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O imponderável das urnas e os erros das pesquisas

A história eleitoral brasileira está repleta de exemplos em que os institutos erraram por diferenças muito superiores àquelas que hoje separam os presidenciáveis

Vladimir Porfírio

25/10/2026 11h54

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Lula pode ganhar a eleição deste domingo, contrariando as pesquisas que apontam uma pequena vantagem para Flávio Bolsonaro. Mas, pelo mesmo raciocínio, Flávio pode vencer com uma diferença ainda maior do que a registrada pelos institutos.

A história eleitoral brasileira está repleta de exemplos em que os institutos erraram por diferenças muito superiores àquelas que hoje separam os presidenciáveis. E isto acontece porque quando uma eleição está praticamente empatada, a capacidade das pesquisas de antecipar o vencedor fica seriamente limitada. Basta um pequeno erro de medição para transformar o primeiro colocado em segundo.

O caso mais eloquente é o Datafolha. Na véspera do primeiro turno de 2022, o instituto atribuía 36% dos votos válidos a Jair Bolsonaro. As urnas registraram 43,20%. Uma diferença monumental de 7,2 pontos percentuais. Lula aparecia com 50% e terminou com 48,43%. A vantagem anunciada de 14 pontos desabou para pouco mais de cinco.

No segundo turno, o Datafolha apontou Lula com 52% e Bolsonaro com 48%. A apuração terminou em 50,90% contra 49,10%. A distância de quatro pontos encolheu para apenas 1,8 ponto.

O instituto identificou corretamente o vencedor, mas superestimou sua vantagem. Numa eleição ainda mais apertada, um desvio semelhante poderia inverter a ordem dos candidatos.

O problema é que essa dificuldade não se restringe às disputas presidenciais. Nas eleições estaduais, há episódios ainda mais expressivos, nos quais os números publicados na reta final ficaram muito distantes daquilo que as urnas revelaram.

Em São Paulo, no primeiro turno de 2022, o Datafolha apontava Fernando Haddad com 41% dos votos válidos, contra 31% de Tarcísio de Freitas, três dias antes da votação. A urna inverteu a ordem: Tarcísio terminou com aproximadamente 42,3%, enquanto Haddad ficou com 35,7%. O candidato que aparecia dez pontos atrás terminou quase sete pontos à frente. Um erro de direção, não apenas de intensidade.

No Rio Grande do Sul, a surpresa também foi expressiva. O Ipec registrava Eduardo Leite com 40% dos votos válidos, Onyx Lorenzoni com 30% e Edegar Pretto com 20%, na reta final do primeiro turno. As urnas colocaram Onyx em primeiro, com 37,5%, e Leite e Pretto praticamente empatados, com 26,8% cada. O instituto não conseguiu antecipar corretamente nem a liderança.

Em Minas Gerais, o Datafolha estimou Romeu Zema com 56% dos votos válidos, contra 35% de Alexandre Kalil, na véspera do primeiro turno de 2022. Zema terminou com aproximadamente 56,2%, resultado muito próximo da estimativa. É o contraponto necessário: os institutos também acertam, e o problema se torna especialmente delicado quando os candidatos estão separados por diferenças pequenas.

Esses episódios desmontam a ideia de que uma pesquisa divulgada às vésperas da votação seja uma espécie de ensaio geral da apuração. Em disputas apertadas, um erro que seria politicamente irrelevante numa eleição folgada pode determinar até a identificação equivocada do vencedor.

Agora, em 2026, o Datafolha registra Flávio Bolsonaro com 51% dos votos válidos e Lula com 49%. A diferença de dois pontos está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. O levantamento anterior mostrava empate de 50% a 50%.

Tudo isso sem falar da dificuldade dos institutos em prever quem efetivamente comparecerá às urnas.

No segundo turno presidencial de 2022, aproximadamente 32,8 milhões de brasileiros não votaram. A abstenção chegou a 20,59%. É um contingente gigantesco, cuja distribuição entre os diferentes grupos de eleitores pode influenciar o resultado de uma disputa equilibrada.

Os institutos conseguem perguntar em quem o cidadão pretende votar. Outra coisa é assegurar que ele comparecerá. Modelos estatísticos podem estimar essa disposição, mas não garantem reproduzir exatamente o comportamento real do eleitorado.

A própria pesquisa Datafolha de 2026 oferece um exemplo revelador. Entre os entrevistados classificados com alta propensão de comparecimento, Flávio registra 52% e Lula, 48%. Entre aqueles com média ou baixa propensão, a relação se inverte: Lula aparece com 52% e Flávio, 48%.

Portanto, não basta conhecer a preferência declarada. É preciso saber qual parcela de cada grupo realmente votará.

Há também a incógnita dos votos brancos e nulos. Em 2022, aproximadamente 7,5 milhões de eleitores compareceram ao segundo turno presidencial sem escolher qualquer candidato. As pesquisas procuram medir essa disposição, mas o eleitor pode mudar de ideia, decidir por um candidato ou simplesmente não votar.

Não existe uma taxa universal de acerto dos institutos para abstenções, brancos e nulos. A avaliação exige confrontar estimativas específicas com os resultados oficiais, utilizando bases comparáveis. O que não se justifica é tratar essas variáveis como se fossem estatisticamente desprezíveis.

É precisamente quando a diferença entre os candidatos se torna mínima que todas essas incertezas adquirem importância máxima.

Os erros de 2022 não significam que Lula será beneficiado por uma nova divergência entre pesquisas e urnas. Tampouco asseguram que Flávio ampliará sua vantagem. Demonstram apenas que existem precedentes concretos de levantamentos incapazes de reproduzir, com precisão suficiente, a distribuição final dos votos.

A ciência estatística merece respeito. A pretensão de infalibilidade, não. Pesquisa é instrumento de medição, não serve como escritura pública de vitória.

Neste domingo, Lula e Flávio Bolsonaro estarão submetidos à única contagem capaz de estabelecer definitivamente o vencedor: a apuração oficial.

Até lá, qualquer proclamação antecipada de vitória pertence mais ao terreno da torcida do que ao da ciência.

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