Gustavo Kuerten ouviu uma reclamação em uma das nove escolinhas de tênis voltadas a crianças de quatro a dez anos que mantém. O pai de um aluno não queria mais que o filho fosse tratado como um novato após a conquista de um vice-campeonato brasileiro. “Falei para o técnico que o pai poderia vir falar diretamente comigo”, contou o tricampeão de Roland Garros e maior tenista sul-americano da história, sorrindo.
A divergência com alguns pais é um problema pequeno se comparado ao que Guga enfrentou no extinto Projeto Olímpico de Tênis, que visava à formação de tenistas para os Jogos do Rio de Janeiro, em 2016. Lançada em setembro de 2011, com o apoio do ex-atleta e do seu antigo treinador Larri Passos como coordenador, a iniciativa tinha aporte de R$ 2 milhões do Ministério do Esporte à Confederação Brasileira de Tênis (CBT). Acabou de forma melancólica, com troca de acusações entre os envolvidos.
“Foi um projeto muito frustrante, um fracasso. Nem cogito mais voltar a trabalhar com programas ligados ao esporte de alta performance financiados por leis de incentivo ou pelo Ministério. É impossível pensar em algo para tão curto prazo, para menos de cinco anos. Seria desperdiçar o tempo que eu poderia gastar fazendo boas ações”, disse um desiludido Guga, sem pretensões também de se engajar politicamente na CBT. “Não quero ser dirigente. Já pensei nisso, mas nunca tive interessante. Meu papel seria muito restrito nesse posto. Só acho que posso ser mais bem aproveitado, pois estou disponível para ajudar em outras atividades.”
Para Guga, nunca foi tão propício (nem voltará a ser) investir em esporte no Brasil quanto agora, a três anos das Olimpíadas do Rio. O ex-jogador acredita que a CBT deva confiar no seu projeto de criação de novas instituições de ensino de tênis, e não apenas apostar em estrutura, para tirar proveito do momento oportuno.
“Já evoluímos, mas precisamos acertar mais, escolhendo bem no que investir. As Olimpíadas estão aí. Depois disso, o que vai acontecer? Naturalmente, haverá uma retração do volume financeiro. Por isso, devemos definir bem as nossas ações. Hoje, muitos garotos estão indo pelo ralo porque o contexto do tênis não é o mais adequado. Eu poderia estar em casa, mas quero que o esporte floresça mais no Brasil, principalmente com escolinhas. Nem tudo está perdido. É a hora da virada”, definiu.
Para virar o jogo, Guga conta com o suporte de técnicos determinados, como foi Larri Passos em sua trajetória. Ele acredita que o Brasil não dispõe de uma quantidade suficiente de profissionais capacitados para a função. “Temos que botar o dedo na ferida. Vemos um monte de quadras no País, mas não pessoas com nível técnico para lidar com as crianças. Isso mata um jogador. Se você pega um cara com potencial para ser o melhor do mundo e ele ainda joga todo torto com 14 anos, não há mais conserto. Isso é inconcebível, e acontece hoje em dia. Sem treinador, você não forma jogador”, sentenciou.
O sonho de Guga é comandar uma rede de mais de uma centena de escolas de tênis para garotos. Até então, o seu projeto tem unidades em Brasília, Minas Gerais, Pernambuco, Paraná e Santa Catarina. “Muita gente diz que isso é só escolinha. Mas, se forem 100 escolinhas, com 100 bons professores, teremos um monte de bons jogadores. A Espanha talvez seja a única nação que faça isso. Sei que é muito difícil criar essa base. Mas, além da CBT, posso ser o único cara com condições de promover algo assim. O tênis também me proporcionou um legado financeiro. Quero retribuir. E, em um momento como esse, eu consigo enxergar o meu sonho se realizando”, garantiu, com a mesma confiança de quem surpreendeu o mundo esportivo ao conquistar Roland Garros na condição de mero azarão, em 1997.