Um técnico israelense da equipe sub-19 e um ‘baixinho’ norte-americano como destaque. A improvável combinação contribuiu para fazer o Palmeiras espantar o risco de rebaixamento e sonhar com uma vaga nos playoffs do Novo Basquete Brasil (NBB). Embalado por uma série de sete vitórias como mandante, o time treinado por Eran Sherzer e defendido por Caleb Brown, 1,84m, depende de outras equipes para avançar nas últimas quatro rodadas, mas mantém as esperanças.
“O sonho continua. Enquanto tivermos chance de classificação, vamos lutar. Nosso objetivo é conseguir o máximo possível de vitórias. Se temos quatro jogos, queremos as quatro vitórias. É claro que isso às vezes não acontece, mas não podemos ficar frustrados se houver alguma derrota no meio do caminho, até porque vamos enfrentar grandes times. Nada impede que você ganhe do líder e perca do lanterna. Temos que tomar cuidado”, afirmou o pivô Tiagão.
Atual 14º colocado, o Palmeiras inicia sua cruzada por uma vaga entre os 12 primeiros diante do líder Flamengo, no Rio de Janeiro, na noite desta quinta-feira. Em seguida, encara o Tijuca, penúltimo lugar. Nas últimas duas rodadas, já na condição de mandante, faz confrontos diretos pela classificação contra Joinville (15º) e Limeira (12º). A simples chance de sonhar com uma vaga no playoff na reta final do torneio parece um milagre no Palestra Itália.
Sob o comando do espanhol Arturo Alvarez, o Palmeiras acumulou duas vitórias e 15 derrotas no primeiro turno do NBB e chegou a correr risco de disputar o quadrangular da morte para definir os rebaixados na próxima temporada. A partir da segunda metade do campeonato, no entanto, a equipe, alavancada pelos jogos dentro de casa, reagiu expressivamente, já que soma oito triunfos e cinco tropeços. Apenas o Brasília, invicto há nove jogos como mandante, é superior no quesito.
Com passagem pela comissão técnica do Real Madrid, Arturo Alvarez, ex-comandante da seleção paraguaia, teve problemas com seu visto de trabalho e foi obrigado a abandonar o Palmeiras repentinamente para retornar à Espanha durante o campeonato. Desta forma, Eran Sherzer trocou os adolescentes do time sub-19 pela responsabilidade de dirigir a equipe principal no NBB a partir da 25ª rodada. Na medida em que já atuava como assistente do técnico europeu, sua adaptação acabou facilitada.
“Foi de repente, mas temos que estar preparados para isso. Afinal, é onde queremos chegar na nossa carreira. Sinceramente, não gostei de assumir nessa situação. O Arturo para mim é um grande profissional, com o qual aprendi bastante. Mas a diretoria pediu e não tive muita escolha. Você acaba ficando um pouco preocupado, pensando: será que vou dar conta? Mas, dentro da quadra, esquece tudo isso. Se conseguimos entrar nos playoffs, ótimo. Caso contrário, só terminar bem o campeonato já seria bom”, disse.
Nascido em Israel, Sherzer é casado com uma brasileira e veio ao Brasil com 27 anos. De sua passagem pelo exército na terra natal, o técnico guarda os exemplos de liderança. Comandante nas surpreendentes vitórias sobre Uberlândia (3º), Franca (5º) e Bauru (4º), ele atribui a evolução ao entrosamento do time, processo iniciado por Alvarez, e ao fato de que no segundo turno o Palmeiras terá a chance de fazer nove jogos perto de sua torcida, dois a mais que na metade inicial do torneio.
“O Arturo apanhou um pouco no primeiro turno, mas fez um trabalho espetacular ao imprimir uma identidade e uma filosofia ao grupo. Gradualmente, a equipe ganhou entrosamento. Nos jogos em casa, a torcida faz muita diferença e podemos ganhar de qualquer adversário. Além disso, entramos em quadra mais descansados e concentrados, uma vez que não precisamos viajar. Jogando perto da família e dos amigos, todo mundo também fica mais à vontade”, enumerou.
Em sua primeira temporada no NBB, o Palmeiras viveu alguns momentos inusitados no Ginásio Palestra Itália, em que os torcedores, habitados com o futebol, costumam gritar “Gol! Gol! Gol!” antes dos lances livres. Contra o Uberlândia, o time venceu depois de quatro prorrogações no jogo mais longo da história do torneio. Diante da Liga Sorocabana, o grito de “Corinthians” do técnico adversário provocou confusão. Com o hábito de cumprimentar o público na grade ao final de cada jogo, Tiagão valoriza os fãs.
“É difícil ver uma torcida como essa, ainda mais em um campeonato de basquete. A torcida está comparecendo e não para de nos apoiar. Que outro time do NBB tem uma torcida como essa? Se o público já está lotando o ginásio na primeira fase, imagine como seria no playoff. Vamos fazer de tudo para conseguir a classificação e oferecer mais alguns jogos para os torcedores”, afirmou o pivô, um dos líderes do grupo alviverde.
Se no primeiro turno os jogadores ainda não se conheciam e o técnico precisava pedir para que eles se comunicassem durante simples treinamentos, agora o entrosamento é claro. Os atletas vibram, trocam peitadas nas comemorações e, no final de cada partida, ao som do hino do Palmeiras, se reúnem no meio da quadra para gritar o nome do clube. A melhora do ambiente, resultado da reação da equipe no torneio, passa pelas mãos do ‘baixinho’ norte-americano Caleb Brown.
“Eu fico até preocupado de estar exigindo muito dele, porque o ideal seria deixá-lo descansando um pouco mais durante os jogos. Mas o CB dá conta, sempre deu. É o jogador que mais treina, já está no Palmeiras há três anos e nos conhecemos bem. Ele não é dos mais altos, mas é forte e ganha muito na velocidade. Consegue penetrar nas outras defesas com facilidade, tem um arremesso muito bom e está melhorando na leitura de jogo”, elogiou Sherzer.
De acordo com o site oficial do Palmeiras, Brown tem 1,84m, algo difícil de acreditar lado a lado com ele. Nascido em Memphis, o armador de 24 anos é o líder em diversos fundamentos entre seus companheiros – tem médias de 16,6 pontos, 3,6 assistências, 1,7 roubadas e impressionantes 33,5 minutos por partida. Acostumado a ser o mais baixo da equipe, o pequeno norte-americano também acredita na possibilidade de lograr o grande feito de disputar os playoffs.
“Eu seria o menor em qualquer time de basquete que jogasse”, contou, rindo. “Estou acostumado com isso. Por outro lado, sou sempre um dos mais rápidos. Não acho que seja mais difícil de jogar pela minha altura. Quando ao preparo físico, estou tranquilo. Eu poderia correr por dias. Acho que é possível (conseguir uma vaga nos playoffs). Para isso, temos que fazer a nossa parte e ganhar mais jogos. Não podemos nos preocupar com o que os outros times estão fazendo”, declarou.