A última vez que Brasília foi solapada por uma mentira relacionada a ganhos milionários no meio político, o deputado Tiririca estava no centro do caso. O episódio em questão era uma das brincadeiras do parlamentar na internet que, em 2019, viralizou ao reproduzir o layout falso de um site de notícias com uma fake news, sobre os sortudos de um cartão premiado da Mega-Sena. A chamada falsa, imitando um portal jornalístico, noticiava que um bolão de servidores do TJDFT teria acertado as seis dezenas sorteadas, levando o prêmio de R$ 250 milhões. O print falso gerou milhares de cliques no link. Mas, no lugar da reportagem sobre os ganhadores, o internauta era surpreendido pela imagem do deputado caracterizado como o palhaço Tiririca, acompanhado da legenda reveladora: “É mentira, abestado!”
Sete anos depois, a mentira de um parlamentar voltou com força total, envolvendo valores milionários para o presidenciável Flavio Bolsonaro. Mas, desta vez, a mentira não tem a menor graça.
Seria leviano fazer qualquer juízo definitivo, hoje, sobre o episódio do vazamento do áudio do senador Flávio Bolsonaro, cobrando dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, sobretudo no campo dos supostos crimes que possam vir a ser elencados. Mas já é possível afirmar que o presidenciável do PL foi flagrantemente “pego na mentira”, trazendo de volta o refrão de um divertido sucesso de Roberto e Erasmo Carlos.
No primeiro momento após o vazamento do áudio revelador, Flávio Bolsonaro foi surpreendido por colegas de imprensa que cobravam explicações sobre dinheiro recebido de Vorcaro. Ele reagiu dizendo que “é mentira, de onde tirou isso?”. Mais adiante, ele justificou a mentira alegando cláusulas de confidencialidade contratual. Em outra oportunidade, Flávio Bolsonaro voltou a ser acusado de contradição ao negar “intimidade” com Vorcaro. O áudio vazado, entretanto, revela que o senador tratava o banqueiro como “irmão”. Na mesma linha do desmentido anterior, Flávio minimizou o padrão do tratamento, sustentando que também chama de “irmão” o vendedor de água de coco nas praias do Rio de Janeiro. Mas ele não esclareceu se “estará sempre” com o rapaz do coco, ou se garantiu não haver “meia conversa” entre eles, como prometeu ao banqueiro.
O pré-candidato do PL alega que “não sabia das fraudes” quando cobrou dinheiro de Vorcaro, em 8 de setembro de 2025. Na avaliação de adversários, esse seria o terceiro “pega na mentira” do senador, já que o Banco Central do Brasil havia proibido, em 3 de setembro de 25, a operação de compra do Banco Master pelo BRB, fato que teve ampla repercussão na imprensa, levantando uma onde de suspeitas contra Vorcaro. Vorcaro já era bem suspeito.
A troca de mensagens entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, entretanto, seguiu intensa – “a pretexto do filme sobre Jair” – até a véspera da primeira prisão do empresário. Mas também depois dela, segundo confirmou o próprio Flávio Bolsonaro depois dessa série de desmentidos. Ele alega que foi a casa de Vorcaro para dizer que “não faria mais negócios” com o banqueiro.
Para completar, está claro que o clã Bolsonaro ainda não trata o caso como crise política de grandes proporções. Isso não chega a surpreender, depois de ver bolsonaristas bebendo detergente para acompanhar a defesa dos Bolsonaro a uma marca de produtos de limpeza, punida pela ANVISA. O brasil assistiu a aposta numa gestão de crise pautada pela super exposição e por versões que podem ser facilmente confrontadas pelos fatos.
Outras declarações de Flávio Bolsonaro também vêm sendo tratadas por adversários como novos casos de “pega na mentira”, inclusive numa suposta tentativa frustrada de blindar o irmão Eduardo bi caso, hoje também na berlinda.
Mas esse circo de mentiras sem graça não vence o sucesso do palhaço Tiririca, visto que os R$ 61 milhões de Vorcaro, supostamente recebidos por Flávio Bolsonaro, não superam os R$ 250 milhões da fake news sobre o prêmio do bolão da Mega-Sena para a turma do TJDFT. Mas Tiririca sempre pode voltar para repetir: “É mentira, abestado!