Descontada a eventual repercussão do imponderável sobre o que ainda possa surgir contra Flávio Bolsonaro, as chances de uma inversão de tendência na eleição presidencial dependem de um desempenho acachapante de Lula nos debates da Band e da Globo.
Ainda não há consenso sobre o equívoco da estratégia de primeiro turno, que evitou os debates, mas, no QG de Lula, o assunto agora é tratado como prioridade estratégica.
Os mais otimistas no PT lembram que, em agosto de 2016, quando disputava a Prefeitura do Rio de Janeiro, Flávio passou mal durante o debate da Band. Pálido, suando e com queda de pressão, precisou abandonar o programa no segundo bloco.
Dez anos depois, Flávio chega ao confronto presidencial sem experiência recente em debates televisivos. E isso pode fazer a diferença diante de um adversário que passou mais de quatro décadas enfrentando campanhas eleitorais, crises econômicas, acusações e adversários de todos os calibres.
Os encontros previstos para 18 de outubro, na Band, e 23 de outubro, na Globo, poderão oferecer a Lula a oportunidade de reverter o fracasso da campanha convencional, que não conseguiu transportar para as peças publicitárias o talento pessoal do líder político.
Lula chega ao segundo turno carregando uma derrota que começou antes das urnas. O cancelamento do debate da Globo, no primeiro turno, transformou-se em desastre político. Sua ausência, a decisão do TSE proibindo a exibição do púlpito vazio e a intervenção do STF nas regras do confronto alimentaram a interpretação de que uma manobra de poder pretendia proteger o presidente.
Não há prova de uma operação articulada, mas a sequência dos acontecimentos produziu combustível para essa narrativa. A decisão judicial pareceu feita sob medida para poupar Lula do constrangimento. A Globo denunciou interferência nas regras previamente acordadas, adversários falaram em favorecimento em horário nobre, e o episódio ganhou repercussão viral nas redes sociais. O presidente terminou politicamente alvejado por um debate que sequer aconteceu.
Agora, precisará recuperar diante das câmeras o terreno perdido.
Em 1989, Lula foi derrotado por Collor depois de uma campanha marcada por um debate cercado de controvérsias e acusações de manipulação. Em 2002, apareceu sereno, seguro, capaz de conquistar eleitores desconfiados do PT. Superou-se. Em 2006, sua ausência no debate da Globo ajudou a desgastar a campanha. Em 2022, alternou bons e maus momentos contra Jair Bolsonaro, que também se perdeu em explosões de irritação e respostas dispersas.
A vantagem de Flávio não nasceu exclusivamente do antipetismo. Nasceu também da incapacidade do governo de conversar com o Brasil fora das bolhas ideológicas.
Por outro lado, o PT demorou a compreender o poder político das Big Techs e de seus algoritmos pouco transparentes. E, pelo visto, continua enxergando o trabalhador brasileiro com os olhos de décadas passadas.
O Brasil tem 38,8 milhões de trabalhadores informais. Para muitos deles, por exemplo, a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil valeu meio gol, pois ela representa pouco ou nenhum benefício adicional, simplesmente porque já não pagavam o tributo.
O repertório temático da campanha de Lula completou a coleção de equívocos. Deixou o presidente sem um discurso convincente para enfrentar a sabatina da Globo, enquanto oferecia munição política a Flávio ao disparar contra a ampliação do acesso às armas de fogo no Brasil.
Nesse quesito, aliás, alguém deveria ter lembrado que o Datafolha de 2023 já avisava: o assunto era bola dividida. Nada menos que 50% dos brasileiros se declaravam total ou parcialmente favoráveis ao direito de possuir uma arma de fogo legalizada para defesa pessoal, contra 48% de opiniões contrárias.
Lula terá de enfrentar essa realidade nos debates. Não bastará denunciar Bolsonaro, defender a democracia ou recitar conquistas passadas.
Flávio tem a seu lado a matemática, as alianças e o antipetismo. Lula ainda tem o talento pessoal a seu favor.