Pereira Coutinho, esposa de Dom Diogo, atribuiu a responsabilidade pelas refugadas a Rodrigo Pessoa. O cavaleiro teria ficado insatisfeito pela mãe não estar no lugar da arena que ele desejava e transmitido seu nervosismo para o cavalo durante a prova, teoria que não será retratada no filme de Cacá Diegues e Renata Magalhães. O foco do documentário é, essencialmente, a trajetória do conjunto e sua relação, pontua a produtora.

 

“O que senti é que tanto para o Rodrigo quanto para o Dom Diogo o Baloubet é como se fosse uma pessoa, o cavalo é mais importante do que todos nós juntos. É uma coisa que a gente não pode nem opinar, uma coisa de família mesmo. O hipismo é o único esporte olímpico com um animal. O cérebro é do cavaleiro e os músculos são do cavalo. A relação entre homem e bicho é incrível. Então, o filme é realmente sobre os dois”, definiu.

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